Enquanto alguns políticos brasileiros começam a discutir a criação de uma estatal de terras raras, os americanos foram aos poucos assegurando controle sobre a primeira reserva desses minerais descoberta no País.
A USA Rare Earth anunciou hoje um acordo para adquirir 100% da mineradora Serra Verde, com operações em Goiás, por US$ 2,8 bilhões – quase R$ 14 bilhões ao câmbio de hoje.
A compradora dos ativos brasileiros recebeu um aporte de US$ 1,6 bilhão do Governo Trump no início do ano – e os Estados Unidos passaram a ter uma participação acionária de cerca de 10% na companhia.
A própria Serra Verde vinha se aproximando dos EUA, com um empréstimo de US$ 565 milhões junto a uma agência de Washington, a US International Development Finance Corporation, que envolveu também um offtake da produção futura.

A gestão Trump, ávida por alternativas à China no fornecimento das terras raras, costurou um acordo para garantir a compra de 100% da produção inicial da pioneira brasileira do setor.
Esse acordo, por prazo de 15 anos, foi assinado pela Serra Verde com um veículo capitalizado por órgãos do governo dos EUA e investidores privados, disse a CEO da USA Rare Earth, Barbara Humpton. Ela avaliou que o negócio “evidencia a importância global” do ativo.
A CEO também disse que a compra das reservas no Brasil é “um passo transformacional” na ambição da empresa americana de ser uma “campeã global” em terras raras.
A transação da USA Rare Earth pela Serra Verde envolve US$ 300 milhões em dinheiro e o restante em novas ações a serem emitidas pela companhia, que é listada na Nasdaq. O deal deve ser finalizado no terceiro trimestre, sujeito a aprovações regulatórias.
Avaliada em US$ 4,35 bilhões antes do M&A, a USA Rare Earth avalia que a produção no Brasil encerrará 2027 em nível suficiente para gerar um EBITDA anualizado de entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões.
Além da primeira fase de seus projetos, prevista para estar 100% operacional ao final do próximo ano, a Serra Verde tem “potencial significativo de crescimento com sua fase 2,” segundo os americanos.
A USA Rare Earths espera alcançar, com suas operações e as novas reservas no Brasil, um EBITDA anualizado de US$ 1,8 bilhão ao final de 2030.
Enquanto os americanos fazem business, o Brasil levou o tema das terras raras à arena da polarização política.
A bancada do PT, partido do Presidente Lula, apresentou um projeto de criação da “TerraBras” – estatal para “gerir minerais críticos e estratégicos e garantir a soberania nacional sobre esses recursos.”
Em um texto defendendo a proposta, o PT disse que o provável rival de Lula nas eleições presidenciais deste ano, Flávio Bolsonaro, “sinalizou a intenção de entregar a exploração desses minerais aos EUA.”
O projeto petista criaria um modelo de partilha da exploração mineral, semelhante ao usado com o petróleo do pré-sal, para que o Governo seja sócio direto das mineradoras, recebendo parte da produção.
(Será que os americanos estão acompanhando essa discussão?)
Questões políticas à parte, a equipe do BTG Pactual está otimista com o desenvolvimento de uma cadeia de suprimento de terras raras no Ocidente, e vê potencial para o Brasil se tornar um player importante nesse mercado.
“Acreditamos que isso pode marcar o início de uma onda maior de transações no setor, com empresas em estágio inicial de desenvolvimento cada vez mais se tornando alvo de aquisições, especialmente conforme os projetos avançam para produção,” escreveram os analistas Leo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo.
Por enquanto, Serra Verde é a única mina de terras raras ativa no Brasil, com a maior parte dos novos projetos previstos para começar a operar após 2028.
Produzindo desde 2024, a mina pioneira em Goiás recebeu aportes de dois private equity americanos, Denham Capital e Energy & Minerals Group, e da britânica Vision Blue. A produção tem sido vendida à Ásia – em um contrato que vence ao final de 2026 e será substituído pelo acordo com os americanos.











