Guga Stocco e o futuro dos bancos

Do Original ao venture capital, passando pelo blockchain

Timing is everything.

Guga Stocco, o criador da operação online do Banco Original, deixou a criatura no começo do mês para voltar a empreender, pouco antes da delação dos irmãos Batista colocar o futuro da instituição em xeque.

Guga, como é conhecido no mercado, está levantando um fundo de venture capital de R$ 100 milhões que atraiu investidores como Alfredo Setúbal, chairman da Itaúsa, e Rubem Ariano, ex-Hedging-Griffo, além de CEOs de grandes empresas que pediram para não ter o nome revelado.

“Teve muita gente de negócios mais tradicionais entrando, tentando sentir a temperatura da água e entender como funciona investimento em startup e cultura de inovação”, diz Guga.
Guga Stocco
O fundo está abrigado na recém-fundada Domo Invest, que tem como sócios Rodrigo Borges, um dos fundadores do Buscapé, Gabriel Sidi, ex-Odebrecht Realizações, e Felipe Andrade e Marcello Gonçalves, que fizeram carreira em bancos e gestoras e respondem pela parte financeira do negócio.

Guga ficará a cargo do deal flow, prospectando empresas e agindo como mentor dos empreendedores. A ideia é investir em até 30 negócios que já estejam faturando mas ainda precisam de capital e expertise.

Pela própria experiência dos sócios, os investimentos devem se concentrar em fintechs e empresas de marketplace. Os aportes se darão em duas fases. Na primeira, R$ 40 milhões serão destinados às startups selecionadas – cada uma deve receber entre R$ 1,5 milhão e R$ 3 milhões. Na segunda etapa, os R$ 60 milhões restantes serão reinvestidos no crescimento das empresas que tiverem mais potencial.

Além do novo fundo, a Domo vai administrar também um outro, levantado há três anos pela Koolen & Partners, a firma de venture capital do holandês Kees Koolen, fundador do Booking.com, e que já tinha Guga e outros dois sócios como co-fundadores e investidores. Koolen está no conselho da Domo.

O fundo da Koolen investiu em startups de sucesso como a Gympass, que permite que os assinantes frequentem diversas academias pagando apenas uma mensalidade; o BoaConsulta, que conecta profissionais de saúde com pacientes; e a plataforma de distribuição de conteúdo digital Hotmart.

Parte do dinheiro que ganharam com as empresas já desinvestidas – caso da Loggi, espécie de ‘Uber dos motoboys’ – foi reinjetada na nova empreitada na Domo.

Formado em administração de empresas, Guga entrou no mercado praticamente junto com o nascimento da internet. Ainda no final dos anos 1990, trabalhou no desenvolvimento de shoppings online e foi o country manager de uma empresa estrangeira que vendia domínios na rede – na época, um negócio arcaico e burocrático, já que não havia meios de pagamento online.

Num mundo onde ainda não se falava em Google, deu seus primeiros passos no empreendedorismo com uma tecnologia que colocava os anunciantes nas primeiras menções dos buscadores. A TeRespondo foi vendida para o Yahoo em 2005.

Teve uma passagem de quatro anos pela Microsoft – para onde levou sua expertise em buscas – e foi parar no Buscapé em 2010, quando a startup foi comprada pelos sulafricanos da Naspers no maior negócio de Internet fechado até então no País.

Foi lá que, em 2014, recebeu uma ligação do Original. Falou com o responsável pelo RH e não saiu muito animado: trabalhar num banco, de terno e gravata, não estava nos planos. Uma semana depois, foi convidado para uma entrevista com Henrique Meirelles, então à frente da J&F Investimentos.

O ex-presidente do BC, que fez sua carreira no já extinto BankBoston, lhe fez uma pergunta ampla, sobre o futuro dos bancos. Guga respondeu com uma frase que Bill Gates sempre usa em palestras: “banking is necessary; banks are not”.

“Fiquei lá uma hora e meia. Disse para ele que é questão de tempo que a Starbucks e seus cartões de pré-pagamento e tecnologia de pagamento mobile se transformem numa operação bancária. Que a concorrência agora está no Google, na Amazon, no Facebook. Ele respondeu: ok, você começa amanhã.”

À frente da área de estratégia e inovação do Original, o principal desafio não foi a tecnologia, mas a cultura do banco. A primeira dificuldade era abrir a conta pelo celular. Técnicos e executivos insistiam que a Instrução 2025 do Banco Central exigia que um gerente supervisionasse o processo.

“Abrimos a tal da Instrução, de uma página e meia, e vimos que não tinha nenhum impedimento,” diz. "Não falava sobre Internet, porque era de antes da Internet, mas não tinha nada ali que não desse pra fazer pelo celular.”

Hoje, os quase 250 mil clientes da conta digital do Original não só abrem conta pelo celular, como podem consultar seu saldo via chat no Facebook ou com dois toques no Instagram.

Os processos andavam, mas não sem demora. A ferramenta do Instagram, por exemplo, foi desenvolvida em um dia, mas levou mais de quatro meses para ser aprovada.

“A estrutura de um banco é muito diferente das start-ups. No início, tudo que eu tinha era sempre o não: ‘não dá pra fazer’... ‘não dá para implantar’... me disseram até que eu ia acabar sendo preso”, brinca. “Quem segurou a onda foi o Meirelles, que sempre me deu carta branca”. Meirelles saiu da J&F no ano passado para assumir o Ministério da Fazenda.

O executivo-empreendedor não comenta as recentes investigações envolvendo os irmãos Batista, mas afirma que sua saída não está ligada a elas. “Senti que minha missão por lá já estava completa”, afirma.

Ao deixar o banco, Guga ampliou o leque. Ele ainda presta consultoria ao Original e participa de comitês consultivos de inovação na B3 (antiga BM&FBovespa) e na Totvs.

O projeto mais ambicioso, porém, ainda está por vir. Guga está trabalhando numa tecnologia para colocar a operação dos bancos integralmente na nuvem – o que envolve um fronteira ainda pouco desbravada do setor bancário: o blockchain.

Ele explica que para ter um banco integralmente digital são necessários três pilares. As duas primeiras foram conquistadas no banco dos Batista: a escala, possível pela abertura de contas pelo celular, e a plataforma de open banking, que permite incorporar à plataforma, de forma orgânica, tecnologias desenvolvidas por terceiros.

“A última é colocar toda a operação na nuvem, o que significa que você pode operar um banco inteiro com 30 ou 40 pessoas. É a última ponta da revolução”, profetiza.