Em mais de 20 anos trabalhando com venture capital, não foram poucas as vezes em que me perguntaram por que alocar nessa classe de ativos em um país como o Brasil, onde a taxa básica de juros costuma estar entre as mais altas do mundo –  como hoje, com a Selic em 14%.

A resposta parte de uma distinção simples. Na composição de uma carteira, renda fixa e venture capital cumprem papéis diferentes. Enquanto o CDI remunera o capital pelo tempo, o VC oferece exposição a transformações capazes de multiplicar o valor das empresas ao longo de muitos anos.

O potencial de se investir em mudanças de longo prazo é gigante e não responde sempre aos mesmos incentivos do cenário macro. A história brasileira oferece bons exemplos disso. A expansão da agricultura no Centro-Oeste, a modernização dos bancos após o Plano Real, o ciclo das commodities com a China, o surgimento das fintechs e o crescimento do SaaS atravessaram crises políticas, juros altos e volatilidade cambial. A criação de riqueza aconteceu porque havia transformações em curso maiores do que o ciclo macroeconômico de cada momento.

A ascensão da inteligência artificial abre uma nova transformação dessa natureza. Mas, para o investidor, reconhecer que a AI será relevante é apenas o começo. O foco deve ser descobrir onde o mercado já precificou essa transformação – e onde ainda pode estar subestimando a criação de valor. É neste segundo ponto que deve se concentrar a energia de quem investe.

A exposição mais óbvia ao movimento está nos Estados Unidos. O país concentra os maiores laboratórios, os principais modelos, enorme volume de capital e uma densidade incomparável de talento técnico. Israel ocupa uma posição relevante em deep tech e cibersegurança, enquanto a China combina escala e velocidade de adoção.

O Brasil não compete nesse jogo e não precisa. Afinal, nossa oportunidade pode estar justamente em outro lugar: na aplicação da inteligência artificial a problemas que conhecemos melhor do que quase qualquer outro mercado.

É aí que vejo uma possibilidade relevante de geração de alfa, o retorno vindo de oportunidades que ainda não estão plenamente refletidas no consenso.

Hoje, pelo menos três transformações tornam o Brasil particularmente interessante nesse cenário.

A primeira é a emergência dos AI Native Services como categoria. Durante três décadas, o software foi construído principalmente para ajudar pessoas a trabalhar. A AI permite que surjam empresas construídas para executar parte desse trabalho. Isso muda bastante o tamanho do mercado que essas companhias podem disputar.

Soluções aplicadas a cobrança, contabilidade, compras, atendimento ou compliance podem permitir que um contador atenda mais empresas, que um analista cubra mais companhias ou que um escritório de advocacia revise mais contratos.

Mas o salto mais importante acontece quando essa produtividade deixa de ser apenas uma ferramenta entregue ao profissional e passa a fazer parte do próprio produto. A empresa deixa de vender somente uma licença de software e começa a vender trabalho executado ou resultado entregue.

Com isso, passa a competir não apenas pelo orçamento de tecnologia dos seus clientes, mas também por parcelas do orçamento historicamente destinado a serviços, consultorias e equipes operacionais. Em uma economia na qual aproximadamente 70% do PIB vem do setor de serviços, a dimensão dessa oportunidade é significativa. 

A segunda mudança é ainda mais particular ao Brasil: a possibilidade de transformar nossa complexidade estrutural em vantagem competitiva. Durante décadas, questões tributárias, regulatórias, financeiras e operacionais foram tratadas principalmente como um custo, o famoso Custo Brasil. Na era da AI, parte dessa complexidade pode se tornar matéria-prima para a criação de empresas. 

Quanto mais regras, exceções, documentos e obrigações existem em um processo, maior pode ser o valor de sistemas capazes de interpretá-los e executá-los com eficiência. Isso cria espaço para soluções desenvolvidas especificamente para problemas brasileiros e diminui a vantagem de produtos horizontais construídos para mercados muito mais simples.

É uma inversão interessante. Aquilo que durante décadas dificultou a operação das empresas no País pode também criar uma camada de problemas sofisticados o suficiente para gerar companhias locais valiosas.

O terceiro vetor é a convergência entre inteligência artificial, operações e serviços financeiros. O Brasil já mostrou, em diferentes gerações de empresas, que controlar um fluxo operacional pode abrir caminho para controlar também parte do fluxo transacional e financeiro associado a ele.

A AI tende a aprofundar essa dinâmica. À medida que um sistema deixa de apenas organizar informações e passa a executar tarefas, recomendar decisões e participar diretamente de processos de negócio, ele se aproxima do momento em que uma transação acontece.

E quem está presente nesse ponto pode também distribuir pagamentos, crédito, seguros ou outros produtos financeiros.

Esse movimento encontra no Brasil uma infraestrutura especialmente fértil. Pix, digitalização bancária e o arcabouço financeiro desenvolvido nas últimas décadas reduzem a distância entre executar uma operação e participar da transação financeira que nasce dela.

A oportunidade brasileira em AI, portanto, talvez não esteja onde primeiro se procura.

Não precisamos construir os maiores modelos do mundo nem competir pela fronteira da infraestrutura tecnológica. Podemos criar valor aplicando essa infraestrutura a uma economia de serviços enorme, a problemas locais particularmente complexos e a um sistema financeiro já preparado para incorporar novas camadas de tecnologia.

Para quem investe em VC, é justamente esse tipo de transformação que importa. O papel do VC em uma carteira não é reproduzir o retorno da renda fixa, mas oferecer exposição a empresas capazes de crescer de forma desproporcional quando uma mudança estrutural altera mercados inteiros. A inteligência artificial está criando uma dessas mudanças, e o Brasil reúne características que podem fazer dele um terreno especialmente interessante para sua aplicação.

Talvez não sejamos protagonistas na criação da inteligência, mas podemos estar entre os mercados que mais valor criam ao colocá-la para trabalhar.

Edson Rigonatti é cofundador e general partner da Astella, uma gestora de venture capital.