Num momento em que os leilões de saneamento têm dado vazio no Brasil, os donos da Equipav, a fundadora da Aegea, decidiram buscar retornos maiores… na Argentina.
A Arcos – um veículo das famílias Toledo e Vettorazzo – faz parte do consórcio que venceu ontem a disputa pela AySA, a empresa de águas e saneamento de Buenos Aires.
O grupo vitorioso é formado também pela Rowing, a companhia de engenharia, construção e infraestrutura do empresário argentino Walter Román; pela Transclor, a líder na indústria de cloro no país, cujo dono, Mauricio Filiberti, é conhecido como o “Rei do Cloro”; e pelo fundo holandês PHX.
Foi a maior privatização do Governo Javier Milei em termos de arrecadação para o Estado, levantando US$ 340,2 milhões por 90% da companhia – e uma oportunidade grande demais para ser ignorada pelos Toledo e Vettorazzo.

A modelagem do leilão da AySA, desenhada pelo IFC, exigia a presença de um “operador técnico” em cada consórcio, e os brasileiros foram convidados pelos argentinos devido à sua experiência no setor, uma fonte próxima às conversas disse ao Brazil Journal.
“Na Equipav e na Aegea, o foco hoje é melhorar a estrutura de capital, a alavancagem, os ratings. Então a primeira decisão deles foi não entrar como Aegea nem como Equipav Saneamento. Foi via Arcos, um veículo das famílias que não tem dívida.”
Além disso, para evitar uma alocação de capital imediata, a entrada foi negociada por meio de uma opção de compra de entre 15% e 25% de participação no consórcio, que tem dois anos para ser exercida.
Se ao final a escolha for por não exercer a opção e deixar a AySA, a Arcos receberá um pagamento pelos trabalhos técnicos prestados no período.
“Não é todo dia que surge uma oportunidade dessas, e ainda nesse formato. São dois anos para entender o mercado, entender como vai ser a dinâmica política da Argentina e tomar uma decisão,” disse a fonte.
Também há uma avaliação de que o valor de venda da AySA foi bastante competitivo na comparação com transações de saneamento no Brasil.
A Corsan, do Rio Grande do Sul, por exemplo, foi adquirida por Aegea, Perfin e Kinea por R$ 4,15 bilhões, e atende cerca de 6 mihões de pessoas. Ao câmbio atual, a AySA está saindo por R$ 1,7 bilhão – por uma base de 14 milhões de consumidores.
Além disso, a visão dos compradores é de que há muito “mato alto” para cortar na AySA depois de 20 anos de gestão estatal – a empresa surgiu da reestatização das operações da francesa Suez no Governo Nestor Kirchner.
O próprio vendedor do ativo, o Ministério da Economia da Argentina, descreveu a AySA como “um modelo de disfunção administrativa.”
“Entre 2006 e 2023, a empresa recebeu transferências do Tesouro Nacional superiores a US$ 13,4 bilhões, e no entanto um terço da área de concessão ainda não conta com acesso a água potável e esgoto; as perdas de água permanecem em 42%, a inadimplência subiu de 4% para 16% e os custos operacionais aumentaram 80%,” disse o Governo Milei num comunicado em que comemorou a privatização.
Os novos operadores terão como metas alcançar 75,3% de cobertura em água e 63,9% em esgoto até 2031; chegando a 90% e 75%, respectivamente, até o final da concessão, que é de 30 anos com possibilidade de renovação por mais 10.
Os novos donos da AySA também se comprometem com um “plano de ação” de US$ 2,89 bilhões entre 2027 e 2031, sendo US$ 1,13 bilhão em obras e o restante em manutenção, melhorias e operação.
“Apesar de a Argentina possuir um histórico de instabilidade regulatória, o marco regulatório da AySA foi reformulado recentemente, com a estruturação de um novo regime econômico-tarifário. Ela pode ser considerada um ativo particularmente atraente, inclusive pelo porte da operação,” disse o advogado Fernando Vernalha, do escritório especializado em infraestrutura Vernalha Pereira.
A Sabesp também chegou a avaliar o leilão na Argentina, embora não tenha avançado no processo.
Além da oferta vencedora, a AySA recebeu uma proposta de US$ 285 milhões de um consórcio liderado pelo Grupo Roggio, operador da Aguas Cordobesas, que tem negócios incluindo a operação do metrô de Buenos Aires.
De acordo com o La Nación, a estatal israelense Mekorot e o grupo japonês Marubeni estavam associados ao Roggio na disputa.











