Todo mundo sente na pele – mas é difícil dimensionar o problema da violência no Brasil.
O País sequer possui uma estatística nacional padronizada que mostre quantos crimes são solucionados.
Nos homicídios, onde há dados mais confiáveis, o retrato é preocupante: menos de quatro em cada dez casos chegam a uma denúncia do Ministério Público até o fim do ano seguinte.
Nos delitos de menor gravidade, o percentual de resoluções é ainda menor. Em outras palavras: no Brasil, o crime compensa.
Foi olhando para este buraco que David Peixoto, o fundador da edtech Isaac, criou a Pax, uma startup que usa AI para ajudar a polícia a investigar crimes.
Após vender a Isaac para a Arco Educação em 2022, David passou a estudar segurança pública. Sua dúvida: por que o Brasil tem tanta dificuldade em solucionar crimes?

“Foi uma volta às origens para mim, já que minha mãe foi agente penitenciária e o meu irmão é policial,” David disse ao Brazil Journal.
Foi nesse processo que David chegou ao então governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Em vez de simplesmente apresentar uma ideia ao hoje presidenciável, o empreendedor pediu para conhecer o problema por dentro.
Caiado o despachou para Luziânia, uma das cidades mais violentas de Goiás, onde David e sua equipe começaram a acompanhar o trabalho dos policiais.
Lá, perceberam que a polícia tinha uma quantidade enorme de informações – desde câmeras, placas de veículos, horários, boletins de ocorrência e outras bases de dados – mas zero capacidade de cruzar aquilo tudo rapidamente.
Foi daí que surgiu a ideia da Pax: usar AI para fazer as câmeras e os dados que já existem “conversarem” entre si.
A plataforma transforma imagens e outras informações em dados pesquisáveis, cruzando pessoas, veículos, horários e trajetórias para encontrar relações que poderiam consumir horas ou dias de um investigador.
De um lado, modelos de visão computacional conseguem transformar o que aparece nas câmeras em informações pesquisáveis – identificando não apenas placas e rostos, mas características de pessoas e veículos (um adesivo específico, por exemplo).
Do outro, a plataforma cruza essas informações com diferentes bases de dados da polícia e tenta encontrar relações entre pessoas, veículos, lugares e eventos. Para fazer isso, a Pax combina LLMs comerciais e open source com modelos próprios, desenvolvidos principalmente para tarefas que exigem maior precisão.
Na prática, um policial pode fazer perguntas à plataforma em linguagem natural, o que, segundo David, fez os próprios investigadores batizarem a empresa de “o ChatGPT da polícia.”
Um furto recente a uma joalheria em Goiânia ajuda a entender o funcionamento do sistema.
Os criminosos entraram num shopping, permaneceram escondidos depois do fechamento, e acessaram a loja pelos dutos de ar-condicionado.
Na fuga, trocaram de roupa duas vezes e usaram mais de um veículo – justamente para dificultar o rastreamento pelas câmeras.
Usando características físicas dos suspeitos e dos veículos (a polícia sabia que os criminosos tinham fugido com uma caminhonete branca, por exemplo), a Pax ajudou a reconstruir cerca de dois quilômetros da fuga.
Três suspeitos foram presos no mesmo dia, e as joias foram recuperadas.
A tese chamou a atenção de dois dos fundos mais conhecidos do Vale do Silício.
Há pouco mais de um ano, quando a Pax ainda era só David e outras três pessoas, o Benchmark e o Greenoaks colocaram US$ 40 milhões na companhia – a maior rodada seed já levantada por uma startup brasileira.
A Pax também atraiu como investidores-anjo fundadores e cofundadores de empresas como a Coinbase, Instacart, Plaid e Airwallex, além de Edward Wible, o cofundador do Nubank.
A tese: a Pax pode transformar um problema particularmente latino-americano numa empresa global de tecnologia.
“A segurança pública é um dos maiores mercados do mundo e um dos menos transformados pela tecnologia – e a América Latina é onde esse problema é mais urgente,” William Hockey, um dos investidores-anjo e cofundador da Plaid e fundador e CEO da Column, disse ao Brazil Journal.
Agora, a Pax começa a ganhar escala.
A empresa começou o ano operando em 10 cidades e agora já está em mais de 200, principalmente em Goiás e no Paraná. Há ainda pilotos no Ceará, Mato Grosso do Sul e outros dois estados.
O time passou de quatro para cerca de 70, sendo quase 50 engenheiros. Segundo David, a equipe acumula quase 200 medalhas em Olimpíadas de matemática, física e informática; 20% passaram por universidades como Harvard, MIT, Stanford e Oxford, e outros 20% vieram do ITA.
A Pax também começa a reunir dados para tentar provar que a tecnologia funciona: contratou a consultoria LCA para comparar as cidades que utilizam os sistemas da Pax com o Smart Sampa, o maior sistema de câmeras inteligentes do País.
No Paraná, o “Olho Vivo” (que usa a Pax) apresentou eficiência por câmera 21 vezes maior na captura de foragidos e 108 vezes na recuperação de veículos. Em Goiás, o “IA Contra o Crime” chegou a 38x e 435x, respectivamente.
A comparação, no entanto, exige cautela – afinal são programas que operam em cidades, forças policiais e realidades criminais diferentes.
Mas, para David, esses números mostram que o próximo salto da segurança pública talvez não venha de instalar mais câmeras inteligentes, e sim de conseguir entender tudo que elas já estão vendo.
“Nós também podemos fazer a instalação das câmeras, mas o nosso sistema consegue rodar em qualquer lugar,” disse David.
A Pax não abre seu faturamento. David diz que os US$ 40 milhões ainda bancam “alguns bons anos” de operação e que não há necessidade de uma nova rodada no curto prazo.
A meta agora é estar em todos os estados brasileiros até o fim de 2027. Depois, levar a tecnologia para outros países.











