Em meio a uma produção de gás natural em níveis recorde nos Estados Unidos e um consenso de que o mercado estará bem abastecido nos próximos anos, um gestor está chamando a atenção com uma projeção que ele mesmo admite: “soa como uma heresia.”

Com a AI impulsionando a geração de energia em usinas térmicas, as exportações de GNL crescendo e a oferta do energético se aproximando de um pico estrutural, os americanos poderiam enfrentar uma escassez de gás “sem precedentes” já a partir do segundo semestre de 2028, disse o fundador da Chronometer Partners, Matthew Smith.

A tese sombria – e contrarian – foi apresentada por ele em uma carta a investidores recente, e ganhou tração nesta semana após sua participação em um podcast viralizar no X. 

“O combustível que todo mundo acha que é abundante não é. Até 2029 e 2030, o gás natural estará em uma escassez assustadora em relação à demanda estrutural e incremental,” disse Smith, que administrou um fundo dedicado ao setor de energia na Surveyor Capital, da Citadel, antes de abrir suas próprias gestoras.

A conclusão veio após 15 meses modelando todo o ecossistema de gás natural dos EUA – de empresas a projetos em andamento e anunciados, passando pela demanda e pelas infraestruturas de midstream – que ele destaca como o gargalo, devido ao longo tempo necessário para a construção de novos gasodutos.

O ponto de inflexão que começaria a apertar o mercado daqui a dois anos seria a entrada em operação de terminais de GNL com contratos já assinados para exportações e de usinas termelétricas que se comprometeram a fornecer sua energia a data centers.

Por esses cálculos, em 2030 haveria um déficit de 141,5 milhões de metros cúbicos por dia em gás – “e isso antes mesmo do impacto pleno da demanda da AI.” 

Na carta em que expôs sua teoria, Smith disse acreditar que somente grandes usinas nucleares poderiam evitar a falta de energia nos EUA e a disparada das tarifas elétricas diante desse cenário.

Para ele, os pequenos reatores nucleares, SMRs, que têm se tornado uma aposta de muitos especialistas como próxima tecnologia para atender ao aumento no uso de eletricidade, ajudariam, mas seriam apenas um band-aid

“Acreditamos que um renascimento nuclear está chegando. Urânio, conversão, enriquecimento e a Westinghouse saem ganhando. A Cameco e a Brookfield são donas da Westinghouse,” escreveu o gestor, ao recomendar ações que podem se valorizar caso sua visão catastrófica se confirme.

Em outra tese contrarian, ele vê ações de energia solar – que apanharam no mercado americano “de maneira similar às empresas de energia fóssil em 2019 e 2020” – como outra classe vencedora, conforme o uso de baterias se torne viável mesmo sem subsídios, inclusive devido aos preços maiores do gás. 

De outro lado, quem sofreria as piores consequências seriam os consumidores de energia: tanto os residenciais quanto os data centers hyperscale

Embora controversas, as projeções são mais um exemplo de como o acesso à energia tem se tornado cada vez mais uma grande preocupação para o setor de AI nos EUA.

No podcast que deu fama à sua tese, o gestor da Chronometer Partners disse que geralmente os projetos de data centers consideram 10% do orçamento como custo com energia elétrica. 

 “Todos estão tomando decisões neste momento considerando um preço do gás flat,” disse Smith. “ É muito atrativo como um combustível de baixo custo para os hyperscalers” – desde que ele esteja errado, é claro.