A prata chegou a subir 14% hoje – uma alta não vista em quase duas décadas – e o ouro alcançou um novo patamar histórico, superando pela primeira vez os US$ 5.000 por onça.
A valorização dos metais espelha o enfraquecimento global do dólar – um trade que vem sendo chamado de debasement, o ‘rebaixamento’ da moeda americana como reserva internacional de valor em meio ao cenário de incertezas extremas irradiadas pelas ações de Donald Trump.
A cotação da onça-troy da prata no mercado spot superou US$ 117. A alta intraday foi a maior desde 2008, na grande crise financeira internacional.
O ouro manteve sua trajetória de valorização, subindo 2,5%, com a onça atingindo US$ 5.111. (A onça-troy, a medida tradicional dos metais preciosos, equivale a 31,1 gramas.)
O ouro, que já havia registrado sua maior alta desde 1979 no ano passado, sobe 18% neste ano.

Nos últimos dias, a alta dos metais ganhou intensidade com o aprofundamento da desvalorização do iene. Os investidores internacionais estão liquidando títulos japoneses, uma reação ao aumento do risco fiscal causado pela determinação da primeira-ministra Sanae Takaichi de elevar os gastos públicos – a despeito de o país já ser um dos mais endividados do planeta.
A redução de posições em dólares e ienes vem elevando o preço de commodities e valorizando as ações dos mercados emergentes – entre eles o Brasil, onde a Bolsa vem batendo recordes nominais de valorização.
Para André Jakurski, o sócio-fundador da JGP e um dos mais respeitados analistas dos mercados internacionais no País, o que está havendo ainda não pode ser definido como uma fuga do dólar, mas sim uma redução do fluxo para ativos americanos.
“Houve uma diminuição de compra, não fuga. Há uma desconfiança muito emocional, porque o Trump está realmente passando dos limites,” Jakurski disse ao Brazil Journal.
Segundo Jakurski, essa “pequena” redução de exposição ao dólar explica as “pancadas” nas commodities e nas bolsas de emergentes.
Com relação à alta da prata, Jakurski disse que é um movimento difícil de ser compreendido – até mesmo por ele, com décadas de mercado. “Só vi algo parecido em 1980, com o córner dos irmãos Hunt,” disse Jakurski.
Abaixo, a entrevista:
O que explica essa alta forte no ouro e agora ainda mais na prata? É consequência da desvalorização global do dólar?
Os EUA geram déficit em conta corrente muito grande todo ano. Antigamente, as pessoas cada vez mais acumulavam posições em dólar.
Isso mudou? Estão fugindo do dólar?
Os investidores continuam acumulando ativos em dólares, mas numa proporção um pouco menor – não muito menor, mas um pouco menor, e essa diferença, dado o tamanho de alguns mercados, está exercendo um grande impacto.
Veja por exemplo os mercados emergentes. Desde o ano passado, bem depois do Liberation Day (2 de abril), estão dando uma porrada.
Por quê?
Porque são mercados pequenos, e quando entra um fluxo do tamanho que vem acontecendo, as moedas apreciam e as bolsas dão pancadas fortes.
Todo mundo está surpreso com a alta da Bolsa no Brasil. Mas se você pegar Chile, Colômbia, qualquer outro país emergente, México, está tudo no mesmo padrão, ou até mais. Tem alguns países com fundamentos piores do que os nossos, como a Colômbia, e as bolsas estão indo muito bem.
Então eu diria que basicamente foi um pequeno desvio. Em mercados onde não há uma capacidade enorme de absorção, os preços mudam para equilibrar oferta e demanda.
Não há, então, uma fuga do dólar?
Acho que houve uma diminuição de compra, não fuga. Há uma desconfiança muito emocional, porque o Trump está realmente passando dos limites.
Como ele cria uma insegurança enorme e é imprevisível, as pessoas ficam receosas e preferem diversificar. Tem toda essa especulação sobre o Federal Reserve, tarifas, ameaças de romper relações com países ocidentais, que são os que mais aplicam nos EUA.
