Chris Meyn, que ajudou a desbravar a indústria de private equity no Brasil como sócio da Gávea Investimentos e se reinventou como investidor de cannabis nos últimos anos, teve a vida abreviada ontem, num acidente de carro.  Ele tinha 49 anos.


10579 bbb1cb44 aff3 b010 2a9e f5fa7963a0d0Chris, que morava no Oregon, estava voltando de uma pescaria com o filho quando seu carro bateu em um caminhão. Collin, de 15 anos, está em estado crítico porém estável.

Os amigos se mobilizaram para lembrar o sócio e o amigo.

Gerald Lee conheceu Chris na época da fundação da Azul.  Lee era o CFO da aérea, e foi com ele que Chris negociou o investimento da Gávea na companhia.

“Por trás daquele banqueiro duro e experiente estava um cara simples, de pés no chão, que impactou direta e indiretamente a vida de tanta gente,” diz Lee, com a voz embargada. “Ele era tão confiante e tão bem sucedido que, se ele acreditasse em você ou no que você estava fazendo, você conseguia acreditar nisso também. Eu tenho uma gratidão imensa a ele…. E eu gostaria de poder ter dito isso a ele.” 

Lee esteve com o amigo há cerca de um mês.

“Conversamos por horas sobre a vida e os desafios no Brasil, e sobre como podemos ter um impacto positivo através de boas empresas. Foi um papo parecido com outros que tivemos, só que desta vez ele tinha abandonado completamente o terno e aquela persona de banqueiro conservador.”

Carlos de Barros, que trabalhou com ele na Gávea, chamou Chris de “uma força da natureza.”  

“Você podia esperar tudo dele, menos o básico.  Quando estava inspirado, ele dominava reuniões e encantava os investidores e os empreendedores. Saímos da Gávea como uma família— e esse é o maior legado do Chris para mim.” 

Christopher D. Meyn nasceu no Oregon e formou-se em economia em Stanford, onde foi jogador de futebol americano. (Segundo um perfil na GQ, sua tese de conclusão de curso, de 1989, sustentava que os EUA deveriam relaxar as leis de repressão contra os usuários de maconha.) Ao sair da faculdade, trabalhou como banqueiro de investimentos no Dean Witter, e depois em uma empresa de consultoria.  

Em 1998, veio para o Brasil trabalhar com Luiz Fraga, primo de Arminio, na Latinvest, uma gestora de investimentos no Rio de Janeiro.  Chris fazia os investimentos ilíquidos, incluindo em empresas de tecnologia.  Participou de rodadas de capital em O Site, no UOL e na Módulo, entre outras companhias. O negócio ganhou massa crítica e se tornou a Latintech, pouco antes do início da bolha da internet.

Em 2006, quase três anos depois de fundar a Gávea, os Fraga decidiram começar uma operação de private equity, e chamaram Chris para liderar a área.  Nos 10 anos seguintes, ele ajudou a Gávea a levantar mais de US$ 5 bilhões e investir em empresas como Arcos Dorados (a master franquia do McDonald’s na América Latina), Azul, Aliansce Shopping Centers e Multiterminais.  

Mas talvez seu legado mais duradouro seja a equipe que montou e cultivou na Gávea, e que hoje está espalhada pelo mercado: Carlos de Barros (hoje CFO e, a partir de janeiro, diretor geral da Dasa); Piero Minardi e Henrique Muramoto (hoje no Warburg Pincus); Frederico Pascowitch (hoje no private equity da Itaúsa); e Rafael Horta.

Minardi diz que Chris “entendia os empreendedores e falava a língua que o empreendedor gostava de ouvir — e isso é uma arte.  E ele era muito mais brasileiro que muitos brasileiros. Enquanto os gringos geralmente são muito ‘by the book’, muito preto no branco, o Chris tinha camarote no Engenhão para ver jogo do Botafogo.” 

 
Luiz Fraga disse que Chris aprendeu sobre disciplina de investimentos e controle de risco com Tom Blumenthal, o sócio do Baupost, o hedge fund de Seth Klarman. “Ele tinha uma habilidade única de contar estórias e era ultra sofisticado na captação de recursos:  combinava o macro com o micro, o ‘top down’ e o ‘bottom up’. Foi um desbravador.”

Há três anos, Chris deixou a Gávea e se mudou com a família para o Oregon, seu estado natal.  Estava em paz, mas ainda empreendendo. Morava perto da fazenda de seus pais e começou a investir em empresas ligadas à indústria de maconha.

Fundou duas:  a Gnome Grown Organics, que cultiva cannabis e opera lojas de varejo (dispensários), e a EVOLVD, uma marca de cigarro eletrônico de cannabis de altíssima qualidade.  (O óleo queimado pelos cigarros é produzido por seu sócio, Marley Bankoff, um autodidata que aprendeu o processo de extração dos óleos a partir da flor da maconha.)

Chris também tinha planos para o Brasil:  estava esperando a aprovação do cultivo da cannabis pela Anvisa (para fins medicinais) para trazer sua expertise ao País. “Ele tinha dezenas de ideias e ficava conversando com várias pessoas no Brasil,” diz outro investidor do ramo que mantinha contato com ele. 

Chris deixa a mulher, Daniela, e os filhos John (20 anos), Isabella (17) e Collin.