Um ano atrás, a TIC Trens, uma joint venture entre o Grupo Comporte e a estatal chinesa CRRC, enviou sua diretoria para visitar a fábrica onde estavam sendo produzidas as locomotivas de manutenção da Linha 7 – Rubi em São Paulo.

“Quando chegamos lá, só tinha uma parte do “truque” (a estrutura que suporta as rodas do trem) e uma parte do chassi. Pensei: ‘não tem nada! Como eles vão despachar isso em setembro para chegar a tempo de nossa operação?’” Pedro Moro, o CEO da companhia, disse ao Brazil Journal.

Mas exatos 20 dias depois, estava tudo pronto.

A fábrica, na China, era da própria CRRC, a maior produtora de insumos ferroviários do mundo, que tem 40% de participação na TIC Trens. A Comporte, o braço da família Constantino para negócios em transportes terrestres, tem os 60% restantes.

O “causo” contado pelo CEO mostra a importância do sócio oriental para os projetos da TIC em São Paulo, que terão um capex de implantação de mais de R$ 14 bilhões até 2031.

A empresa foi formada após Comporte e CRRC venceram juntas o leilão para construção e operação do Trem Intercidades Eixo Norte (TIC), que vai ligar São Paulo a Campinas, com 101 km, e do Trem Intermetropolitano (TIM), de Jundiaí a Campinas, com 44km. O pacote também incluiu a concessão para operação e modernização da Linha 7 – Rubi, antes gerida pela estatal CPTM. 

A CRRC vai fornecer os trens e toda a parte de sistemas, sinalização e equipamentos de energia para os projetos, além de apoio financeiro, ajudando a viabilizar financiamentos e garantias com bancos chineses.

“De cada dez trens fabricados no mundo, oito são feitos pela CRRC. É a primeira experiência deles como investidores aqui no Brasil. E eles também abriram agora uma fábrica em Araraquara para produzir trens para o metrô e uma parte dos nossos,” disse Moro.

Dentro da parceria, a Comporte é a responsável pelas obras civis, que já tiveram início no trecho entre Campinas e Jundiaí, com serviços de terraplanagem e drenagem em andamento. 

“Começaríamos em maio, e antecipamos para março para ganhar um pouco de fôlego. O cronograma hoje está sendo cumprido rigorosamente. Não posso falar que tem folga, não tem folga nenhuma, é uma obra extremamente complexa, mas não temos nenhum indicativo de qualquer tipo de atraso,” disse o CEO.

Para tocar os trabalhos, a TIC levantou R$ 600 milhões em um empréstimo-ponte com o Santander e o banco chinês ICBC, e contou com aportes dos acionistas.

Agora está na fase final de negociação de um empréstimo de longo prazo de cerca de R$ 6 bilhões com o BNDES. A expectativa é de que a assinatura ocorra até o final deste ano. 

A operação deverá ter a participação do Banco de Desenvolvimento da China (CDB) e bancos comerciais chineses, seja no apoio ao financiamento ou com garantias, segundo Moro, e estará ainda atrelada à emissão de debêntures no mercado.

A TIC Trens obteve autorização do Ministério das Cidades para captar até R$ 7,8 bilhões com debêntures incentivadas ao enquadrar seu projeto como prioritário para mobilidade urbana. 

A concessão dos trens urbanos – uma Parceria Público-Privada com prazo de 30 anos – contará ainda com uma contraprestação de R$ 8,06 bilhões do Governo estadual, que também terá financiamento do BNDES para sua parte no empreendimento. 

O Trem Intermetropolitano (TIM) de Jundiaí a Campinas, com paradas em algumas cidades, terá tarifa de R$ 14,05 e tempo de viagem de 33 minutos. A entrega é prevista para 2029. 

O Trem Intercidades (TIC), um serviço expresso, que alcançará velocidade de até cerca de 150 km/h, terá tarifa média de R$ 50, com viagem de 64 minutos, indo de São Paulo a Campinas com parada em Jundiaí. A conclusão é esperada para 2031. 

A implantação do TIC é mais longa, e mais complexa, inclusive porque o trecho entre São Paulo e Jundiaí será feito na mesma faixa de domínio da Linha 7, que seguirá operando, e ao mesmo tempo passando por obras de modernização. 

“Você tem que fazer quase um balé ali,” disse Moro, um veterano do setor, com quase 18 anos de CPTM no currículo: ele presidiu a empresa entre 2019 e 2024. Na TIC Trens, iniciou como diretor de operação e manutenção e chegou a CEO em maio de 2025.

Para ele, a indústria ferroviária e de mobilidade vive “um momento bem relevante” no País, com os projetos em São Paulo e iniciativas em outros Estados.

“Eu não me lembro de ter visto outro momento, pelo menos nos últimos 20, 25 anos, com essa gama de possibilidades que temos hoje.”