Precisamos olhar também para o ponto de partida. O dólar estava bastante sobrevalorizado. No preço que está hoje, com toda essa desvalorização que aconteceu depois do Liberation Day, está ainda dentro da média vista entre 2015 e 2020.
Depois da covid, o dólar deu uma pancada muito forte para cima e agora está devolvendo. Se você me perguntar se eu acho o dólar barato, eu não acho não. Mas não houve uma fuga incontrolável do dólar.
O que aconteceu foi que os mercados das commodities não são tão grandes como o mercado de bolsa ou de renda fixa, e o fluxo que foi para eles realmente causou essa valorização inacreditável.
Quando eu digo que não estou entendendo muita coisa do mercado atual, penso na pancada que a prata e o ouro deram – também a platina, o cobre. São movimentos extremamente fortes, e não são usuais.
Só me lembro de uma pancada tão forte dos metais, nessa escala, em 1980, com os irmãos Hunter botando um córner no mercado de prata. Naquela época a prata bateu 50 dólares e uns quebrados.
Mas ali foi um córner que foi feito pelos irmãos Hunt – e teve participação até do Naji Nahas.
Essa valorização de agora me surpreendeu. [Horas depois da entrevista de Jakurski, a prata devolveu toda a alta no dia e encerrou o pregão no vermelho.]
O interessante na prata é que, normalmente, quando você tem uma pancada dessas, os especuladores estão extremamente comprados. Desta vez os especuladores estão bastante vendidos. Então está todo mundo perdendo dinheiro.
Por que foi diferente agora?
O movimento foi causado pela demanda real, e não pela demanda especulativa – apesar de os preços parecerem especulativos.
Existe uma demanda gigante para painéis solares, semicondutores, turbinas, uma porção de coisas. E a prata já vem há alguns anos, e prospectivamente nos próximos anos, com oferta abaixo da demanda.
Então tem uma razão fundamental, mas não que justifique uma alta de 100% em poucos meses.
No caso do ouro não existe escassez, mas existe uma demanda maior do que a oferta por razões de investimento. Não é por razões de necessidade industrial.
Então cada metal tem uma explicação diferente, mas de uma certa forma existe um sentimento de que agora é a vez dos mercados emergentes.
A Bolsa de Xangai e a de Hong Kong, que são mercados gêmeos, deram uma pancada gigante. Coreia do Sul e Taiwan deram uma pancada gigante por causa das ações de tecnologia.
E qual o efeito do que está ocorrendo no Japão?
O problema do Japão é que é um país que tem as variáveis macroeconômicas parecidas com o Brasil do passado – nem do Brasil do presente.
Porque você tem uma dívida gigante, juro extremamente negativo, uma inflação que já está acima de 2% há mais de dois anos e não deve cair abaixo disso tão cedo. Agora o juro longo está subindo por causa da desconfiança em relação ao banco central, que está sendo muito frouxo.
A parte longa da curva explodiu. Então aumentou o serviço da dívida do Japão, apesar de o BC deter mais de 50% de toda a dívida do Governo.
Então é um país que já tem um déficit fiscal e que vai piorar por causa da proposta da nova primeira-ministra. Ela vai fazer um corte de impostos sobre alimentos por dois anos que vai piorar o déficit de 1% do PIB.
Então tem gasto fiscal, dívida alta, juro longo explodindo e o juro curto muito abaixo da inflação. É o Brasil do passado. Hoje em dia você não pode nem dizer que é igual ao Brasil – porque o Brasil tem um juro extremamente alto.
Falando em Brasil: essa alta da Bolsa se sustenta, com o juro ainda tão elevado?
A bolsa está subindo aqui e o dólar está caindo por razões internacionais, não por razões domésticas. O que entrou de dinheiro de estrangeiros neste ano já é mais da metade do que todo o ano passado.
Então é aquela história: uma portinha do Maracanã estreita com todo mundo querendo entrar, então espreme. Acho que é isso, não tem uma explicação diferente. A eleição ainda não está no preço de nada.
Infelizmente o déficit fiscal e os números de insegurança fiscal que a economia brasileira traz estão provocando esse juro extremamente alto.











