Inveja é um sentimento que pode ter dois efeitos. Pode imobilizar – com o ressentimento funcionando como âncora. Ou pode ser o estímulo para romper a inércia, enfrentar a complacência e olhar os desafios de frente.
A torcida furiosa aqui no Brasil contra a Argentina na Copa aparece como efeito da rivalidade, mas é preciso buscar as razões últimas desta.
No momento, o anti-argentinismo alicerça-se numa inveja profunda. Não há brasileiro que não gostaria que estivéssemos na situação deles. E o desejo desesperado de que os companheiros do Messi fracassem não passa de lenitivo para nossa dor ao contrastar as conquistas deles no futebol com nosso declínio.
Na vida, nos negócios e no gramado, a obsessão por ser “anti” é sempre o pior caminho. Só torcer para que o concorrente se dê mal, depreciá-lo, costuma ter como efeito você perder a iniciativa e o protagonismo na construção do próprio caminho. Melhor parabenizar quem tem sucesso e buscar olhar onde erramos, para corrigir.
Na final de hoje, se a Argentina completar vitoriosamente este que já é seu maior ciclo futebolístico, haverá muito a dizer sobre Messi, Scaloni e companhia. Mas agora talvez seja o caso de olhar um pouco para a Espanha, que está fazendo uma Copa equilibrada e anulou a antes favoritíssima esquadra francesa.
Cinco anos atrás, o Brasil conquistou seu segundo ouro olímpico no futebol derrotando exatamente a Espanha. O que resultou daqueles times é um retrato do contraste.
O técnico espanhol, Luis de la Fuente, é o mesmo que agora dirige a seleção principal, e oito jogadores daquela seleção estão jogando esta Copa. Do Brasil que derrotou a Espanha por 2 a 1 na final olímpica, o treinador André Jardine fez sucesso no México e está na Arábia Saudita. E só três jogadores de então jogam agora na seleção principal.
Claro que é um detalhe, mas serve como parâmetro para reflexão sobre o quanto nossa cultura de improvisos, imediatismos e impaciências tem a ver com nossas derrotas. E é preciso apontar a responsabilidade também da nossa imprensa, sempre em busca da solução mágica e disposta a sacrificar a racionalidade no altar das mistificações.
O último coelho a sair da cartola foi trazer um treinador renomado do exterior, de currículo impecável em clubes de primeira linha. Mas esta final da Copa do Mundo dos Estados Unidos, a mais competitiva de todos os tempos, será disputada por dois treinadores que vieram das seleções de base de seus países para a principal.
Talvez seja hora – ou tenha passado da hora – de cair na real. O Brasil não é mais o país do futebol. Foi. O Brasil não é penta. Foi. Quanto mais cedo reconhecermos nossa situação atual, mais cedo começaremos a reconstruir nossa trajetória campeã.
Nosso futebol hoje se alinha na segunda ou terceira fileira do grid global. Não é vergonha reconhecer. Vergonha será adiar as medidas necessárias para voltarmos à elite.
Proponho, desta vez, fazermos a inveja trabalhar a nosso favor.
Francisco Soares Brandão é o fundador da FSB Comunicação.











