O leilão de telefonia móvel realizado hoje pela Anatel – que deu permissões de uso de faixas de radiofrequência na casa dos 700 MHz – teve as operadoras regionais como as grandes vencedoras.

A Brisanet e a Unifique levaram alguns dos principais lotes, ganhando acesso a uma frequência estratégica para que elas ampliem suas ofertas de telefonia móvel, permitindo fazer vendas em bundle junto com seus serviços de fibra óptica, o que tende a reduzir o churn

A Brisanet arrematou o lote 2, que vai atender o Nordeste, pagando uma outorga de R$ 6,3 milhões, e o lote 3, que atende o Centro-Oeste, por R$ 1,8 milhão. Já a Unifique ficou com o lote 4, que atende o Sul, com uma proposta de R$ 3,4 milhões.

O lote 1, que atende o Norte e São Paulo, foi arrematado pela Amazônia Serviços Digitais (outorga de R$ 7 milhões); enquanto o lote 5, que atende o Sudeste (exceto São Paulo e o Triângulo Mineiro), ficou com a IEZ! Telecom (outorga de R$ 4,4 milhões). 

Este foi um leilão conhecido como “não-arrecadatório”, ou seja, com outorgas baixas mas que obriga investimentos relevantes por parte das empresas.

O capex total para os cinco lotes leiloados hoje é de cerca de R$ 2 bilhões. Este investimento será feito na construção da infraestrutura necessária (torres, antenas e equipamentos de rádio) para levar a telefonia móvel a essas regiões, muitas delas zonas rurais remotas e entornos de rodovias.

Um analista que cobre o setor disse que o resultado do leilão é positivo para a Brisanet e Unifique, já que é “um investimento sinérgico numa frequência que tem uma complementaridade grande para elas.”

“A frequência 700 MHz permite uma cobertura maior e ajuda muito na cobertura indoor, de dentro de prédios e residências,” disse ele. “Ela complementa a frequência que elas já têm, reduzindo custos e melhorando a qualidade do serviço.”

Tanto a Brisanet quanto a Unifique já haviam ganhado lotes nessas regiões no leilão do 5G, que aconteceu em 2021, e que deu permissão de uso na frequência 3,5 GHz. (Aquela frequência permite uma velocidade maior que a da 700 MHz, mas tem um raio de cobertura menor.)

Na primeira fase do leilão de hoje, a Anatel permitiu a participação apenas de empresas que já tinham autorização de uso de radiofrequência na faixa de 3,5 GHz nessas regiões – o que levou à judicialização do assunto.

As grandes operadoras (TIM, Claro e Vivo) – que ficaram de fora por conta dessa regra – entraram com um mandado de segurança coletivo por meio da TelComp, pedindo a suspensão do certame.

O leilão estava marcado inicialmente para 30 de abril e chegou a ser suspenso pela 10ª Vara Cível Federal de São Paulo, que acatou o pedido. 

A desembargadora Mônica Nobre, do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), no entanto, derrubou a decisão, atendendo um recurso da Brisanet.

Apesar dos benefícios e sinergias, a ação da Brisanet não reagiu bem ao resultado do leilão. O papel cai 4,6% no início da tarde. A Unifique cai 0,5%. 

Um analista que cobre o setor disse que existe incerteza entre os investidores sobre como a Brisanet vai financiar sua entrada no Centro-Oeste, e o impacto disso em sua alavancagem.

“A estratégia deles no Nordeste é fazer a venda da fibra e do celular em bundle, porque quando você faz isso o cancelamento dos dois serviços tende a ser menor,” disse ele. “Mas tem uma incógnita que é a estratégia para o Centro-Oeste, onde eles não têm essa presença. Quando eles pisarem no acelerador lá, como vai ser o capex num momento em que a estrutura de capital deles já está pressionada?”

A Brisanet fechou o ano passado com uma dívida líquida de R$ 1,6 bilhão, uma alavancagem de 2,21x EBITDA. 

Essa analista notou ainda que falta visibilidade sobre o retorno desse investimento, já a Brisanet está tentando crescer em telefonia móvel em mercados já penetrados pelos grandes players

“Não existe um case de sucesso hoje no Brasil de uma operadora regional com telefonia móvel, então é normal que haja uma preocupação dos investidores,” disse ele. “Além disso, a Unifique tem buscado focar em regiões onde as Big Telcos não chegam. A Brisanet está indo mais nos grandes centros, onde tem que competir com elas, oferecendo preço.”

A ação da companhia fundada por José Roberto Nogueira sobe 5% nos últimos 12 meses. A empresa vale R$ 1,2 bilhão na Bolsa.