O Grupo Moura se aliou à chinesa CATL para produzir sistemas de armazenamento de energia em seu complexo fabril de Belo Jardim, Pernambuco, onde a empresa hoje fabrica baterias para veículos.
A parceria entre a líder em baterias automotivas da América do Sul com a maior do mundo em sistemas de armazenamento acontece para atender a demanda que será gerada pelo inédito leilão para projetos de baterias elétricas agendado pelo Governo para dezembro.
A licitação será realizada em duas etapas, com a primeira, em 2 de dezembro, voltada apenas para projetos com conteúdo local, e uma segunda em 4 de dezembro aberta a fornecedores internacionais.
O número de cadastrados à disputa marcou um recorde absoluto no setor elétrico – são mais de 6 mil projetos totalizando 296 gigawatts em capacidade, o suficiente para armazenar por algumas horas toda a geração de energia do País, cuja matriz elétrica soma 220 GW em potência instalada.
O Ministério de Minas e Energia sinalizou em ocasiões anteriores que pretende contratar cerca de 2 GW nesse primeiro certame, mas o mercado passou a especular volumes bem maiores nas últimas semanas.
“À medida que se aproxima o leilão esse número tem subido,” Spartacus Pedrosa, o diretor de operações de lítio do Grupo Moura, disse ao Brazil Journal. “Estávamos ouvindo muito 2 GW como sendo um patamar conservador para a contratação, e agora já escutamos que 4 GW seria o mais conservador.”
A Moura e a CATL vão usar capacidade ociosa da planta de Belo Jardim e estão discutindo o capex que será necessário para atender os vencedores no leilão.
A ambição é grande.
“Queremos ter uma participação extremamente relevante. Independente do tamanho que o leilão vai ter, estaremos com a fábrica para abocanhar uma fatia bastante relevante,” disse o executivo.
Além de Moura e CATL, a rodada do leilão para projetos com conteúdo local impulsionou um acordo de cooperação entre a chinesa Jinko e a brasileira UCB Power e atraiu investimentos da WEG em uma fábrica de baterias em Itajaí. Também é esperada a participação da BYD, segundo fontes.
Pedrosa, da Moura, disse que a expectativa no mercado hoje é de que “a indústria nacional será capaz de absorver a maioria, se não toda a demanda do leilão.”
O Grupo Moura começou a desenvolver sistemas de baterias elétricas, conhecidos como BESS, há uma década, e fez seus primeiros lançamentos em 2019.
A companhia já possui linhas de baterias voltadas para clientes industriais, comerciais e condomínios, nas quais também teve a CATL como parceira, e o leilão do Governo para sistemas de armazenamento no setor elétrico é visto como “o empurrãozinho que falta” para a indústria engrenar no País.
“A expectativa é que no futuro isso seja equiparável ao setor automotivo, que é o core business da companhia,” disse Pedrosa, ao citar as perspectivas de crescimento do negócio no longo prazo.
O leilão de armazenamento foi idealizado pelo Governo devido à acelerada expansão das usinas solares e eólicas no País, que criou uma conjuntura de excesso de geração de energia durante o dia – ao mesmo tempo em que é necessário acionar termelétricas caras à noite ou quando não há vento.
Esse excedente tem levado ao corte forçado na operação de eólicas e solares, o chamado curtailment, e a expectativa é que as baterias ajudem a equilibrar o sistema e reduzir esses cortes, que afastaram investimentos em renováveis nos últimos anos.
Empresas como AXIA Energia, Engie e ISA Energia já manifestaram interesse em disputar o leilão de baterias, e a visão do mercado é de que o Governo deve continuar realizando licitações anuais para diminuir o problema do curtailment e ajudar no atendimento do pico de carga noturno.
Num horizonte mais longo, também há expectativa de que pequenos sistemas solares instalados em casas ou miniusinas para atender empresas passem a ter suas próprias baterias em algum momento, abrindo outro mercado importante para os fabricantes.











