A ex-presidente do Fed e ex-secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, está preocupada com o risco de a inflação subir mais que o esperado – acima da meta de 2% do BC americano.
Na sua visão, vários fatores podem pressionar a inflação: os choques de oferta em diferentes mercados, a alta demanda por itens como semicondutores e energia para data centers e os impactos dos conflitos no Oriente Médio.
Para Yellen, os investimentos em AI, por enquanto, são inflacionários. “A produtividade pode aumentar de novo, como aconteceu com a adoção de novas tecnologias no passado, mas ainda não vemos evidências disso,” Yellen disse durante um painel na Expert XP.

Ela fez um paralelo com a visão de Alan Greenspan sobre os aumentos de produtividade na década de 1990; na época em que ele presidia o Fed, Yellen fazia parte do board of governors.
Numa reunião em 1996, Greenspan era o único a argumentar que a maior produtividade seguraria a inflação e, por isso, não seria necessário aumentar os juros. A maioria do board era contra, mas decidiu pagar para ver – e Greenspan estava certo.
But this time if different, disse ela. “Não dá para reduzir os juros por causa da AI. Não agora. Talvez no médio prazo.”
As tarifas impostas pelos EUA têm impacto “enorme” mas transitório – ou seja, elevam a inflação no momento em que são incorporadas aos preços, disse ela.
Yellen vê o Fed on hold, analisando como esses fatores podem influenciar a inflação, mas também acredita que o BC americano está pronto para agir e elevar os juros.
Sobre o papel do dólar como reserva de valor, Yellen acredita que as mudanças geopolíticas devem continuar levando os países a buscar alternativas à moeda americana.
Em 2022, quando o G7 decidiu por aplicar sanções à Rússia por causa da guerra na Ucrânia, “os riscos estavam claros”, disse ela. “Muitos países passaram a se perguntar o que aconteceria se eles estivessem do lado errado.”
Ao mesmo tempo, afirmou, ainda há poucas alternativas viáveis ao dólar e, por isso, ela não vê mudanças rápidas no curto prazo.
A situação fiscal dos EUA deveria ser uma das grandes preocupações dos investidores, disse Yellen. Ela vê problemas estruturais pressionando os gastos públicos – como as mudanças demográficas que elevam as despesas da previdência e do sistema de saúde.
Ao mesmo tempo, acredita que nenhum governante tem incentivos para agir, porque cortes são impopulares (o economista Caio Megale, que mediava o painel, comentou que ela parecia estar falando do Brasil).
Megale perguntou, então, se haveria uma maneira de comunicar à população a necessidade de equilibrar as contas – e os benefícios que isso traria no médio prazo.
“É muito desafiador… Quem faz isso costuma perder a eleição,” disse Yellen.











