PORTO ALEGRE – Marcado pela polarização muito antes da palavra ganhar dimensão nacional, o Rio Grande do Sul tem tudo para replicar na eleição estadual os dilemas da disputa que ocorre no País.
Os dois nomes que despontam nas pesquisas representam as duas correntes que dominam a política brasileira: o bolsonarismo e o lulismo.
Na fotografia de hoje, o tenente-coronel Zucco (PL) se alterna na liderança com Juliana Brizola, a candidata do PDT apoiada pelo PT.

Mais abaixo vem Gabriel Souza, o candidato do MDB e o atual vice-governador do estado, apoiado por Eduardo Leite. Em quarto lugar: Marcelo Maranata, do PSDB.
Quem tem a maior chance de quebrar essa polarização é Gabriel, de 42 anos, que milita no PMDB/MDB desde a adolescência. O candidato é formado em veterinária, mas o amor pelos bichos ficou de lado quando ele se elegeu deputado estadual em 2014. Quatro anos depois, foi reeleito.
Gabriel ganhou mais projeção a partir da eleição passada, quando se aliou a Leite, de quem era adversário. Líder do então governador José Ivo Sartori (MDB) na Assembleia Legislativa, Gabriel e seu partido haviam sido derrotados pelo atual governador em 2018.
Mas a aliança deixou sequelas. Gabriel ganhou a convenção e impôs seu nome como vice na chapa do governador que buscava a reeleição. O gesto rachou o partido – pela primeira vez desde 1982 o MDB não teve candidato ao Piratini – e muitos líderes do MDB manifestaram apoio a Onyx Lorenzoni (PL), derrotado por Leite e Gabriel.
Agora em terceiro nas pesquisas – bem abaixo dos dois favoritos – Gabriel terá que enfrentar a polarização que hipnotiza o País. Na prática, o mesmo desafio de Ronaldo Caiado.
“É possível quebrar a polarização”, Gabriel disse ao Brazil Journal. “Aliás, já quebramos na eleição passada.”
Na época, a chapa encabeçada por Leite passou ao segundo turno superando o candidato petista – ainda que a diferença tenha sido de menos de 2.500 votos.
Agora o maior desafio de Gabriel é tornar-se um nome conhecido. Quase 70% do eleitorado não sabe que: a) ele é o vice-governador, b) ele é o candidato da situação, c) ele é o candidato de Leite.
Este último fator talvez seja o mais importante, para que Gabriel possa se beneficiar da boa avaliação do atual Governo – e da garantia de que haverá continuidade.
“À medida que eu ficar mais conhecido – e isso acontecerá de maneira natural com o início da campanha – é evidente que a minha candidatura vai crescer,” disse o candidato.
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O tenente-coronel Zucco (PL), de 52 anos, é um militar reformado em seu segundo mandato parlamentar. Surgiu na onda bolsonarista de 2018 e elegeu-se deputado estadual pelo PSL, na época o mesmo partido de Bolsonaro, com votação recorde: 166 mil votos.
Quatro anos depois, já filiado ao Republicanos (depois de uma rápida passagem pelo União Brasil), concorreu a deputado federal e novamente foi o mais votado, agora com 259 mil votos.
A ótima votação – e a boa visibilidade conseguida por sua proximidade com a família Bolsonaro – credenciaram Zucco a almejar o Palácio.
Primeiro, conseguiu unir o PL em torno do seu nome. A legenda estava fraturada desde o fim da eleição passada, quando Lorenzoni – um dos símbolos do bolsonarismo e hoje filiado ao PP – terminou à frente de Leite no primeiro turno, mas em seguida perdeu um pleito que parecia praticamente ganho.

O passo seguinte (e o mais inteligente) de Zucco foi atrair o PP. Nisto, contou com o empenho decisivo da família Covatti.
Versão regional do bolsonarismo, os Covatti criaram uma espécie de franquia política que se espalha por mandatos e cargos. O patriarca, Vilson, foi deputado estadual e federal. Hoje sem mandato, ele ocupou nos últimos quatro anos duas pastas do Governo Leite, e só deixou o cargo quando o partido rumou para a oposição.
