RIO DE JANEIRO – Na Estação de Tratamento de Esgoto da Barra da Tijuca, fotos espalhadas pelas instalações mostram o ‘antes e depois’ da unidade que até 2022 pertencia à estatal fluminense Cedae. 

Quando a Iguá Saneamento assumiu as operações, após vencer o leilão do Bloco 2 da Cedae no ano anterior, encontrou diversas estruturas deterioradas. A chamada chaminé de equilíbrio precisou ser totalmente demolida: apresentava risco estrutural. Não havia geradores para manter as atividades em caso de blecautes. Sequer existia um centro de controle operacional informatizado. 

Isso sem contar o estado do complexo de lagoas na região da Barra e Jacarepaguá, poluído por décadas de lançamento de esgoto e lixo – incluindo sacolas, sofás, geladeiras. 

Fora a sujeira, o acúmulo de resíduos e escavações feitas por ali para retirada de areia no passado haviam deixado áreas inteiras dos lagos com falta de oxigênio, prejudicando a vida aquática.

“Nós costumamos dizer que o saneamento é uma revolução, mas na verdade é uma transformação silenciosa,” Flávio Vaz, o diretor-geral da Iguá Rio, disse ao Brazil Journal, notando que a empresa já investiu R$ 1,1 bilhão de 2022 para cá.

O capex realizado é mais da metade dos R$ 2 bilhões programados para até 2033, prazo para universalização dos serviços, e compara-se a um total de R$ 2,7 bilhões previsto para os 35 anos de concessão.

“Parte dos investimentos são estruturantes, que nós colocamos no primeiro ano de operação para revitalização dos ativos que recebemos. Antes de expandir, focamos em estabilizar as estruturas, que falhavam toda hora,” disse o diretor de Operações, Lucas Arrosti.

A Iguá colocou R$ 172 milhões na reforma e ampliação em 50% da capacidade da ETE Barra, que incluiu a implantação de um centro de controle 24×7. Outros R$ 90 milhões foram para recuperar e modernizar 99 estações elevatórias de água tratada e esgoto bruto. 

Já a revitalização do complexo de lagoas, que passa pela dragagem de áreas assoreadas, implantação de barreiras para impedir a chegada de resíduos e plantação de manguezais, recebeu R$ 147 milhões até agora, de um orçamento previsto de R$ 250 milhões.

E, embora as mudanças sejam “silenciosas”, os resultados começam a ser visíveis, com biólogos contratados pela companhia registrando um aumento nas espécies de peixes e aves nas lagoas, por exemplo.

Também chama a atenção a volta dos jacarés (que deram nome ao bairro de Jacarepaguá, na mesma região).

“A ictiofauna era de nove espécies de peixes em 2024, e chegamos a 29 no ano passado. Em jacarés, vemos 30% de aumento do número de filhotes, 60% de jovens em crescimento e 10% no número de adultos. Então o ecossistema está se regenerando. Quando você tem uma melhor qualidade da água, um mangue, isso atrai,” disse Arrosti.

Do lado financeiro, a Iguá Rio está com todo funding já garantido, após ter levantado R$ 6,5 bilhões com debêntures e R$ 1 bilhão do Programa Saneamento Para Todos. Os valores se somaram a um aporte de R$ 2 bilhões dos acionistas – os canadenses CPPIB e AIMCo e a BNDESPar.

“E essa dívida é para a partir de 2031, então temos um conforto aí de cinco anos para fazer os investimentos, gerar caixa e ir liquidando conforme vencer,” disse o diretor-geral. 

Além do capex e opex, as obrigações financeiras da companhia incluíram o pagamento de R$ 7,28 bilhões em bônus de outorga do leilão da Cedae. 

Entre janeiro e junho, a Iguá Rio reportou um EBITDA de R$ 438 milhões, com aumento de 19% frente ao mesmo período do ano anterior, e uma margem de 56,7% no período, um avanço de 4,8 pontos na comparação anual. 

“Operacionalmente estamos conseguindo capturar cada vez mais valor. Os investimentos estão fazendo sentido para a companhia,” disse Vaz.

O leilão da Cedae, dividido em quatro blocos, veio pouco após a aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento em 2020, marcando um importante teste para a atratividade dos investimentos privados no setor.

Na época, a licitação levantou R$ 22,7 bilhões em outorgas.