É o fim de uma era na CSN.
Benjamin Steinbruch vai deixar a cadeira de CEO após duas décadas. Fábio Schvartsman, o ex-comandante de Vale e Klabin, assume o cargo a partir de amanhã.
Mas Benjamin não vai ficar longe: ele reassume a presidência do conselho, cargo que ocupou por 28 anos, entre 1995 e 2023.
“Era o momento de trocar de posição. Foi um ciclo de realização de muita coisa e agora a gente se propôs a fazer uma mudança na companhia, priorizando a desalavancagem, uma melhor estrutura de capital e os ativos que têm maior margem,” Benjamin disse ao Brazil Journal.
Já a escolha de Schvartsman começou a ser discutida internamente há cerca de quatro meses, segundo o empresário.
“É uma pessoa boa, honesta, correta, dedicada e inteligente. Tem todas as qualificações para o cargo,” disse o agora chairman. “Eu gosto muito dele e por isso o convidei.”

Engenheiro de produção formado pela USP, Schvartsman teve passagens longas por empresas como Ultrapar e Klabin, onde foi CEO por seis anos. Em 2017, deixou a fabricante de papel e celulose para assumir como CEO da Vale.
Schvartsman comandava a mineradora quando ocorreu o rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019. Pouco mais de um mês depois, pediu afastamento do cargo e desde então não assumiu nenhum cargo executivo. Hoje está no conselho da Vibra Energia.
A troca acontece justamente no momento em que a redução da dívida se tornou o ponto central da tese de investimento da CSN – e de grande preocupação do mercado.
O novo CEO chega à uma companhia com dívida próxima de R$ 42 bilhões. No segundo tri, a alavancagem da CSN chegou a cerca de 3,5x EBITDA, e os analistas vêm apontando a venda de ativos como o principal gatilho para uma mudança na percepção negativa sobre a empresa.
Segundo Benjamin, o plano de desalavancagem da companhia não muda com sua saída.
“A estratégia é igual. É fazer o que a gente vem fazendo: tanto do ponto de vista da desalavancagem quanto dos negócios de maior margem. Tudo para melhorar o resultado operacional da companhia,” disse.
Em meio a este plano, um negócio iminente seria a venda da CSN Cimentos. Uma fonte a par das negociações disse ao Brazil Journal que a chinesa Huaxin e o consórcio Votorantim/Cementir estão no páreo e que o negócio deve girar em torno de R$ 12 bilhões.
Segundo a fonte, esse montante avaliaria a empresa em cerca de 7x EV/EBITDA. Para efeito de comparação, a CSN (a holding controladora) negocia hoje abaixo de 4x o EBITDA projetado para 2026.
Benjamin não confirma as informações e negou que a venda esteja prestes a ser anunciada – ou que algum dos interessados já tenha recebido exclusividade.
Segundo ele, a companhia já recebeu as propostas e agora está fazendo ajustes antes de uma etapa que deve envolver cerca de 45 dias de discussão das condições contratuais e do preço.
“A venda está seguindo o cronograma definido pela companhia no começo do ano,” disse Benjamin.
Trata-se de um cenário pouco comum para Benjamin, mais acostumado a pensar em crescimento – mesmo que isso significasse desagradar o mercado.
O agora chairman chegou à CSN junto com a privatização.
O Grupo Vicunha, de sua família, participou do leilão da antiga estatal em 1993 e, dois anos depois, tornou-se o maior acionista individual da companhia ao comprar parte da fatia do Bamerindus. Em 2000, a Vicunha aumentou sua participação de 14,1% para 46,5% e se tornou a controladora da CSN.
Foi também em 1995 que Benjamin assumiu a presidência do conselho. Em 2002, tornou-se CEO e, nas décadas seguintes, transformou a siderúrgica num grupo com operações de mineração, logística, cimento e energia.
A dimensão da transformação aparece na diversificação.
Em 2002, a CSN ainda era essencialmente uma siderúrgica que vendia cerca de 5 milhões de toneladas de aço. Hoje, o grupo atua em cinco grandes negócios – siderurgia, mineração, cimento, logística e energia – e faturou R$ 44,8 bilhões no ano passado.
A CSN cresceu (muito), mas Benjamin sempre foi visto pelo mercado como um controlador centralizador, de convicções fortes e pouco afeito a ceder às pressões do mercado – inclusive gostando da briga.
Durante décadas, bancou uma estratégia agressiva de crescimento e aquisições, muitas vezes financiada por dívida, mesmo quando investidores cobravam desalavancagem e venda de ativos.
Talvez o melhor exemplo desse estilo seja o caso da Usiminas.
A CSN chegou a acumular cerca de 16% da concorrente numa tentativa de tomar seu controle no começo da década passada, mas viu a Ternium entrar no bloco de controle em 2011. Benjamin levou a disputa adiante por mais de uma década e, depois de uma série de derrotas, conseguiu uma reviravolta no STJ em 2024.
Aquela decisão obrigou a Ternium e seus parceiros a indenizar a CSN pela operação, por entender que a entrada no controle da Usiminas deveria ter dado aos minoritários o direito de vender suas ações nas mesmas condições previstas pelo tag along. A Ternium ainda recorre da decisão.

Mas aquele não era o capítulo final.
A CSN resistiu por 11 anos a uma ordem do CADE para reduzir sua participação na Usiminas para menos de 5% do capital. A companhia só chegou a 4,99% em 2025 e, neste ano, a Justiça Federal a condenou a pagar uma multa de R$ 39 milhões pelo atraso no cumprimento da ordem. A decisão, tomada pelo TRF-6, não cabe mais recurso.
Mesmo com a saída da operação, Benjamin não pretende se afastar das decisões da CSN.
Ele disse que continuará trabalhando ativamente como presidente do conselho e ajudando na estratégia, enquanto Schvartsman ficará responsável pela operação.
Sua família também continuará presente na companhia.
Victoria Steinbruch trabalha com energia e gás e assessora o pai; Felipe atua como diretor de inovação na CSN; e Alessandra toca as áreas de ESG e marketing. Benjamin disse ainda que tenta convencer Mendel, seu filho mais novo, a entrar na companhia.
A mudança deve abrir espaço para algo raro na vida de um empresário: aproveitar a família.
“Ganhei netinhos e quero ter chance de me dedicar a eles, porque nessa vida de trabalho intenso talvez eu tenha pecado um pouco com a família,” disse.
“Eu gostaria também de ter tempo para o agronegócio, que é algo que eu gosto muito, e tempo para viajar sem ser a trabalho. São sonhos que a gente ainda pode realizar.”











