Há duas semanas, sentado numa mesa de jantar em São Paulo, ouvi uma frase que já escutei umas cem vezes, em diferentes versões: “eu desisti da política brasileira.”
Quem disse isso não é uma pessoa desinformada nem alienada. É alguém que dirige uma empresa com milhares de funcionários, que paga impostos altos e tem netos que vão crescer neste País.
E, ainda assim, diz ter desistido.
O editorial do Brazil Journal no início de agosto deu nome a este sentimento: “ninguém cuida do circo”. Como bem diz o texto, a elite econômica brasileira abandonou a praça pública. Foi para o exterior, foi para o WhatsApp, foi para a reclamação recorrente em encontros sociais e familiares.
E o resultado disso está nas urnas, em candidaturas cada vez mais distantes de qualquer capacidade e uma desconexão enorme entre a política e a sociedade.
O diagnóstico está certo, mas ele descreve um sintoma, não a causa raiz. A causa é mais dura de engolir: o sistema político brasileiro não foi apenas abandonado pela sociedade civil. Ele foi desenhado, nos últimos anos, para tornar esse abandono confortável.
Dos 513 deputados federais em exercício, 438 vão tentar a reeleição, mais de 85% deles, um recorde desde a redemocratização. Com o financiamento público de campanha e as emendas parlamentares hoje praticamente garantidas a quem já ocupa uma cadeira, um mandato medíocre deixou de ter custo político.
Antes, quem estava no poder precisava buscar apoio. Hoje, o recurso já está dado. Diante disso, a pergunta que nenhum editorial resolveria sozinho é: “quem vai construir uma alternativa dentro de um sistema desenhado para não precisar de uma?”
Criamos o RenovaBR em 2018 apostando numa resposta simples e, para muitos, ingênua: formar políticos preparados, éticos e orgulhosos de servir, um por um, eleição após eleição.
Não fizemos isso porque tínhamos certeza de que funcionaria. Fizemos porque a alternativa de continuar reclamando do circo sem entrar nele já tinha se mostrado uma estratégia de fracasso garantido.
Hoje, depois de oito anos, mais de 3.600 lideranças passaram pelos nossos programas de formação e 386 foram eleitas entre Senado, Câmara, assembleias estaduais, prefeituras e câmaras de vereadores.
Há ainda 22 secretários estaduais e 70 municipais, ocupando cargos de gestão sem terem passado pelas urnas. Nenhum deles chegou lá porque nós os escolhemos, mas porque decidiram se candidatar, porque se mostraram dignos, porque os eleitores os escolheram nas urnas, porque uma rede de apoiadores decidiu financiar suas campanhas de forma transparente e porque uma sociedade civil que também poderia ter desistido decidiu não desistir.
De fato, é mais fácil comentar sobre o estado da política do que participar dela. É mais fácil reclamar no grupo e se sentir em paz do que se engajar recorrentemente. É mais fácil culpar a “classe” de políticos, como se fossem apartados de nós, do que reconhecer que a política brasileira reflete exatamente o grau de envolvimento que a sociedade decide ter com ela, e o quanto ela está disposta a remar contra um sistema que não quer ser mudado.
O ciclo eleitoral de 2026 já começou. Vamos escolher todas as cadeiras da Câmara e renovar um terço do Senado. É uma missão coletiva de relevância enorme: um Congresso mais preparado destrava pautas que travam o país há anos, da reforma tributária à fiscalização séria do Executivo, passando por uma agenda econômica capaz de reduzir o custo de capital e gerar o desenvolvimento e a retomada econômica que não vemos há tempos.
Não escrevo isso como um convite a uma posição partidária. O RenovaBR nunca apoiou partido ou ideologia específica. Apoiamos, por meio de suporte educacional e da criação de uma rede de apoio, pessoas com histórico de integridade e capacidade de gestão, de todos os espectros.
O convite que faço é outro: para quem leu o editorial do Brazil Journal e ficou em silêncio, transforme essa sensação em alguma forma concreta de envolvimento. Apoie financeiramente uma candidatura que você já respeita, ofereça duas horas do seu tempo para mentorear alguém que está pensando em entrar na vida pública, ou abra sua casa para gente boa e convide seus parentes e amigos.
O circo não vai encontrar quem cuide dele por acaso. Alguém vai ter que decidir cuidar, e essa decisão não pode ficar apenas com quem já está cansado de tentar sozinho. É por isso que o convite não é individual, é coletivo.
Precisamos de mais gente e entidades dispostas a apoiar a formação política de lideranças, assim como apoiam outras causas. De mais famílias dispostas a destinar parte do que já doam a instituições que formam quem vai, de fato, ocupar essas cadeiras.
A sociedade civil sabe se mobilizar: fez isso em tragédias, em causas ambientais e em crises de saúde pública. A pergunta é se ela está disposta a se mobilizar também pela própria política, antes que a próxima eleição chegue e reste apenas lamentar o resultado.
A pergunta que cada um de nós precisa fazer a si mesmo não é se o diagnóstico do editorial está certo. É qual vai fazer a nossa parte na construção de uma resposta.
Eduardo Mufarej é fundador do RenovaBR.
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EDITORIAL. Ninguém cuida do circo











