Amazon faz estreia ‘lenta, gradual e segura’ em eletrônicos

O Dia D finalmente chegou.

À meia-noite de hoje a Amazon colocou no ar sua nova operação no País: passou a vender celulares, tablets, televisores e videogames, num sortimento de mais de 110 mil produtos (ou SKUs, no jargão do varejo), que estão entre os mais vendidos do ecommerce brasileiro.

Quem esperava ouvir a trombeta do apocalipse para a concorrência, no entanto, pode ficar um pouco frustrado.

Assim como na operação de livros, a nova empreitada da companhia deve ser muito mais lenta e gradual do que a experiência americana pode sugerir – e o lançamento de hoje ainda é tímido para efetivamente dividir o varejo brasileiro em A.A. e D.A. (Antes da Amazon ou Depois da Amazon).

Toda a oferta de eletrônicos no Brasil será feita na forma de marketplace, o modelo em que os vendedores usam a plataforma da companhia para chegar ao consumidor final.

Nada de frete grátis, promoções absurdas ou entregas-relâmpago. Apenas o arroz com feijão, bem feito.

A preocupação da Amazon foi garantir um bom sortimento e agregar uma gama de vendedores que assegure várias ofertas para o mesmo produto, trazendo competição de preço.

“Nesse primeiro momento, focamos em qualidade e profundidade na oferta”, diz Alex Szapiro, CEO da Amazon o Brasil. “Logicamente, isso não quer dizer que eu tenho tudo que eu gostaria de ter, mas vamos fazer o que temos certeza que está funcionando e o que é certo na hora certa”.

O site se assemelha mais ao Mercado Livre do que a uma B2W ou Magazine Luiza – ainda que pareça mais organizado, clean e user friendly do que o concorrente com sede na Argentina.

A principal surpresa é que a companhia vai trabalhar também com a venda de usados por parte de pessoas físicas, no modelo conhecido como C2C, também utilizado pelo MELI.

A entrega ficará integralmente a cargo do vendedor. A única obrigação é que o produto seja postado em até 48 horas após o pedido.

O diferencial em relação à concorrência está na comissão: a Amazon vai cobrar uma taxa de 10% por venda, independentemente do financiamento dado às compras, que poderão ser divididas em até 10 vezes, com parcela mínima de R$ 30.

Na B2W, dona da Submarino.com e da Americanas.com, analistas estimam que essa taxa varia entre 10,5% a 12%. O Magazine Luiza não abre os números, mas fornecedores afirmam que a taxa é mais salgada. No Mercado Livre, o fee gira entre 10% e 16%, dependendo do número de parcelas.

Como as empresas tendem a competir pelos mesmos vendedores, a taxa mais baixa pode se refletir em preços menores. Mas o Mercado Livre, por exemplo, dá subsídio em outra ponta, ao consumidor, com o frete grátis para compras acima de R$ 120 – o que na prática pode manter a balança equilibrada.

Outra preocupação, diz Szapiro, foi com a qualidade do atendimento. A Amazon dará garantia integral para as compras feitas no site – e é com a companhia que os consumidores vão lidar se algo sair errado, como um defeito ou falha na entrega. Na área de contato do site, o consumidor pode postar seu número de telefone e, em até dez segundos, recebe uma ligação da central de atendimento.

Quando questionado sobre a estratégia e os próximos passos no País, Szapiro repetiu seu mantra histórico: “Não comentamos planos futuros”.

Ele não diz se e quando a Amazon Brasil pretende fazer uma operação de eletrônicos 1P – no qual a compra, estoque e logística ficam a cargo da companhia. Apesar do maior custo fixo, é com essa operação que a empresa consegue garantir a entrega em um dia nos Estados Unidos.

Tampouco abre se pretende implantar o Amazon Prime, a assinatura anual que dá direito a frete grátis e entrega em 48 horas na operação americana; e nem quis falar sobre a estratégia de comunicação da nova operação no País. Apesar de a Amazon ser conhecida nas classes A/B, concorrentes como Casas Bahia, Ponto Frio e Magazine Luiza ainda têm muito mais penetração na classe C.

“Não abro estratégia, tem muita gente que lê seu jornal e que adoraria saber. Mas posso dizer que não costumamos fazer campanhas massivas, temos uma estratégia do mundo online e digital que vai continuar a ser feita”, diz.

A maior pista sobre o futuro vem da analogia com a entrada no segmento de livros – o que sugere que as inovações devem acontecer passo a passo.

“Entramos aqui em 2012, com 13 mil livros em português, só digitais. Vamos passar a fita pra frente: hoje a gente tem 115 mil livros digitais em português; nos livros físicos, começamos com 150 mil, hoje são mais de 350 mil”, diz Szapiro. “A inovação tem que ser constante”.