A QI Tech acaba de comprar a Autobanking, uma plataforma de financiamento de veículos, marcando a entrada da fintech em um dos maiores mercados de crédito do País.

Pedro Mac Dowell

O valor do negócio – que envolveu cash e troca de ações – não foi divulgado. A empresa está adquirindo 100% da operação, e os fundadores Fredy Evangelista e Heitor Orletti se tornarão sócios da QI Tech.

O CEO Pedro Mac Dowell disse ao Brazil Journal que a estreia nesse mercado era fundamental para a empresa sustentar um crescimento superior a 50% ao ano nos próximos anos. 

“Nosso desafio hoje não é mais crescer dentro dos mercados em que já atuamos, mas encontrar novos mercados grandes o suficiente para que a companhia continue crescendo nesse ritmo,” disse.

Fundada em 2023, a Autobanking desenvolveu uma plataforma integrada aos sistemas de concessionárias e lojas de veículos que captura a demanda de financiamento no momento da venda do carro. Hoje a empresa atende mais de 80 empresas, que reúnem mais de mil lojas espalhadas pelo País.

Trata-se de um mercado gigantesco. O setor movimenta cerca de R$ 280 bilhões por ano em novas concessões de crédito e continua praticamente restrito a poucos grandes bancos. 

A estratégia da QI, no entanto, não é disputar espaço com esses bancos, mas repetir no mercado automotivo o modelo de infraestrutura que construiu nos demais segmentos de crédito.

Hoje, quando uma concessionária vende um carro financiado, normalmente ela encaminha a operação para um grande banco, que aprova o crédito, usa seu próprio balanço para emprestar os recursos e mantém aquele financiamento em carteira.

A QI Tech quer desmontar essa lógica. 

Segundo Mac Dowell, a Autobanking continuará capturando a demanda por crédito dentro das concessionárias.

Mas a partir daí, QI Tech fará toda a esteira tecnológica do financiamento – a análise de crédito, formalização, liquidação financeira e administração da operação – mas sem empregar capital e prometendo reduzir o tempo de aprovação de dias para poucos minutos.

A ideia é estruturar os financiamentos por meio de FIDCs e outros veículos de securitização, permitindo que gestoras, fundos de crédito, bancos médios e até as próprias concessionárias financiem essas operações.

“Nós não queremos ser um banco de financiamento de veículos. Queremos ser a infraestrutura que conecta quem origina o crédito a quem quer financiá-lo,” disse o CEO. 

Antes da aquisição, a Autobanking fazia parte das operações utilizando um FIDC próprio – depois da compra pela QI Tech, essa carteira deixou de fazer parte do negócio. 

A expectativa do CEO é que este modelo permita levar ao mercado automotivo a mesma lógica de “lending as a service” que impulsionou o crescimento da companhia em outras modalidades de crédito.

Hoje a Autobanking fatura cerca de R$ 50 milhões por ano. A meta da QI é elevar essa receita para aproximadamente R$ 300 milhões nos próximos doze meses, cobrando um take rate entre 0,5% e 1% sobre as operações processadas.

No longo prazo, Mac Dowell acredita que a nova vertical responderá por entre 10% e 20% da receita da companhia.

A QI Tech projeta faturar entre R$ 1,8 bilhão e R$ 2 bilhões este ano, mantendo crescimento e margens superiores a 50%.

Mac Dowell também enxerga outras oportunidades dentro do ecossistema de veículos, como a concessão de crédito com garantia e criar linhas para concessionárias utilizarem seus estoques de veículos como garantia para capital de giro.

A aquisição também trouxe um ativo considerado estratégico pela QI: o conhecimento operacional dos fundadores da Autobanking.

Além da tecnologia de originação, a empresa domina uma etapa considerada crítica no negócio: a recuperação de veículos inadimplentes.

Quando um cliente deixa de pagar, é necessário registrar o gravame, executar processos de cobrança, localizar o veículo, retomá-lo judicialmente, armazená-lo e revendê-lo. 

Segundo Mac Dowell, essa operação exige uma estrutura especializada e foi um dos principais motivos para manter os fundadores à frente da nova unidade de negócios.