Por que ainda se importar com o que alguém fez, escreveu ou pensou há dois mil anos?
Esta é a provocação de Talking Classics: the shock of the old, o novo livro de Mary Beard, uma historiadora que aos 71 anos recém se aposentou da Universidade de Cambridge. (Compre aqui)
Pelo visto, muita gente ainda se importa.
Talking Classics foi traduzido para 35 línguas, e a Economist o considera um dos mais importantes lançamentos do ano.
Mas – ainda mais neste tempo saturado de novidades – faz sentido a pergunta: por que se importar com os clássicos? E a autora, elevada a Dama do Império Britânico em 2018, não foge da raia.
Em vez de apresentar no livro um mundo clássico heróico e distante, Beard se empenha em construir pontes com a atualidade; para ela, quanto menos reverência, melhor a leitura.
Em Talking Classics, ela promove uma conversa entre o homem da Antiguidade e o de hoje, entre o que vivia em Pompéia antes da erupção (79 DC) e o turista que faz selfies nas pedras das ruínas.
Ao confrontar uma realidade tão antiga com uma familiaridade tão grande, às vezes desconcertante, Beard provoca a curiosidade.
Ela descreve a reação de um senador romano que prende o riso diante de uma exibição de poder do imperador, que brandia no Coliseu a cabeça decepada de uma avestruz. Tanto o ridículo do exibicionismo quanto o conter o riso com medo de represálias dos poderosos continuam atuais.
Em outro trecho do livro, um desenho que sobreviveu entre rachaduras na parede de um bar meio destruído nos proporciona uma experiência “como a de alguém que ouve atrás de uma cortina”, diz a autora.
Conhecido como Bar de Salvius, os traços lembram o de histórias em quadrinhos, com balões onde estão as palavras de frequentadores do que era uma espécie de boteco. Um homem que espera a bebida diz para uma atendente: “É para mim”. Outro replica, “Não, é para mim”. Na terceira cena do desenho a atendente intervém: “Quem quiser que pegue!”
Em vez dos discursos empolados, Beard procura esses grafites desenhados descomprometidamente em banheiros pelo homem comum (como ainda hoje). Um deles diz “Apolinarius, medicus Titi imperator hic cacavit bene”. Não é necessário saber latim para adivinhar o que o médico do imperador fez ali.
A autora tenta atrair para os clássicos mesmo quem lhe parece mais desinteressado – um administrador de empresas, por exemplo. “O que eu posso aprender com os clássicos?” pergunta o participante mais descrente. “Ler textos complexos,” responde a autora.
Os clássicos são diferentes dos manuais que admitem só uma resposta válida. Fuja das respostas simples e enganosas, recomenda Beard. Muitas vezes a decisão é entre o ruim e o muito ruim – o que não é incomum na rotina de um empresário.
Ela dá o exemplo de Antígona, a peça escrita há 2.500 anos por
Sófocles, encenada e filmada até os dias de hoje. O imperador proíbe o enterro de um rebelde, mas a irmã decide desobedecer a ordem por amor: não quer deixar o irmão insepulto.
É a eterna dúvida, que termina em tragédia, entre obedecer a lei e negar os sentimentos humanos – ou vice-versa. O caminho mais fácil é condenar ou absolver, como os imperadores no Coliseu de Roma – com o polegar para cima ou para baixo. Um ícone adotado, coincidência ou não, nas redes sociais.
Em vez do comportamento dual, a autora argumenta que a leitura dos clássicos pode abrir espaço para discussões mais construtivas, já que os atores estão mortos há milênios e não podem mais responder.
As fake news e a propaganda enganosa, por exemplo, já eram de domínio de gregos e romanos. Os imperadores de plantão buscavam se cercar de aliados que lhes ajudassem a destruir a reputação do antecessor – valia até desfigurar suas estátuas ou mandar matar o adversário. O Senado Romano era um ninho de víboras, com a maledicência à solta, conspirações nos bastidores e traições.
Muitas dúvidas do presente não encontram respostas exatas no passado, adverte Beard, mas provocam o pensamento sobre experiências com fins desastrosos.
Vaidade desmesurada, obras suntuosas, deboche em relação aos cidadãos são traços frequentes na decadência dos imperadores. Não é raro que se lembre hoje da figura de Nero tocando sua lira enquanto Roma pega fogo.
Os clássicos, lembra Beard, não são de esquerda nem de direita. A palavra carrega a mesma raiz latina de “classe social”, “elegância” e “sala de aula” – uma sala aberta para quem quiser aprender.
Mas para aprender, é preciso querer.











