A guerra de Donald Trump e a guerra eleitoral de Lula jogaram as projeções de inflação para cima no Brasil, desancoraram as expectativas e colocaram os juros futuros em patamares não vistos desde 2015, na crise do Governo Dilma.
O conflito no Oriente Médio (que pode ter acabado ontem com o acordo EUA-Irã) manteve o petróleo em alta, com impacto nos fertilizantes, na eletricidade e nos alimentos. No front doméstico, a surpresa negativa foi o aumento da gastança eleitoral em um ritmo mais acelerado do que o precificado.

A despesa primária do governo central cresceu 14% em termos reais no primeiro quadrimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior, segundo um relatório de Mansueto Almeida e Samuel Pessôa, ambos do time de macro do BTG.
Ao mesmo tempo, segundo eles, “observou-se uma expansão sem precedentes das operações parafiscais no atual mandato, por meio de programas de crédito subsidiado e estímulos direcionados a setores específicos da economia.”
É a reedição da desastrosa Nova Matriz Econômica.
O BTG estima que o estoque de operações de crédito subsidiado aumentou cerca de R$ 275 bilhões desde meados do ano passado – um valor próximo a 2% do PIB.
“O impacto sobre a demanda agregada já é perceptível e deverá gerar impulso equivalente a aproximadamente 1% do PIB sobre a demanda doméstica em 2026,” disseram os economistas, que elevaram a projeção do IPCA para o ano de 4,1% para 5,3%.
Para a XP, a conta das medidas fiscais e parafiscais soma pelo menos R$ 200 bilhões, o que pode adicionar 1,5 ponto percentual ao crescimento do PIB deste ano. Assim, a estimativa da casa para a inflação no ano, que em fevereiro estava 3,8%, agora foi a 5,5%.
O economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper e especialista em finanças públicas, listou em um relatório mais duas dezenas de medidas recentes de grande apelo eleitoral e enorme custo fiscal.

As de maior impacto são a redução do IR para pessoas que ganham até R$ 7.000 (um custo estimado em R$ 31,8 bi) e o financiamento subsidiado para taxistas e motoristas de aplicativos (R$ 30 bi). São ‘bondades’ que miram grupos eleitorais nos quais o PT vai pior nas pesquisas.

O Governo também subsidiou os combustíveis e o gás de cozinha. É uma conta que já soma R$ 23 bi. Sem falar no financiamento para caminhões, a ampliação do Minha Casa Minha Vida, o perdão de dívidas do Fies…
Segundo Jeferson Bittencourt, chefe de macroeconomia do ASA e ex-secretário do Tesouro, apenas uma pequena parcela das medidas anunciadas pelo Governo foi compensada pelo aumento de tributos.
“Ante estímulos de mais de R$ 200 bilhões, haverá uma compensação inferior a R$ 40 bilhões,” Bittencourt disse ao Brazil Journal. “Não era previsto algo nessa magnitude. Por isso surgiu essa nova onda de questionamento da efetividade das regras fiscais, o que adiciona prêmio aos títulos do Tesouro e aprofunda os desafios fiscais do próximo mandato.”
Não tem faltado criatividade à equipe econômica para encontrar brechas orçamentárias, em operações que lembram as infames pedaladas fiscais dos anos Dilma.
Um dos exemplos citados por Marcos Mendes é o uso de “dinheiro esquecido” por correntistas nos bancos para financiar o Programa Desenrola.
Esses recursos deveriam ser transferidos para uma conta única do Tesouro, e o seu uso implicaria registro de despesa primária, com impacto direto sobre o déficit e nos limites do arcabouço fiscal. Não foi o que aconteceu.

“O Governo usou uma manobra contábil, transferindo os recursos para o FGO [Fundo Garantidor de Operações], sem passar pela conta do Tesouro,” escreveu Mendes. “Isso permitiu ampliar as garantias dos empréstimos do Desenrola sem registrar impacto no teto de gastos ou no déficit primário.”
Para Mendes, trata-se de manobra passível de contestação judicial e também por parte do Tribunal de Contas da União.
Segundo Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos e ex-diretor da Instituição Fiscal Independente, os órgãos de controle estão fazendo vista grossa para o contorcionismo orçamentário, particularmente no que se refere à utilização de recursos dos fundos com destinação específica.
“O Governo está se aproveitando da conivência dos órgãos que deveriam fazer a fiscalização. Estamos falando desde 2025 sobre o uso desses fundos. O TCU chegou a abrir uma auditoria, mas não concluiu absolutamente nada,” disse Barros. “A IFI também foi pouco incisiva. Houve falha das nossas instituições de controle.”
O economista da ARX disse que os estímulos fiscais têm sido ainda maiores por causa do aumento dos gastos de estados e municípios, além dos investimentos de estatais e bancos públicos. Pelas suas contas, a expansão total de gastos e benefícios supera R$ 370 bi.
Até aqui, toda a comunicação do Banco Central é de que haverá um novo corte de 0,25 ponto percentual na decisão desta quarta-feira, reduzindo a Selic para 14,25%. Mas os integrantes do Copom terão diante de si um cenário bem mais complicado do que aquele da reunião de abril.
O mercado aguarda com ansiedade o comunicado que será emitido ao final. Pode ser o último corte do ano, e a curva de juros futuros já precifica uma alta.











