BRUSQUE, Santa Catarina — Encontrar gente caminhando pelas ruas de Brusque pode dar mais trabalho do que parece.
Não porque a cidade seja especialmente perigosa. Ao contrário: é considerada a cidade mais segura do Brasil.
O problema é que Brusque é uma cidade sobre rodas. No fim do ano passado, dados da Secretaria Nacional de Trânsito apontavam 135 mil veículos registrados no município. Detalhe: a população local é de 159 mil, segundo o IBGE.
Talvez esta seja uma das explicações para o clima eleitoral na cidade – a autoproclamada “capital têxtil do Brasil” – estar bem tímido. Por aqui, há algumas placas e bandeiras de candidatos a deputado federal e estadual, além de poucos carros adesivados.
Nos dois dias em que o Brazil Journal esteve na cidade, não vimos nenhuma panfletagem ou campanha corpo a corpo. Zero.
Para uma cidade que se transformou numa espécie de bastião do bolsonarismo catarinense, também chama a atenção a pequena quantidade de bandeiras do Brasil nas janelas – que se tornaram um símbolo de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em 2018, Bolsonaro (le père) obteve 78% dos votos válidos de Brusque já no primeiro turno – no segundo, chegou a 87%. Quatro anos depois, Bolsonaro voltou a vencer com 73% no primeiro turno e 79% no segundo.
Isso, no entanto, não quer dizer que todos estejam felizes com as opções no cardápio.
A técnica de segurança do trabalho Thayse Martins deixou Manaus há três anos com o marido e os filhos para tentar a vida em Brusque. Encontrou emprego rapidamente e viu seu filho adolescente conseguir uma vaga de jovem aprendiz e depois um curso profissionalizante.
Para ela, que é evangélica e se considera uma mulher de direita, Brusque representa justamente a possibilidade de crescer pelo trabalho. Mas ela está satisfeita em ter Flávio como candidato?
“Sinceramente não,” disse ela, para quem a candidatura foi praticamente colocada “goela abaixo”. Preferia uma terceira via, “mas não quero que a esquerda continue”.
O caminhoneiro Osnildo Meechei também pretende votar em Flávio, embora diga que ele “não é o meu candidato preferido”. Ele gostaria de ter outras opções competitivas, mas teme que votar num candidato menor acabe ajudando o adversário.
Mas isso não quer dizer que não existam bolsonaristas fiéis. Ao contrário.
Daniel Cadillac, um empresário do ramo de confecção, diz que o País estava “no ápice” quando Bolsonaro deixou o governo, e que o ex-presidente continua sendo a principal referência da direita.
“Eu vou votar no Flávio porque acho que ele é o melhor, e porque a gente sabe que quem vai estar por trás é o próprio Jair,” disse.
Para boa parte desses eleitores, a identificação com a direita passa menos por uma sigla e mais por uma ideia de mundo: trabalhar, crescer por conta própria e depender menos do Estado.
Essa visão aparece também quando o assunto são os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.
Josué Adilio de Souza, outro caminhoneiro que pretende votar em Flávio, diz que o problema não está em ajudar quem precisa, mas em manter benefícios para quem, na visão dele, teria condições de trabalhar.
“Começam a ajudar milhões de pessoas nesse Brasil afora, o povo se acomoda e não quer trabalhar,” disse. Para Josué, o caminho seria direcionar a assistência a quem realmente precisa e, para os demais, oferecer emprego, estudo e qualificação.
A corrupção ajuda a explicar outra parte do desconforto com a eleição.
Nas entrevistas, há eleitores de direita que dizem não fazer distinção: se há crime, seja na esquerda ou na direita, o responsável deve ser punido. Outros preservam uma confiança quase inabalável na família Bolsonaro.
O vice-prefeito de Brusque, Deco Batisti, que também é candidato a deputado estadual neste pleito, reconhece que algo mudou.
“Eu não tenho a briga ideológica como mote, mas sim um trabalho para mostrar o que foi feito em Brusque e o que deu certo,” disse. Sua campanha tem falado de saúde, infraestrutura, educação e desburocratização.
Talvez nenhum personagem represente melhor o tom mais comedido desta campanha do que Luciano Hang.
O dono da Havan sempre foi um dos empresários mais associados ao bolsonarismo.
Em Brusque, a cidade em que a Havan foi fundada e onde mantém sua sede, ele é uma personalidade reconhecida e admirada.
“Eu adoro o ‘Véio da Havan’, manda um beijo para ele,” disse uma menina que brincava na praça da prefeitura ao saber que o Brazil Journal estava a caminho de encontrar o empresário.

Mas o discurso de Hang em 2026 tem uma diferença relevante em relação ao dos outros anos.
Ele continua defendendo ideias como Estado menor, liberdade econômica, meritocracia e posições conservadoras nos costumes – e segue batendo forte no PT e na esquerda.
O detalhe: Hang não quer mais fazer campanha para um candidato a presidente. “As pessoas estão realmente cansadas,” disse.
Para ele, parte desse cansaço vem da dificuldade de enxergar uma perspectiva de mudança.
“A política ocupa espaço demais na vida do brasileiro. O bom era que a política passasse a ser um apêndice da nossa vida, e não a parte principal,” disse o Véio.
Hang justifica ter ficado mais ausente da eleição. “Prefiro defender ideias do que candidatos,” disse.
Se há desânimo com Flávio, também há um enfado com Lula entre os poucos “esquerdistas” de Brusque.
Ana Lina Schlindwein tem 21 anos, trabalha com administração e se identifica com a esquerda. Cresceu numa família de direita e diz que aprendeu a evitar discussões políticas em casa.
“Eu tento evitar ao máximo esse debate dentro de casa, porque eu sei que não vai sair coisa boa,” disse.
Já Jane Rodrigues vive em Brusque há duas décadas, trabalha como babá de segunda a sexta e faz faxinas nos fins de semana. Em 2022, votou em Lula porque esperava que a vida melhorasse. Não ficou satisfeita.
Hoje ela diz que precisa trabalhar mais para manter o mesmo padrão. “Se não fizer isso, não dá para pagar as contas do mês mais o mercado.”
Jane não pretende repetir o voto em Lula, mas não migrou para Flávio. Vai anular.

“Cada um que entra parece que piora mais,” disse. “Já estou bem saturada.”
Carlos e Roselaine Pinto, um casal de eleitores da direita que já votou no PT no passado, dizem que ainda é preciso acreditar numa mudança – e estão totalmente fechados com Flávio.
“A esperança é a última que morre. Então, acho que temos que ter esperança,” disse Carlos.
Entre a esperança de que alguma coisa mude e a impressão de que pouca coisa muda, Brusque chega a mais uma eleição sabendo muito bem de que lado está.
A dúvida é quanto entusiasmo ainda existe para empurrar Flávio até a vitória.











