Acreditar em uma nova tecnologia e ser otimista com os fatos pode nos impedir de reconhecer os riscos?

Lendo 1873: The Rothschilds, the First Great Depression, and the Making of the Modern World, de Liaquat Ahamed, essa indagação me veio à cabeça. (Compre aqui)

O livro conta o que foi a primeira crise financeira verdadeiramente global, e mostra como suas consequências ultrapassaram em muito os mercados financeiros.

A crise de 1873 não foi apenas uma quebra de bolsas. Foi o ponto de inflexão de uma época de extraordinário otimismo, em que tecnologia, globalização, crédito e progresso pareciam estar construindo um mundo completamente novo.

E talvez seja justamente por isso que este livro seja tão interessante para quem tenta entender o momento atual.

No final da década de 1860, a economia mundial parecia muito saudável. O otimismo reinava. Poucos acontecimentos simbolizam melhor aquele momento do que três grandes obras de infraestrutura concluídas em rápida sucessão: em maio de 1869, as ferrovias Union Pacific e Central Pacific finalmente se encontraram em Promontory Summit, Utah. A viagem entre Nova York e São Francisco, que levava cerca de seis meses, passava a ser feita em seis dias.

Poucos meses depois, em novembro, a inauguração do Canal de Suez encurtou drasticamente a ligação marítima entre Europa e Ásia. E em março de 1870, uma ferrovia de quase 2 mil km na Índia conectava Bombaim a Calcutá.

Tão poderosa era a ideia de que o mundo estava ficando menor que Julio Verne encontrou inspiração para escrever A Volta ao Mundo em 80 Dias.

Será que, se vivêssemos naquela época, também não ficaríamos maravilhados?

E este é um dos grandes méritos do livro: nos faz compreender o mundo antes da crise sem o benefício do conhecimento posterior. Nós sabemos que uma enorme bolha estava se formando. Eles não sabiam (ex-ante nunca se sabe). Para quem vivia naquele momento, as evidências apontavam, de fato, para um futuro extraordinariamente promissor.

O mundo construído a crédito

Por trás daquele entusiasmo estava uma transformação talvez ainda mais importante: a criação de um mercado de capitais realmente internacional em uma escala até então inédita.

A ferrovia era a grande tecnologia transformadora do século XIX, mas custava enormes quantidades de dinheiro. O capital necessário não estava necessariamente no país onde o investimento seria realizado, e o mundo passou a estar conectado por uma crescente rede financeira.

É aqui que entram os Rothschild.

Mais do que simplesmente contar a história de uma família de banqueiros, o autor usa os Rothschild como uma espécie de janela para observar a arquitetura financeira daquele mundo. Com casas em Londres, Paris, Frankfurt e Viena e conexões com Nova York, a família estava no centro da mobilização internacional de capital.

Mas há um twist importante: os Rothschild não são os grandes especuladores da história. Ao contrário. Uma das lições do livro é justamente a importância de saber quando não participar da euforia.

Enquanto investidores se encantavam com ferrovias, imóveis, governos e projetos de desenvolvimento, a família adotava uma postura muito mais cautelosa. O princípio era simples: diversificação, informação e preservação de capital.

Essa é uma ideia poderosa no livro. Não basta identificar uma grande oportunidade. É preciso também reconhecer quando o preço pago por ela já incorpora um futuro perfeito.

A euforia

Na segunda parte do livro, intitulada “Euforia”, a narrativa muda de tom. O progresso econômico começa a produzir uma sensação de invulnerabilidade. Berlim e Viena tornam-se personagens da história tanto quanto os banqueiros. São cidades tomadas pela especulação, novos prédios, riqueza rápida e negócios cada vez mais sofisticados. Vemos uma sociedade em que o enriquecimento parece ter se tornado uma atividade coletiva.

O problema não era a existência de boas oportunidades. Muitas das oportunidades eram reais. As ferrovias eram reais. A industrialização era real. A integração comercial era real. O crescimento das cidades era real. O que não era necessariamente real eram os preços que o investidor passou a pagar por essas oportunidades.

Esta distinção é fundamental para compreender crises financeiras: uma tese pode estar correta e, ainda assim, um investimento baseado nela estar errado.

A crise não nasceu, portanto, simplesmente porque as pessoas acreditaram em uma mentira. Muitas delas acreditavam em algo verdadeiro – o progresso tecnológico e econômico – mas extrapolaram suas consequências. Soa familiar?

Black Friday

O colapso da Bolsa de Viena em 9 de maio de 1873 pode ser considerado o estopim da crise, mas está longe de ser sua causa isolada. Uma bolha imobiliária e financeira havia se formado na Áustria, alimentada por crédito e especulação. Quando a confiança desapareceu, os preços caíram rapidamente. A Bolsa de Viena perdeu cerca de 45% de seu valor em um único dia.

A confiança desapareceu simultaneamente em diferentes mercados, e a crise atravessou o Atlântico.

Nos Estados Unidos, a figura de Jay Cooke ocupa um papel central. Cooke havia se tornado um dos mais importantes banqueiros americanos, especialmente por seu papel no financiamento do governo durante a Guerra Civil.

