A Beltic, uma startup fundada por um brasileiro no Vale do Silício, acaba de levantar uma rodada para colocar de pé uma infraestrutura global de identidade e prevenção de riscos para a chamada economia agêntica – um futuro não muito distante no qual os agentes de AI executarão em larga escala compras, pagamentos e outras transações em nome de pessoas e empresas. 

A rodada seed, de US$ 7,3 milhões, foi liderada pela Norwest Venture Partners, um fundo de VC americano com US$ 1 bilhão em ativos, e teve participação da Restive Ventures e do Oxford Seed Fund, ligado à universidade de Oxford. 

A capitalização vem cerca de um ano depois da Beltic levantar US$ 1,5 milhão de pre-seed, numa rodada liderada pela Collide Capital e com a participação da brasileiras Latitud, Positive Ventures e investidores-anjo.

09 23 Mike Allan ok

A Beltic está tentando resolver um dos grandes desafios dos próximos anos: os sistemas atuais de prevenção a fraude e autenticação foram todos desenhados para lidar com humanos – e não com agentes de AI.

Quando um banco tenta identificar uma transação suspeita, por exemplo, ele analisa uma série de sinais relacionados ao comportamento humano: dispositivo utilizado, velocidade dos cliques, localização e outros padrões.

Com um agente de AI, a lógica é diferente. 

“O que fazemos é analisar essas transações feitas por AI em três camadas: identificamos quem está por trás do agente que está fazendo a transação; verificamos se o agente realmente tem autorização para fazer aquela ação; e garantimos que o que foi executado corresponde ao que o usuário realmente pediu,” Mike Allan, o co-fundador da Beltic, disse ao Brazil Journal. 

Mike explica que a primeira camada (a identificação do agente) pode ser feita de forma simples  – o sistema da Beltic pede, por exemplo, que o agente mostre o email do usuário cadastrado naquele merchant ou banco – ou de forma mais robusta (quando por exemplo a compra for grande), pedindo que o usuário envie uma selfie ou uma foto de um documento. 

Já a segunda camada é feita analisando o protocolo utilizado pelo agente para identificar se ele continua representando a intenção inicial do humano. 

O terceiro ponto é o mais complexo, já que comprar uma passagem aérea, uma apólice de seguro ou uma raquete de tênis pode envolver dezenas de atributos que o usuário não especificou necessariamente.

“Um agente pode interpretar uma instrução de maneira diferente daquela imaginada pelo usuário e executar uma compra que, tecnicamente, não corresponde ao que foi solicitado. Em casos mais extremos, ele também pode alucinar no meio do caminho,” disse o fundador. 

“O nosso sistema compara a intenção original com o que está sendo executado e, se identificamos algo estranho, geramos um sinal de risco ou bloqueamos a transação.”

Mike – que apesar do nome nasceu em Timbó, no interior de Santa Catarina – fundou a Beltic junto com Isha Bhatnagar, uma americana que trabalhou seis anos na Coinbase, lidando justamente com verificação dos clientes.

Antes da Beltic, Mike já havia fundado outra startup – a Atar – adquirida pela Porto cinco anos atrás. 

A Beltic está entrando num mercado ainda embrionário. Segundo Mike, a infraestrutura para a economia agêntica começou a ser construída nos últimos 12 meses – com bandeiras, empresas de pagamento e gigantes de tecnologia criando protocolos próprios para permitir que agentes interajam com sistemas de varejo e pagamentos.

“O problema é que não existe um único padrão. A Visa tem seu protocolo, a Mastercard tem outro, a Amex tem outro, e o Google também desenvolve seus próprios padrões. Para um varejista, isso significa que aceitar pagamentos com agentes de AI pode exigir integração com diferentes protocolos, o que é muito complexo,” disse Mike.

A Beltic trabalha de forma multi-protocolo, permitindo que lojas virtuais e bancos interajam com os diversos  protocolos sem precisar construir uma solução própria. (O produto da Beltic está rodando em teste com alguns clientes.)

Apesar da velocidade da evolução da AI, Mike não acredita que daqui dois ou três anos todas as transações serão feitas por AI – sequer a maioria.  

“Mas acho que uma boa parte dos pagamentos vai ser feito por agentes de AI. E-commerce tem gente que gosta de fazer, de navegar. Mas achar um provedor, um seguro, ou processos de pagamentos que envolvem uma automação, tudo isso vai ser feito por agentes de AI,” disse ele.

“Muitos sistemas vão ser automatizados e vão ter pagamentos, decisões e ações com risco alto sendo executados por agentes. E você vai precisar ter uma infraestrutura garantindo que não tenha nenhum erro.”