CRATO, Ceará — A Praça de Sé, fincada no centro de Crato, fica repleta de moradores do início da manhã até o fim da noite.
Numa tarde ensolarada (com sensação térmica de 38ºC), o mototaxista Roberto Vidal defendia que o Bolsa Família faz muitos brasileiros perderem o interesse pelo trabalho. De repente, outro homem grita no meio da praça: “Mas você recebe Bolsa Família!”
Roberto rechaça a acusação, diz que a mulher é professora, assim como uma de suas duas filhas (a outra é enfermeira). Ele também tem um filho que trabalha com contabilidade e, com esta renda familiar, disse, nem teria direito ao benefício.
Sentado ao lado dele, o aposentado Máximo Antônio Oliveira discordava de boa parte do que Roberto dizia.
Máximo é um lulista convicto – assim como Roberto já foi, mas o mototaxista decidiu que vai de Flávio Bolsonaro no domingo.
O tom da conversa subiu algumas vezes, mas sem ofensas.
A cena ajuda a explicar o clima eleitoral que o Brazil Journal encontrou em Crato.
A política está nas ruas, nas bandeiras e nas conversas – mas o entusiasmo já não é o mesmo de outras eleições. Para muitos, existe a sensação de que, apesar de tanta falação na política, o Brasil está parado no tempo.

Aqui no Cariri, uma região no sul do estado, Lula continua um ídolo.
Na última eleição, o petista teve quase 85% dos votos válidos no segundo turno, contra 15% de Jair Bolsonaro. Foram cerca de 66 mil votos para Lula numa cidade de cerca de 160 mil habitantes.
Mas a resistência ao lulismo existe – e Roberto é um exemplo disso. Sua frustração vem, entre outras coisas, da percepção de que o Governo avançou pouco.
“Na minha opinião, o Lula só manteve as coisas. Não mudou nada,” disse ele.
Os eleitores que ouvimos – à esquerda e à direita – acreditam que Lula segue como o favorito para vencer com uma boa vantagem. Mas todos percebem que há mais resistência ao Presidente do que em outros momentos.
Naldo Pereira é um ambulante que vende bonés de apoio a Lula e Flávio no centro do Crato. Ele disse que antes estava vendendo mais bonés de Flávio, mas que a conta mudou nos últimos dias.
“Agora, de cada dez, oito são vermelhinhos,” disse ele. “Mas ainda vem gente interessada no boné verdinho.”
A disputa entre Lula e Flávio ficou mais acirrada aqui desde que Ciro Gomes entrou na corrida pelo Palácio da Abolição, em Fortaleza. Uma de suas principais bandeiras é justamente atirar contra o PT.
Ciro conta ainda com o apoio do PL no Ceará, embora tenha evitado colar sua campanha na de Flávio Bolsonaro, buscando manter a disputa estadual separada da presidencial.
Ainda assim, parte da pressão sobre o lulismo no Crato não vem da direita: vem do cansaço. Especialmente dos mais jovens.
Carlos Eduardo Oliveira tem 24 anos e trabalha num quiosque de sorvetes no centro da cidade.
Sua família é praticamente toda de esquerda e parte dela recebe ou já recebeu Bolsa Família. Ele próprio se considera mais à direita, especialmente por questões religiosas, mas não está entusiasmado com Flávio – e muito menos com Lula.
“Não consigo ver ninguém altamente capacitado para ser presidente hoje em dia,” disse.
Matheus Barbosa, de 35 anos, compartilha parte desse desencanto. Ele trabalha como pregoeiro e diz que não pretende votar nem em Lula nem em Flávio.
“Para mim, só muda o partido,” disse Matheus. “Eu preferia um nome novo, que pudesse mudar alguma coisa.”
Há uma explicação lógica para essa insatisfação dos eleitores mais jovens com o governo do PT. Quem está hoje na faixa dos 20 a 30 anos cresceu num Brasil em que muitas das políticas que transformaram o Nordeste (com Lula) já faziam parte do dia a dia.
Essa geração não se lembra de um Crato sem universidade por perto, sem escola técnica, sem programas de transferência de renda ou outras políticas públicas que seus pais e avós viram surgir ou ganhar escala.
Ou seja, aquilo que para uma geração foi uma grande conquista virou piso para a seguinte.
Ao falar do próprio filho e alunos, a professora Maria Simone do Nascimento disse que a nova geração já cresceu cercada por oportunidades que, para a geração dela, não existiam da mesma forma.
