Mais um nome icônico da economia real bate na porta do juiz de falências.

Após entrar com um pedido de recuperação judicial com dívidas de R$ 17,3 bilhões, a Casas Bahia vai buscar R$ 1 bilhão em um ‘debtor-in-possession financing’ (DIP) – uma tentativa de atravessar os próximos meses e concluir seu segundo turnaround.

Esta é a primeira RJ da varejista fundada por Samuel Klein, mas dois anos atrás ela já havia pedido uma recuperação extrajudicial.

O DIP – um financiamento concedido a uma empresa em RJ e que tem prioridade de pagamento sobre outros créditos – deve ter a participação do Bradesco e Banco do Brasil, os dois maiores credores financeiros da varejista, e de outros credores, uma fonte a par do assunto disse ao Brazil Journal

O dinheiro deve funcionar como uma ponte até 2027, quando a empresa espera capturar os efeitos de outras duas fontes de liquidez abertas pela recuperação judicial: a liberação de depósitos judiciais e a renegociação de passivos tributários.

A Casas Bahia tem cerca de R$ 2 bilhões depositados em juízo, dos quais pouco mais de R$ 1 bilhão estão ligados a questões trabalhistas e previdenciárias.

A companhia pretende pedir à Justiça a liberação de aproximadamente R$ 1 bilhão desse montante.

Na frente tributária, a Casas Bahia – que desembolsa entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões por ano em impostos – pretende usar mecanismos de transação tributária para alongar pagamentos e eventualmente obter descontos.

Somadas, as duas medidas podem liberar ou postergar cerca de R$ 2,5 bilhões de caixa ao longo do próximo ano, disse uma fonte.

Esse dinheiro, no entanto, não chega agora. Por isso, a companhia calcula que precisa de pouco mais de R$ 1 bilhão ainda este ano para recompor os estoques e atravessar o período de ajuste.

“A empresa queria ter divulgado esse plano junto com a recuperação judicial, mas ainda há alguns detalhes para acertar,” disse a fonte.

A companhia também pretende mudar a relação com os fornecedores. 

Os passivos anteriores à RJ devem ser alongados, sem haircut, enquanto as novas compras serão feitas à vista – uma forma de voltar a comprar mercadorias mesmo depois de perder parte dos limites de crédito com os fornecedores.

O pedido acontece poucos meses depois de a Casas Bahia concluir uma reestruturação que praticamente eliminou sua dívida financeira.

A companhia converteu bilhões de reais em debêntures em ações, numa operação que consolidou a Mapa Capital como controladora e reduziu drasticamente sua alavancagem.

No segundo trimestre, a dívida líquida ajustada era de R$ 1,2 bilhão e a alavancagem ficou em 0,5 vez o EBITDA, ante 2,2 vezes um ano antes.

Apesar de reportar R$ 800 milhões de fluxo de caixa livre no segundo trimestre, boa parte da geração veio da redução de R$ 1,15 bilhão nos estoques – uma alavanca que não poderia ser repetida indefinidamente, segundo a fonte.

“No primeiro tri, a empresa fez liquidez com fornecedores, alongando o prazo. No segundo, reduzindo o estoque. Não tinha mais muito de onde tirar,” disse uma fonte próxima à companhia.

A Casas Bahia tentou então trazer dinheiro novo via equity e crédito, mas a piora do mercado fechou a janela de ações e encareceu o crédito.

No fato relevante que anunciou a RJ, a empresa reconheceu que as alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas não se concretizaram.

A recuperação judicial veio acompanhada de mais uma fase do turnaround.

Na sexta-feira, a Casas Bahia fechou 298 lojas deficitárias e demitiu mais de 3 mil pessoas entre lojas e áreas administrativas, apurou o Brazil Journal.

“A empresa nunca fez esse ajuste forte porque não tinha caixa. Se a Casas Bahia tivesse conseguido alguma captação, teria que fazer o ajuste da operação de qualquer jeito,” disse a fonte.

Só os cortes de pessoal devem gerar uma economia de aproximadamente R$ 400 milhões por ano.

Incluindo tecnologia, aluguéis, contratos e outras despesas, a redução estrutural deve chegar a cerca de R$ 2 bilhões anuais. O capex também foi cortado em aproximadamente R$ 150 milhões.

Segundo a fonte, a estratégia da Casas Bahia é operar uma companhia menor, priorizando margem, caixa e retorno sobre o capital empregado acima do volume de vendas e da participação de mercado.

A expectativa da companhia é que a combinação do dinheiro novo, da liquidez destravada pela RJ e dos cortes de custos permita que a operação volte a gerar caixa positivo em 2027.

A ação da Casas Bahia cai 77% nos últimos doze meses. A empresa vale R$ 670 milhões na B3.