Filósofo, escritor e comentarista, Luiz Felipe Pondé quase foi médico — mas decidiu levar a filosofia para o grande público. Uma das vozes mais conhecidas do debate intelectual brasileiro, ele é o convidado deste episódio de The Business of Life, apresentado por Nilton Bonder.

Filho de pai católico e mãe judia, Pondé nasceu no Recife, mas deixou Pernambuco ainda criança. O pai, capitão médico da Aeronáutica, foi atingido pela repressão depois do golpe de 1964. “Eu lembro de um período meio confuso, de a gente entrando numa Kombi e indo embora,” diz.

A família se mudou para Salvador. Além do pai, o avô, a irmã e outros parentes eram médicos — todos, segundo ele, com interesse pelas humanidades. “Eu fui o único que deu salto e me meti com humanas de fato,” diz.

O salto ocorreu quando Pondé cursava o quinto ano de medicina, na Bahia. “A minha crise não era tanto com o curso, mas porque eu comecei a projetar minha vida futura,” diz. A ponte para as humanidades foi a psicanálise. “O Freud me levou para a filosofia,” diz.

De mudança para São Paulo, cursou filosofia na USP. A decisão não provocou resistência em casa, mas com os sogros. “Casaram a filha com o médico e acordaram com o estudante de filosofia,” diz.

Desde a graduação, Pondé queria ser um intelectual público. “Eu associava a mídia à ágora, de Atenas,” diz. O pontapé inicial foi no Estadão, enquanto estudava em Paris. Com mais de 20 livros publicados, é colunista da Folha de S.Paulo. Desde 2021, participa do programa Linhas Cruzadas, na TV Cultura.

Em uma época de intelectuais que trabalham para causas políticas, Pondé tenta ocupar outro lugar. “Trabalhar para causa nenhuma — o que, às vezes, é confundido com niilismo,” diz. Para ele, o niilismo pode ser um bom método filosófico — e péssimo na vida real. “Quando alguém diz que é niilista, normalmente ele é mal-educado. Ou ele é muito ressentido,” diz.

Ao falar da universidade, Pondé é duro. Critica a política interna, as disputas por espaços, bancas, bolsas e prestígio. A perda mais grave, afirma, é a do prazer pelo conhecimento. “Na universidade, o menos importante é o aluno.”

Foi por isso que, ao migrar para a imprensa, Pondé encontrou mais liberdade. “Na mídia, tinha muito mais oxigênio que na universidade,” afirma. Hoje, porém, vê também a imprensa comprimida pelo ambiente ideológico. “A mídia está ficando asfixiada pela polarização,” diz.

Para ele, num ambiente em que tudo parece narrativa, a credibilidade voltou a ser o capital mais importante. “O seu patrimônio é a sua credibilidade,” diz. Ainda mais num momento em que “a mentira é um método”. 

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