Quando o fluxo de capital secou, a Jay Cooke & Company quebrou. Era setembro de 1873. O fechamento do banco provocou corridas bancárias e uma onda de vendas que atingiu Wall Street. Mais de US$ 1 bilhão em títulos ferroviários americanos acabaria entrando em default.

A crise, portanto, não era mais austríaca, americana ou europeia. Era global.

O outro lado da moeda

Mas talvez a parte mais fascinante do livro esteja naquilo que acontece depois do crash. Uma crise financeira não termina quando os preços das ações deixam de cair. A verdadeira história pode começar depois.

O endividamento permanece. Os projetos continuam existindo. As dívidas precisam ser pagas. E, sobretudo, as instituições precisam decidir quem absorverá as perdas. É nesse momento que a história financeira se transforma em história política.

O mundo de 1873 possuía um sistema monetário muito diferente do atual, essencialmente bimonetário. Ouro e prata desempenhavam papéis fundamentais na definição do valor das moedas.

Ao longo desse período, grandes economias começaram a caminhar em direção ao padrão-ouro, abandonando progressivamente a prata como parte central de seus sistemas monetários.

A consequência foi uma transformação profunda da oferta monetária internacional. A retirada da prata de circulação e a crescente preferência pelo ouro produziram contração monetária e uma longa onda deflacionária. O livro vê nessa transformação um dos fatores fundamentais para explicar a duração e a profundidade das consequências da crise.

Quando a crise vira política

As consequências se espalham.

Nos Estados Unidos, a crise contribui para enfraquecer a economia, o que passa a alimentar conflitos políticos e sociais levando ao fim da Reconstruction, o esforço de reorganização política do país depois da Guerra Civil.

No Império Otomano e no Egito, a história assume uma dimensão ainda mais dramática. Seus governos haviam tomado enormes quantidades de recursos emprestado. Quando as condições financeiras se deterioraram, a capacidade de honrar essas dívidas desapareceu. O endividamento externo transformou-se progressivamente em perda de soberania.

O Egito é um dos exemplos mais impressionantes. A extravagância dos gastos públicos e privados, combinada com a enorme expansão da dívida, acabou levando o país a uma situação em que os credores estrangeiros passaram a exercer crescente controle sobre suas finanças. O Egito acabaria sendo ocupado pela Grã-Bretanha, em um processo diretamente relacionado à crise de sua dívida.

No Império Otomano, a crise de 1873 ajudou a colocar em movimento uma longa espiral de fragilidade financeira e política que acaba por levar ao fim do Império e redefine as fronteiras da Europa.

É nesse ponto que o título do livro — “the making of the modern world” — ganha em parte seu significado. A crise financeira ajudou a redesenhar relações de poder entre credores e devedores, entre impérios e países periféricos, entre governos e investidores.

O lado sombrio: a procura por culpados

A transformação da frustração econômica se transforma em ressentimento político. Quando as pessoas perdem dinheiro, procuram explicações. E, quando uma explicação estrutural é difícil de compreender, surge a tentação de encontrar um culpado.

Os Rothschild, apesar de terem sido relativamente prudentes durante a bolha, tornaram-se alvo de ataques antissemitas. A crise ajudou a alimentar a narrativa segundo a qual “as finanças judaicas” seriam responsáveis pelas dificuldades econômicas.

É um dos exemplos mais sombrios do livro: uma crise produzida por uma combinação complexa de crédito, especulação, política monetária, excesso de investimento e fragilidade fiscal acaba sendo atribuída a um grupo específico.

Crises financeiras podem produzir mudanças sociais, nacionalismo, populismo e procura por bodes expiatórios. A crise de 1873, nesse sentido, não termina no mercado financeiro. Seus efeitos atravessam décadas.

As revoluções de hoje

É aqui que o livro se torna especialmente atual. É fácil — e muito provavelmente correto — assumir que a revolução causada pela inteligência artificial será única. A tecnologia é extraordinária e suas consequências são impossíveis de dimensionar.

Mas talvez esta seja justamente a razão para lermos a história. O erro não está em acreditar na transformação. O erro estava em acreditar que, porque a transformação era verdadeira, todas as expectativas construídas sobre ela também eram.

1873 ensina que as revoluções tecnológicas não precisam ser falsas para produzir consequências negativas, e que uma crise financeira não é apenas uma história de preços.

É uma história de seres humanos tomando decisões sob incerteza.  Para quem leu sobre 1929 ou mesmo 2008, talvez esta seja a maior semelhança. Banqueiros, investidores, políticos e empresários precisam decidir enquanto o futuro parece cada vez mais incerto.

Mark Twain (personagem no livro) teria dito que “a história não se repete, mas rima”. 1873 não diz que a história vai se repetir, mas nos lembra que nossa tese sobre o futuro nunca é a única possível.

Acredito firmemente que a AI será uma das tecnologias mais transformadoras da história, e que vai criar muito valor. Mas é justamente quando estamos mais convencidos de que estamos diante de uma transformação sem precedentes que seja mais importante procurar a antítese daquilo em que acreditamos.

1873 ajuda a manter essa perspectiva.

Artur Wichmann é o chief investment officer da XP Inc.