O mercado de comercialização de eletricidade ficou muito mais complexo – e arriscado.
Com a recente onda de recuperações judiciais de tradings de energia, o aumento na volatilidade de preços, a menor liquidez no mercado e problemas como cortes na geração de usinas renováveis, as empresas do setor saíram em busca de novas formas de lidar com o risco em suas transações.
Esse movimento está impulsionando a demanda por soluções inspiradas no mercado financeiro, como o uso de colateral nas operações de comercialização, a criação de um ambiente de bolsa, em que as negociações seriam garantidas por uma clearing house, e a adoção de contratos de derivativos de energia.
A plataforma eletrônica para negociação de contratos de energia BBCE, por exemplo, está trabalhando em parceria com o Bradesco para oferecer transações de compra e venda de energia com cobertura de um colateral – que será calculado e cobrado diariamente das partes envolvidas de acordo com sua exposição financeira no mercado, como numa chamada de margem.
“É uma camada de proteção. Vimos que o mercado estava pedindo muito isso. Nesses momentos com agora, de crise de confiança, há uma abertura maior para implementar mudanças, vai ser um bom teste,” Camila Batich, a CEO do BBCE, disse ao Brazil Journal.
O lançamento das transações com colateral é previsto para o começo de 2027, e o produto será opcional – a BBCE oferecerá a possibilidade de negociações com e sem essa cobertura, que inicialmente estará disponível apenas para alguns contratos, de mais curto prazo.
A BBCE, que tem como acionistas mais de 40 empresas do mercado elétrico, incluindo Engie, EDP e Enel, também viu um salto recente nas transações com derivativos de energia em sua plataforma.
O estoque de contratos derivativos registrados disparou 300% nos últimos doze meses, atingindo um recorde de R$ 10 bilhões no final de agosto.
A maior parte envolve os chamados derivativos não padronizados, em que as partes fazem suas apostas em movimentos de preços e registram o contrato na BBCE, que funciona como o agente de cálculo dos resultados finais da transação.
“As empresas começaram a enxergar o derivativo como uma questão de segurança, de hedge. Temos visto uma procura cada vez maior porque o mercado de energia está se sofisticando,” disse a CEO.
Os derivativos financeiros têm sido usados no setor para gerir riscos como as diferenças de preços entre as diferentes regiões no mercado elétrico e a variação da geração eólica e solar, por exemplo.
Em paralelo, uma outra plataforma de negociação do setor, a N5X, trabalha para construir um ambiente de compra e venda de energia em bolsa, no qual uma clearing house atuaria como contraparte central das transações e garantiria riscos de default.
Se os planos se concretizarem, as empresas poderiam comprar e vender contratos de eletricidade sem se preocupar com quem está na outra ponta da transação – como ocorre hoje com ações na Bolsa de valores, por exemplo.
Criada pela operadora europeia de bolsas de energia EEX em associação com a L4 Venture Builder, um fundo com capital da B3, a N5X está em processo para obter a autorização do Banco Central para a criação de sua clearing e da bolsa elétrica.
“Nossa ambição é o segundo semestre de 2027. Mas claro que esse prazo vai depender das interações com os reguladores, e dos estudos e movimentos internos para colocar a clearing de pé, os sistemas,” disse a co-CEO, Camila Pantera.
O diretor-geral da trading Czarnikow no País, Tiago Medeiros, avalia que a criação de uma clearing é um caminho natural para o mercado elétrico, e até está demorando mais tempo do que se imaginava.
“Tivemos um período ruim que fez com que todo mundo acordasse para esse risco (do mercado). Acho que vai ser mais um ano, mais dois, mas vai acontecer,” disse ele, num evento recente do setor.
Mas nem todos estão tão preocupados com as atuais turbulências no trading de energia – alguns, na verdade, enxergam a situação como uma oportunidade.
A gigante do trading de commodities Trafigura acaba de estrear suas operações com eletricidade no País, após anos estudando o mercado brasileiro e se preparando para lidar com suas complexidades.
“Nós somos uma casa que gosta de risco. Tomamos esse risco, é isso que fazemos,” disse o head de comercialização da Trafigura, Pedro Vidal.
“Uma clearing vai ser realmente um ponto de virada. Vai aumentar a liquidez, trazer mais participantes. Mas o mercado já tem muitas oportunidades. Grandes players reduziram suas operações ou saíram, e queremos aproveitar esse vácuo para ser um provedor de liquidez – com contratos de energia, produtos financeiros e operações estruturadas.”











