As Big Techs disputam uma corrida sem precedentes por talentos em inteligência artificial.

Na Meta, Mark Zuckerberg passou a oferecer a pesquisadores pacotes de remuneração de até US$ 300 milhões em quatro anos, acirrando uma disputa que já mobilizava as principais empresas do setor. Sam Altman reagiu e concedeu bônus a cerca de mil profissionais de pesquisa e engenharia com valores que iam de centenas de milhares a milhões de dólares, além de eliminar o período inicial de carência para o vesting de ações de novas contratações.

O motivo é simples e bastante racional. Há séculos, países e empresas competem por talentos excepcionais. Um exemplo clássico foi Cristóvão Colombo, o navegador genovês financiado pela Coroa Espanhola que abriu o caminho para o império espanhol nas Américas – talvez um dos investimentos com o maior ROI da história. 

Hoje o mercado de trabalho para as pessoas com alta qualificação é cada vez mais global. Olhando a população global de imigrantes, mais da metade deles têm trabalho fixo e cerca de 38% têm ensino superior completo — quase o dobro dos 20,4% registrados entre a população adulta brasileira em 2024.

E esses talentos geram valor onde estão: alugam, consomem, pagam impostos, movimentam o comércio local e somam diretamente ao PIB do país que os recebe. Mais importante que isto, quem chega com formação de ponta ocupa postos de pesquisa, transfere conhecimento e eleva a capacidade de inovação do país anfitrião.

Elon Musk chegou nos Estados Unidos com uma mala de livros, e três décadas depois já tinha criado várias companhias e se tornado o primeiro trilionário em dólar da história. Fez tudo isto fora de seu país de origem.

Países que historicamente investem na atração de talentos já mensuram esse impacto.

Mais de 70% dos alunos de pós-graduação em ciência da computação nas universidades americanas são estrangeiros. Formado o profissional, o visto de treinamento prático (OPT) garante até três anos de trabalho legal para áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM).

Na prática, essa esteira foi desenhada para captar esse talento e não o devolver. Isso explica por que, em 2022, 42% dos pesquisadores globais “top-tier” de AI trabalhavam nos EUA. Outro dado aponta na mesma direção: em 2026, 59% dos unicórnios americanos haviam sido fundados ou cofundados por imigrantes.

A inteligência artificial, porém, levou essa competição a uma nova escala.

A Euronews estima que apenas algumas centenas de profissionais no mundo têm experiência para construir sistemas de AI em escala. O Brasil perde nas duas pontas: na disputa pelos poucos gênios e na formação da base ampla que sustenta o setor.

No Brasil, esse descompasso já aparece no mercado: entre 2019 e 2024, o setor de Tecnologia da Informação e Comunicação demandou cerca de 665 mil profissionais, mas apenas 464 mil se formaram nas áreas correspondentes no período equivalente.

No ano passado, o Itamaraty registrou 5,29 milhões de brasileiros vivendo no exterior, mais que o dobro da população estrangeira regularizada em solo brasileiro.

Mas a fuga de cérebros não é o único prejuízo ao Brasil. Com a falta de atratividade, perdemos também o estrangeiro que escolhe outro país para se estabelecer, e o fundador que monta a empresa onde encontra a melhor combinação de capital, infraestrutura e talento.

Com eles, perdemos também investimentos, empregos, conhecimento e a possibilidade de desenvolvimento de um ecossistema que poderia existir em torno dessas pessoas. Perdemos os frutos do sucesso de quem escolhe deixar o Brasil.

Há, porém, um movimento que aponta em outra direção. O número de startups de inteligência artificial no Brasil teve uma alta de 177% na série histórica — um salto de 352, em 2016, para 975 em 2025.

Tendo em vista a apatia do setor público nesta missão, algumas empresas e entidades privadas começam a se mobilizar. A BRASA, organização que congrega mais de 15 mil estudantes brasileiros em faculdades fora do Brasil, criou um movimento para atrair estes estudantes de volta, conectando-os a empresas como iFood, Itaú Unibanco, BTG Pactual e Stone. 

Mas talvez o melhor exemplo desta nova era seja a Enter – o primeiro unicórnio de AI da América Latina, construída para desafogar os departamentos jurídicos no contencioso de massa. Ela foi fundada por três jovens excepcionais – qualquer um deles receberia funding para montar a empresa nos EUA, mas preferiram o Brasil. Também foram fundadas aqui a Pax, na segurança pública; a Blip, na inteligência conversacional; a Wildlife, em mobile games; e outras dezenas de empreendimentos.

As Big Techs estão dispostas a pagar US$ 300 milhões por um pesquisador porque a escassez virou o novo parâmetro do jogo; e o grupo restrito de pessoas que sabe como construir e implementar sistemas de AI escaláveis é a peça mais valiosa nessa disputa.

As startups brasileiras provam que talento de ponta pode encontrar aqui o mesmo tipo de oportunidade que hoje o atrai para fora.

Formar esses talentos é fundamental, mas não garante a vitória no jogo se não houver um esforço simultâneo para retê-los no País. O próximo Governo – qualquer que seja – precisa se debruçar sobre o assunto e criar uma política pública para atrair e reter talentos.

 

Nicola Calicchio é fundador da NC Advisory, uma consultoria de aconselhamento estratégico. Foi CEO da McKinsey na América Latina, chief strategy officer do Softbank Group International e senior adviser do Morgan Stanley.