A ascensão foi espantosamente rápida. Em pouco mais de uma década, um quase desconhecido jovem que militava na juventude do PTB se elegeu deputado estadual e chegou ao governo gaúcho.

Nesse percurso houve escalas na Câmara e um meio mandato na prefeitura da capital. No Piratini, sua estadia foi enérgica e, antes do fim do mandato, ele comandaria um movimento de imenso apelo popular – a Campanha da Legalidade – que garantiu a posse do vice-presidente João Goulart.

Ou seja, antes de completar 40 anos, Leonel Brizola já estava na História – e pouco tempo depois seria mandado para o exílio.

Agora, este personagem gigantesco e multifacetado é investigado em Brizola – Lobisomem Contra o Império (Companhia das Letras, 456 páginas, R$ 99,90), no qual a jornalista (e simpatizante de Brizola) Karla Monteiro recupera a trajetória de um dos políticos brasileiros mais controversos. (Compre aqui)

O lobisomem do título está ligado (primeiro como deboche) às longas conversas radiofônicas de Brizola durante seu governo e faz referência à maneira como ele era chamado pelos adversários por varar a madrugada falando nos microfones e atacando os Estados Unidos.

Mostrando sua imensa capacidade de adaptação, Brizola transformou a crítica em elogio. Assim, o lobisomem que assustava o imperialismo era também um símbolo carismático, que por mais de meio século cativou um eleitorado fiel, primeiro no Rio Grande do Sul e depois no Rio de Janeiro.

Brizola enfrentou o exílio e cultivou adversários políticos (da Rede Globo a setores das Forças Armadas), saiu e voltou ao Brasil, perdeu o partido que queria comandar (o PTB) e, em seguida, passou a comandar o que fundou (o PDT). Tornou-se o caso único de político que foi eleito diretamente governador por dois estados diferentes – o Rio Grande do Sul (entre 1958 e 1962) e o Rio de Janeiro (primeiro entre 1982 e 1986 e depois entre 1990 e 1994) – mas não deixou sucessores. No máximo, discípulos e seguidores.

Neste primeiro volume – um segundo já está em andamento, com previsão de lançamento para daqui a dois anos – a autora parte da infância pobre em Carazinho para traçar um panorama não apenas de seu personagem, mas também do entorno social e político do Rio Grande do Sul de meados do século 20 ao Brasil do final dos anos 70.

A recuperação da história de Brizola começa em um Estado conturbado, dominado por conflitos e pela presença de caudilhos como Borges de Medeiros. Na sequência, a história passa pela ascensão de Getúlio Vargas e chega aos anos 40 e ao final da Segunda Guerra Mundial.

Brizola nasce dessa confluência de pessoas e momentos históricos. A adolescência difícil, com trabalhos como engraxate e ascensorista, encontra sua salvação no estudo e na descoberta da política. A educação seria para sempre sua base e meta, e a política, o instrumento para materializar esse ideário.

Na política, Brizola quase sempre desprezava a teoria e aplicava o que viveu. Dois temas se destacam: o primeiro, a importância da questão de fixar o homem à terra, de organizar uma reforma agrária. O outro, a educação, se transformou numa obsessão.

Só com escolas próximas, professores presentes e  alunos alimentados Brizola vislumbrava um caminho para a conquista individual e o progresso de uma nação. O adolescente que precisou sair de casa para poder estudar e perseverou até se formar em Engenharia Civil sabia que seu exemplo era uma exceção.

Sua primeira referência foi Alberto Pasqualini, o ideólogo do trabalhismo. Mas mais do que ideias e eventuais leituras teóricas, a consciência política de Brizola foi se moldando por duas vertentes: parte pelo pragmatismo do jovem que ambicionava mudar de vida, parte pela intuição.

Aliás, é o estilo intuitivo que vai marcar o início e toda a ação política de Brizola. Alheio ao comunismo que fascinava muitos jovens de sua geração, Brizola encontrou em Getúlio seu modelo máximo. Padrinho de seu casamento com Neuza Goulart – a irmã mais jovem de João Goulart, já um fazendeiro bem-sucedido e colega de Parlamento de Brizola – o presidente que volta ao poder em 1950 nos braços do povo seria, para Brizola, o exemplo maior de condução do interesse público e de inteligência política.

A transição dos anos 50 para a década seguinte colocaria em cena um novo Brizola. Assim, dez anos depois de Getúlio se suicidar, tudo mudaria. João Goulart – eleito vice-presidente e empossado depois da renúncia de Jânio Quadros – jamais seria aceito por setores do Exército e do empresariado. Com a vitória dos militares que assumiram o poder, o presidente deposto e seu cunhado não teriam permissão para permanecer no País. Pelo livro, inclusive, é possível concluir que Brizola, mais do que Jango, era o principal inimigo dos militares.

A autora ressalta algumas descobertas, como a que lhe foi assoprada pelo ex-deputado Almino Affonso, que sugeriu que ela procurasse um ex-embaixador de Cuba chamado Raúl Roa Khoury. Aos 90 anos, um lúcido Roa Khoury confirmou que o interesse de Brizola pelo exemplo da Revolução Cubana começou antes do golpe de 1964. “Brizola sempre estudou bastante sobre os rumos da América Latina,” sustenta Karla.

Por isso, também, a surpresa de ele ter escolhido os EUA para passar uma temporada no final do seu exílio. Foi uma espécie de teste do que se dizia do governo de Jimmy Carter e de seu respeito pelo que acontecia na América do Sul.

No aspecto mais pessoal, Karla Monteiro apresenta um Brizola que se mantinha distante de todos. Alguém que levava uma vida compartimentada, se expondo pouco. Não foi um pai dos mais presentes com os três filhos, e não se sabe de nenhum amigo com quem tenha tido grande proximidade. O limite que Brizola impunha ao seu redor fazia até que pessoas teoricamente do seu círculo o chamasse de doutor.

O primeiro volume da biografia se encerra com o retorno do ex-governador ao Brasil, após 15 anos de exílio. Daí em diante, ele se esforçaria para fazer do PDT um partido nacional, entraria na aventura de se eleger e governar o Rio de Janeiro, e embarcaria na retomada do sonho interrompido em 1964 de chegar à Presidência, fracassando nas duas tentativas, em 1989 e 1994.

Mineira de Diamantina, 54 anos, Karla pensa em batizar o próximo livro de Lobisomem à Beira-Mar. Eleitora de Brizola nos pleitos de 1989, 1994 e 1998 (quando ele aceitou compor como vice-presidente a chapa de Lula), Karla pretende detalhar a proximidade entre o líder trabalhista e o atual presidente, uma relação de muitas idas e vindas.

“Brizola acreditava que seu maior rival dentro da esquerda seria Miguel Arraes”. E define a nova imagem de seu biografado: “No seu retorno do exílio, Brizola já era um lobisomem mais domesticado.”