A diretora de televisão Amora Mautner acredita que, com a ascensão da AI, o valor humano estará cada vez menos na execução – e mais na abstração, na curadoria e na originalidade. 

“O repertório, junto com a tua unicidade, é algo seu,” Amora disse a Nilton Bonder neste episódio de The Business of Life. Um dos nomes mais marcantes da teledramaturgia brasileira.

Filha do cantor, compositor e escritor Jorge Mautner, Amora cresceu no Leblon e se define como uma “filha do tropicalismo”. Antes de saber que seria diretora, Amora já dirigia em casa. Mudava os móveis de lugar, criava cenários e lia quadrinhos compulsivamente. “Quadrinho é storyboard. Tudo que eu faço é quadrinho, só que com emoção,” disse.

Seus pais eram amigos dos principais nomes da cena musical da época. “Eu já nasci com o meu pai, Gil e o Caetano sendo melhores amigos,” disse. Nesse ambiente, Amora fez amizade com outra “filha do tropicalismo,” Preta Gil (1974-2025). As jovens começaram a carreira juntas nos anos 90, como assistentes de arte e figurino da produtora Conspiração. Daí veio a Globo.

Atualmente diretora artística de Quem Ama Cuida, novela das nove da emissora, chegou a Curicica para ser uma estagiária de assistência de direção, depois de uma espécie de cold call para Roberto Talma (1949-2015) incentivada por sua analista. Depois passou ao time de direção em O Cravo e a Rosa, em 2000, e, em 2012, foi diretora-geral de Avenida Brasil, um dos maiores fenômenos da televisão brasileira. 

Ao longo da entrevista, Amora reforça que o audiovisual é um trabalho prático e coletivo. 

Além de Talma, cita com influências Paulo José (1937-2021) e Walter Avancini (1935-2001), a quem chama de “um gênio, uma das pessoas com quem eu mais aprendi na vida.”; e também conta o passo a passo por trás de uma novela: começando com a sinopse, sempre trabalhando ao lado dos autores. “Eu respeito muito a hierarquia do texto,” disse.

Através do coletivo, Amora procura pessoas que a ampliem. “Quem nos potencializa, a gente gosta,” disse. Grande parte do sucesso de uma novela parte não somente da química entre os atores, mas também com a direção. “Tem a química de diretor e ator. A minha química com a Adriana Esteves, a minha química com a Isabel Teixeira, a minha química com a Tata… A química muda tudo,” disse.

A liderança, no entanto, tem seu preço. Quando Bonder pergunta sobre o desafio de ser mulher em posição de comando, Amora responde sem rodeios: “O principal desafio de ser líder e mulher é ser mulher num mundo de homens.” 

Ela afirma que a mulher ainda carrega uma expectativa arquetípica de apaziguar, amaciar, evitar conflito. “Eu não preciso de ninguém me dizendo que eu valho, porque eu já valho para mim,” disse.

A maturidade trouxe outra descoberta: a de que a falta pode ser uma ferramenta. Amora conta que hoje tenta gostar do que não tem. Quando algo falha ou a chuva não vem, a frustração pode virar criação. “Eu estou adorando o que eu não tenho. Isso, para mim, é uma conquista filosófica,” disse.

Essa filosofia também mudou sua visão dos personagens. Não há vilão puro, mocinho puro, coisa boa ou ruim em estado simples. Tudo é mais misturado. “Um vilão pode tomar um café da manhã triste,” disse, ressaltando que a televisão lhe permite entregar uma complexidade narrativa que a internet não possui. “Tudo é mais complexo e mais interessante,” disse.

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