Junto a ele estão seu primogênito, Covatti Filho, o presidente regional do partido, deputado federal em segundo mandato e que agora pretende eleger a mulher, Nicole, deputada estadual. Silvana Covatti, sua mãe, deputada estadual por cinco mandatos, foi indicada pelo clã como vice na chapa de Zucco.
Pelo fato de o PP ter integrado a base dos dois governos Leite, era natural que muitas lideranças, como os deputados estaduais Ernani Polo e Frederico Antunes (este líder do governo) se inclinassem pela candidatura de Gabriel.
Mas derrotados dentro do partido – não conseguiram sequer emplacar a proposta de prévias internas – Polo e Antunes trocaram o PP pelo PSD de Leite. Na sequência, o primeiro se tornou vice na chapa de Gabriel, e o segundo é um dos dois pré-candidatos ao Senado, ao lado do ex-governador Germano Rigotto, do MDB.
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O maior adversário de Zucco, por enquanto, é Juliana Brizola, neta de Leonel, o histórico líder do trabalhismo, governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro e criador do PDT.
Primeira suplente de deputada federal nas últimas eleições, deputada estadual por três mandatos e três vezes derrotada na eleição para a prefeitura de Porto Alegre, Juliana tem no sobrenome seu maior patrimônio político.
Agora, 50 anos, tenta conquistar o Piratini depois de um jejum de 36 anos em que o PDT tentou, tentou e morreu na praia; o primeiro e único governador pedetista gaúcho foi Alceu Collares, eleito em 1990.
A outra tarefa será reabilitar a força do sobrenome. Nenhum Brizola ganhou uma eleição majoritária desde 1990 – o próprio Leonel perdeu duas para a Presidência, uma para a prefeitura do Rio e uma para o Senado.
Juliana tem como trunfo o fato de ter entrado na corrida estadual favorecida por uma negociação em nível federal, que envolveu os presidentes nacionais do PDT, Carlos Lupi, e do PT, Edinho Silva, além do próprio Lula.
Para ter um palanque único no estado, o presidente nacional do PT aceitou a pressão do PDT e impôs a retirada da candidatura de Edegar Pretto, que tivera uma boa performance na última eleição, ficando fora do segundo turno por menos de 3 mil votos.
Pretto vinha atraindo apoios importantes, como o dos ex-governadores Olívio Dutra e Tarso Genro, mas teve que renunciar a seu projeto e agora é o vice de Juliana.
Os candidatos ao Senado da chapa são Paulo Pimenta (PT) e Manuela D’Ávila (a ex-PCdoB, agora no PSOL).
Na chapa de Gabriel, os candidatos ao Senado são Rigotto e Frederico Antunes.
E Zucco, para o Senado, apoia Marcel Van Hatten (Novo) e Ubiratan Sanderson, o deputado federal pelo PL.
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Resta ainda o PSDB. O partido vencedor das duas últimas eleições agora é uma legenda nanica com chances remotíssimas de sucesso.
O candidato Marcelo Maranata, prefeito reeleito de Guaíba, renunciou na metade do segundo mandato para concorrer ao governo, e sequer tem história no partido: foi filiado ao PDT até o ano passado.
Marcos Martinelli, um veterano de campanhas gaúchas, nota que os pleitos no Estado vêm se alterando nos últimos anos. “Um diferencial que se manteve por décadas, a não reeleição de governadores, caiu em 2022 com a vitória do Eduardo Leite. Outro diferencial está no fato de o Rio Grande do Sul se destacar pela inexistência de dinastias familiares disputando cargos de ponta, algo muito comum no Nordeste, Norte e Centro-Oeste.”
Mas para ele, o fator decisivo este ano será a abstenção. “O gaúcho sempre gostou de discutir política e historicamente tem um índice de não comparecimento às urnas menor que a média nacional. Mas agora a abstenção vem crescendo. A nova safra de políticos não empolga os eleitores, assim como seus partidos políticos, sem cores definidas, sem bandeiras. A eleição gaúcha reflete o desinteresse do eleitorado, cansado da polarização nacional.”











