Bill Rasmussen não é um nome conhecido no Brasil — mas deveria ser.

Foi ele quem teve a ideia de transmitir esportes 24 horas por dia, todos os dias. Décadas depois, o USA Today o chamaria de “o pai da televisão esportiva”. 

Rasmussen, fundador da ESPN, morreu ontem aos 93 anos, deixando como legado o modelo de negócios que hoje sustenta qualquer canal, perfil ou transmissão que trata esporte como companhia constante, e não como evento pontual.

Se hoje existe uma potência como a CazéTV — cobrindo jogo, treino, bastidor e opinião sem parar — é porque essa lógica foi validada décadas atrás num mercado que ainda não acreditava nela.

A ideia nasceu de necessidade, não de estratégia. Em 1978, recém-demitido do departamento de comunicação de um time de hóquei americano, Rasmussen discutia com o filho Scott o que fazer com um horário de satélite que os dois tinham comprado.

Da conversa nasceu a pergunta que se tornaria negócio: por que não um canal só de esporte, ligado o tempo inteiro?

Ele resumiria a ideia, muitos anos depois, numa frase que parece óbvia hoje e que, na época, era insana:

“Sports don’t stop at 6 o’clock.”

Esportes não param às 6 da tarde.

O salto mais disruptivo de Rasmussen não foi só manter uma câmera ligada 24 horas. Foi entender que esporte podia funcionar como coteúndo constante.

O programa que abriu a emissora foi o SportsCenter, hoje uma das marcas mais consagradas do jornalismo esportivo mundial. Desde o primeiro dia, ia além da transmissão de jogos: trazia resultados, bastidores, análise e serviço todos os dias, houvesse ou não partida. Criou o hábito de acompanhar o esporte como se acompanha o noticiário. Jornalismo esportivo em escala industrial, décadas antes da multiplicação de rádios e emissoras all-sports, podcasts e canais do YouTube.

Rasmussen fez essa aposta sem dinheiro, sem crédito no mercado e sem plano B: tirou um adiantamento de US$ 9 mil no próprio cartão de crédito para garantir espaço num satélite. Convenceu a Anheuser-Busch, dona da Budweiser e hoje parte da AB InBev, a fechar um contrato de publicidade recorde para a época, apostando que um público de nicho, fiel, valia mais do que uma audiência de massa dispersa.

Em 2026, a ESPN está presente em mais de 60 países, em todos os continentes, e vale cerca de US$ 30 bilhões. Nasceu de um cartão de crédito estourado e de uma ideia que ninguém queria financiar.

Ele criou a categoria. Não foi ele quem lucrou com ela. Menos de um ano depois de colocar a ideia no ar, foi afastado da própria empresa pelo novo controlador.

Rasmussen deixou a função operacional na ESPN em outubro de 1980. Depois disso, atuou como consultor de detentores de direitos esportivos e de empresas de mídia, participou de outros empreendimentos ligados a esporte e comunicação, e passou a dar palestras contando a própria história, que também registrou em livro, no “Sports Junkies Rejoice: The Birth of ESPN”.

Anos depois, em entrevista à Forbes, resumiu como via a própria trajetória, sem qualquer amargura:

“Quanto mais você trabalha, mais sorte você tem. Esse tem sido meu mantra pra sempre.”

Chris Berman, âncora histórico da emissora que Rasmussen fundou, resumiu o temperamento dele numa frase que também serve de retrato:

“Ele não era do tipo que vê o copo meio cheio. O dele estava sempre cheio até transbordar de otimismo.”

Ele não inventou o rádio, não inventou a TV por assinatura, não inventou o streaming nem o YouTube. Mas inventou a lógica que sustenta rádios esportivas, canais de TV all-sports, plataformas de streaming e canais de criadores dedicados ao esporte, cada um na sua tecnologia, todos respondendo, à sua maneira, a uma pergunta que ele fez primeiro.