Num movimento incomum, a Natura decidiu antecipar a divulgação de parte de seus resultados do segundo tri, reportando vendas abaixo do consenso dos analistas.

A fabricante de cosméticos reportou um número 6% abaixo do consenso, que previa uma receita de R$ 5,5 bilhões no tri. 

Os resultados completos e auditados saem em 10 de agosto.

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Apesar do ‘miss’ em relação ao consenso – e de boa parte dos analistas ter previsto uma reação negativa à notícia hoje cedo – a ação chegou a subir 7,5% ao longo do dia, liderando as altas do Ibovespa, antes de fechar com alta de 5,2%. 

Parte da explicação pode estar na comunicação da empresa. 

Depois de ter decepcionado na rentabilidade no resultado do quarto tri de 2024 e visto sua ação despencar no dia da divulgação, a Natura fez diversas rodadas de conversas com investidores. A principal mensagem que ouviu foi que eles tinham que manter uma comunicação mais frequente e transparente com o mercado.

“Como no primeiro tri a Natura não tinha sinalizado que o resultado do segundo tri seria tão difícil, assim que tiveram essa visibilidade eles decidiram fazer a comunicação para fortalecer a construção desse relacionamento,” disse uma fonte próxima à companhia. 

Mas a alta de hoje também pode ter um elemento técnico: a ação estava com um nível de aluguel alto, a taxas que explodiram este mês, chegando a bater em quase 150% ao ano.

A Natura creditou a queda na receita a cinco fatores. O primeiro, e mais importante deles, foi a falta de produtos por conta de investimentos que a Natura fez que entraram em operação no mesmo período. 

A companhia substituiu seu sistema de planejamento integrado da cadeia de abastecimento por um sistema novo e mais moderno. No longo prazo o novo sistema trará benefícios, mas nos primeiros meses ele teve problemas de parametrização que impactaram na gestão do estoque, gerando “um desbalanceamento do abastecimento.”

O CEO João Paulo Ferreira também fechou a fábrica de Interlagos e transferiu a produção para Cajamar, o que limitou a capacidade de reação. Para completar, a empresa substituiu seu SAP, que estava obsoleto (já que era uma versão com 26 anos), por um sistema mais moderno, o que gerou um período de congelamento – com o desligamento do antigo e a entrada em funcionamento do novo.

O segundo fator foi a queda nas vendas diretas, resultado de uma atividade mais fraca de consumo, que impactou diretamente a operação das consultoras. 

O terceiro fator foi um equilíbrio nas condições comerciais e de preços entre os diferentes canais da companhia. Segundo uma fonte, a Natura estava com preços e condições melhores nas vendas de alguns canais online, em comparação com as vendas das franquias e consultoras – o que vinha gerando um conflito entre os canais.

No segundo tri, a companhia decidiu colocar no ar uma série de regras para equilibrar essas condições e evitar a canibalização entre os canais. “No momento inicial, isso gera uma queda nas vendas digitais, mas com o tempo ela habilita novos crescimentos, mas isso demora um pouco mais para aparecer no resultado,” disse esta fonte. 

Já o quarto fator foi uma mudança no contrato com os franqueados, que gerou uma queda no sell-in. Até agora, cerca de 40% dos franqueados da Natura faziam suas compras de produtos no modelo das consultoras, que permite ver o catálogo e decidir quais produtos comprar – podendo se aproveitar de promoções esporádicas. 

A decisão da Natura foi migrar todos esses contratos para o de franquia, em que a Natura sugere o sortimento que a franquia deve comprar com base no que vende mais em cada região – um modelo que a companhia acredita que performa melhor. 

Um quinto fator que pesou sobre a receita foi uma mudança tributária em São Paulo. O fim da substituição tributária para produtos de beleza entrou em vigor em abril para o comércio em geral, mas só passou a valer em julho para a venda direta, criando uma defasagem que impactou negativamente a receita da Natura.

Boa parte desses efeitos deve se normalizar no terceiro tri, gerando um impacto positivo na receita, disse a fonte próxima à companhia. 

O problema de desabastecimento ainda deve gerar um impacto no terceiro tri, mas numa magnitude muito menor, enquanto os demais fatores já devem normalizar.