Nos Estados Unidos, um paciente que precisa de Mounjaro abre o aplicativo da Amazon, fala com um médico e recebe o remédio em casa em dois dias.

No Brasil, o Mercado Livre tentou criar uma farmácia online — e as grandes redes de farmácia foram ao governo para barrá-lo.

Essa diferença explica muita coisa sobre por que somos um país pobre.

A história americana começa em 2020. A Amazon enxergou um mercado absurdamente ineficiente — o de medicamentos — e decidiu atacá-lo do jeito que sabe: eliminando a fricção.

O primeiro movimento foi a Amazon Pharmacy. Funciona como qualquer e-commerce: você entra no site, compra o remédio e recebe em casa. A diferença é que ela aceita receita médica digital e entrega no mesmo dia para quem tem Prime. Sem balcão, sem fila.

Mas havia um problema: a receita ainda precisava vir de algum lugar. Em 2023, a Amazon fechou o ciclo. Pagou US$ 3,9 bilhões pela One Medical — uma rede de clínicas que cobra US$ 9 por mês, com médicos de verdade, sem espera, pelo celular ou presencialmente. O médico prescreve e a receita vai automaticamente para a farmácia.

Consulta. Receita. Remédio em casa. Tudo no mesmo dia.

A Amazon não inventou o médico, a farmácia, nem o remédio. Ela apenas juntou as peças que já existiam e tirou a burocracia do meio.

No Brasil, o Mercado Livre quis fazer algo muito mais simples.

Não queria ser médico nem clínica. Queria apenas criar um site onde várias farmácias vendem ao mesmo tempo e o consumidor compara preços.

Para começar, comprou uma farmácia pequena no Jabaquara, na zona sul de São Paulo — a Cuidamos Farma. Uma loja de bairro, quase sem movimento, para entender como o setor funciona por dentro.

Foi aí que Raia Drogasil, Pague Menos e outras foram ao CADE com um dossiê pedindo para barrar a operação. O argumento: segurança do consumidor.

Este argumento não se sustenta. México, Chile, Argentina e Colômbia já fazem isso há anos. Nenhuma crise. Nenhum problema.

O argumento real é mais simples. Hoje, quando você vai ao balcão, não compara preço. Paga o que mandam. Num marketplace com dez farmácias na mesma tela, você vê tudo em segundos — e a farmácia que cobra mais caro perde o cliente.

Os economistas chamam isso de Efeito Amazon. Alberto Cavallo, um professor de Harvard, documentou o fenômeno em Amazon Effects: Online Competition and Pricing Behaviors: quando a Amazon entra num mercado, os concorrentes são forçados a ajustar preços com muito mais frequência.

A transparência online impõe uma disciplina que o balcão físico nunca impôs — o mesmo princípio que derrubou o preço da passagem aérea quando o Decolar colocou todas as companhias numa mesma tela.

As grandes redes de farmácia sabem disso. Um marketplace ameaça a margem de quem lucrou décadas com a desinformação do consumidor. Por isso o dossiê. Por isso o CADE. Por isso a regulação.

O que aconteceu nos Estados Unidos tem nome: inovação. Uma empresa enxergou um processo ineficiente, juntou as peças certas e entregou algo melhor ao consumidor. É assim que países ficam ricos.

O que aconteceu no Brasil também tem nome: rent-seeking. Uma empresa enxergou um concorrente mais eficiente e foi ao governo pedir para barrá-lo. É assim que países ficam pobres.

O custo do rent-seeking não aparece no balanço de ninguém. Aparece no bolso de quem compra remédio todo mês. Aparece na fila de quem espera consulta. Aparece naquela frase crônica: “nos Estados Unidos é mais barato…”

Todo país tem empresas que preferem não ter concorrência. A diferença está no que acontece quando o concorrente aparece. Nos Estados Unidos, as empresas estabelecidas correm para inovar. No Brasil, correm para o gabinete.

O Mercado Livre ainda espera a Anvisa liberar as regras. A farmácia do Jabaquara continua semi-fechada.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a Amazon construiu do zero um dos sistemas de saúde digital mais avançados do mundo — conectando médico, receita e entrega num único fluxo, sem burocracia, sem balcão, sem fila.

E quem paga a conta, no final, é sempre o mesmo: o consumidor que foi ao balcão, não perguntou o preço, e levou o que mandaram.

 

Leonardo Siqueira é deputado estadual pelo Partido Novo em São Paulo.