Com gastos públicos em alta e crescimento econômico medíocre, o México está próximo de perder o grau de investimento – e uma das razões para isso são as recorrentes capitalizações que o Governo tem feito na Pemex.
Segundo a Bloomberg, nos últimos dois anos o Governo da esquerdista Claudia Sheinbaum coordenou mais de US$ 50 bilhões em operações de socorro financeiro à estatal.
Esses valores se somaram aos US$ 80 bilhões que seu antecessor, o ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, repassou à empresa – totalizando, portanto, mais de US$ 130 bilhões.
A Moody’s rebaixou recentemente a nota mexicana para ‘Baa3’ – um degrau apenas acima do nível especulativo e num patamar similar ao ‘BBB-’ concedido pela Fitch. Pela S&P, os títulos soberanos mantiveram o rating ‘BBB’, um nível acima das outras duas agências.

No mercado de títulos soberanos o país já vem sendo tratado com junk. Trata-se de um downgrade e tanto para uma nação que chegou a ter nota ‘A’ em 2014.
Em sua revisão da nota anunciada em maio, a Moody’s afirmou que “a rigidez dos gastos, a base de receitas limitada e o apoio contínuo à Pemex limitam a capacidade do Governo de estabilizar a dívida em um cenário de baixo crescimento.”
Segundo a agência, os esforços para reduzir o déficit fiscal não foram suficientes para compensar a elevação de outras despesas, “incluindo a soberania energética e um modelo de gastos redistributivos.”
O resultado foi “uma deterioração mais rápida dos indicadores de dívida do que o previsto anteriormente.”
Com poços antigos e pouco produtivos, a Pemex tem uma estrutura inchada e perde dinheiro. Enfrenta também o roubo de combustíveis de seus dutos pelas gangues do crime organizado.
A recuperação operacional da petroleira foi uma das prioridades de López Obrador.
AMLO, como é conhecido o ex-presidente, reverteu a abertura do mercado de petróleo no país e privilegiou o “fortalecimento” da estatal – mas a companhia segue perdendo dinheiro e, pior, ao consumir recursos federais, agora já afeta o risco soberano.
A produção da Pemex caiu para menos de 1,7 milhão de barris/dia, metade do que era há duas décadas. A sua dívida caiu nos últimos trimestres, mas ainda passa de US$ 78 bilhões, a maior entre as companhias do setor.
No ano passado, a Pemex reportou um prejuízo líquido de 45,2 bilhões de pesos (US$ 2,7 bilhões), uma redução em relação aos 780,5 bilhões de pesos de 2024.
A piora na dinâmica fiscal mexicana reflete também a desaceleração na economia. O PIB cresceu 1,1% em 2024 e 0,8% em 2025. No primeiro tri deste ano, o ritmo anualizado foi de apenas 0,2%.
O déficit público tem se mantido ao redor de 5% nos últimos anos, contra uma média de 2,7% entre 2019 e 2023. A dívida encerrou o ano passado em 49% do PIB, e as estimativas indicam uma alta para 54% do PIB até 2029.

A S&P disse em maio que poderá cortar o rating nos próximos 24 meses caso o país não consiga reduzir seus déficits fiscais em tempo hábil para estabilizar a dívida.
Na comparação com o Brasil, o México tem a favor números ligeiramente melhores no endividamento e no resultado fiscal. Mas com relação ao desempenho do PIB, os resultados mexicanos têm sido ainda mais modestos que os brasileiros.
E o problema parece estar se agravando.
“O PIB per capita cresceu a uma média de apenas 1,4% ao ano entre 1960 e 2025, desempenho inferior ao dos EUA (1,7%) e ao de Canadá, Brasil, Colômbia e Argentina (cerca de 2%),” disse o Bank of America num relatório publicado ontem. “Apesar de décadas de estabilidade macroeconômica e reformas, o México não conseguiu retomar as altas taxas de crescimento observadas antes do início da década de 1980. Acreditamos que a baixa produtividade seja a principal explicação para isso.”
O BofA disse que o país deverá perder o grau de investimento nos próximos dois ou três anos. De acordo com o banco, a estagnação também já vem afetando o consumo, “à medida que as famílias ajustam seus gastos às expectativas de uma renda permanente mais baixa.”