Ela lembra que, quando estudava, a merenda escolar podia ser apenas um ovo cozido. Hoje seu filho almoça e janta na escola técnica.
Simone também recebeu Bolsa Família durante um período em que estava sem emprego. Segundo ela, o dinheiro ajudou na educação do filho e durante sua faculdade. Depois que voltou a trabalhar, perdeu o benefício.
“O Bolsa Família nunca foi o suficiente para bancar minhas contas de casa, mas sempre me ajudou a me desafogar em momentos difíceis,” disse ela. “Eu sou filha das políticas públicas.”
Hoje Simone trabalha durante a manhã “como CLT” (como gosta de reforçar) e ainda mantém, com outras professoras, uma escola de reforço no período da tarde.
Essa memória ajuda a entender por que Lula continua forte no Crato.
Para muita gente das gerações mais velhas, a relação com o presidente não nasceu de uma discussão abstrata entre esquerda e direita, mas de experiências concretas dentro de casa.
“Eu mato e morro pelo Lula,” disse a também professora Paula do Nascimento.
Paula diz que sua família foi beneficiada por diferentes políticas públicas ao longo dos anos – e faz questão de lembrar que não está falando apenas do Bolsa Família. Cita descontos na conta de luz, escola em período integral, acesso à universidade e as cotas.
“Eu consegui concorrer com alguém que teve acesso a coisas que eu não tive… nós nunca conseguiríamos isso se as políticas públicas não tivessem sido efetivadas,” disse ela.
A funcionária pública Luciana Freire Pinto Maio faz uma defesa parecida.
Ela nasceu em São Paulo, mas vive há mais de três décadas no Nordeste e diz ter sido “adotada” pelo Crato. É uma apoiadora tão declarada de Lula que anda com o carro adesivado – mas nunca foi filiada ao PT.
Quando ouve a crítica de que o Nordeste vota em Lula por causa do Bolsa Família, Luciana amplia a lista de programas: lembra do Luz para Todos, das universidades e da Farmácia Popular.

Seu pai, diz ela, consegue medicamentos e fraldas geriátricas por meio do programa – resultando num dinheiro que sobra para a alimentação da casa.
Para ela, essa é uma das razões da “adoração” que parte do Nordeste ainda tem por Lula: a percepção de que políticas públicas levaram oportunidades a lugares onde antes elas eram muito menores.
“É muito fácil para uma pessoa falar mal de programas como esses sendo que ela sempre teve comida na mesa e luz em casa,” disse.
A fisioterapeuta Raíssa Soares de Moraes é outra lulista convicta – e se considera uma mulher de privilégios.
Ela é neta de Raimundo Bezerra Lima, o “Mundeza”, que foi prefeito da também cearense Caririaçu pelo MDB nas décadas de 1960 e 1970. Raíssa diz que por muito tempo votou seguindo os interesses da família, mas depois começou a desenvolver aquilo que chama de “consciência de classe”.
Isso aconteceu, segundo ela, quando passou a prestar atenção na diferença que as políticas públicas faziam para pessoas ao seu redor.
Ela lembra de uma cliente que se mostrou incomodada porque a filha da empregada doméstica havia começado a vender brigadeiros e, com a renda, iria viajar de avião. Raíssa teve a reação oposta: quis comprar os brigadeiros.
“Foi quando eu tomei essa consciência de classe, de entender que não tem que ser bom só para mim, tem que estar bom para todo mundo,” disse Raíssa.
Sua mãe, Vicência Aurélia, de 65 anos, é de uma outra geração. Está travando uma batalha contra o câncer e, mesmo no meio da quimioterapia, decidiu que domingo será a primeira a votar em sua zona eleitoral.
“Pobre tem que votar em Lula, que é quem está ajudando com Bolsa Família, gás e escola para os filhos deles,” disse ela.
Mas se Lula continua tendo seu público cativo, o mesmo não se pode dizer do PT. Diversas pessoas disseram ser muito mais lulistas do que petistas – um mau presságio para o partido daqui a quatro anos.
Máximo, por exemplo, faz questão de deixar essa separação clara.
“Não é do PT que eu gosto, é do Lula,” disse ele, com vários adesivos colados na camiseta.
Aqui no Crato, os mais velhos ainda se lembram do que mudou, enquanto os mais jovens já querem saber qual será a próxima mudança. E se isto se traduzir em menos votos para Lula domingo, estará comprovada a tese da fadiga de material de um partido que ganhou cinco eleições – mas não soube se renovar.











