O ano era 2007. Sentado à noite no cinema com sua esposa, Lloyd Blankfein estava fazendo o que fazia todos os dias: checar o P&L (profit and loss) de todas as áreas do banco.
Acostumado a fazer isso rotineiramente, o CEO da Goldman Sachs notou que um fundo da divisão de asset management que sempre se movia em média 6 bps (0,06%) movera-se 600 (6%) naquele dia.
Após questionar os responsáveis, Blankfein entendeu que o fundo, focado em arbitragem, não conseguia mais sair de uma posição e precisou forçar o preço. A liquidez estava secando, e as correlações entre os ativos começavam a se perder — algo típico de momentos de estresse. Era um presságio do maior desafio que qualquer CEO na história do banco já havia encarado.
A história acima é uma das passagens de Streetwise: Getting to and Through Goldman Sachs, a autobiografia de Blankfein recém-publicada pela Penguin Press e infelizmente ainda sem tradução no Brasil. (Compre aqui)
O sujeito careca e de humor seco do Brooklyn — já na cadeira mais alta da Goldman — já foi descrito pela imprensa como um fat cat clássico de Wall Street: o banqueiro bilionário que ajudou a quebrar a economia global e ainda declarou, em entrevista ao Sunday Times em 2009, que o banco estava fazendo “God’s work”. A frase, ele jura, foi uma ironia. Ninguém comprou.
O livro é uma autoanálise bem-humorada de um garoto humilde que sempre se sentiu deslocado em qualquer ambiente, mas que chegou ao posto mais alto de um banco de investimento lendário.
Blankfein cresceu na região mais barra pesada do Brooklyn. Seus pais se mudaram para lá quando o bairro ainda era ocupado por imigrantes europeus e seus descendentes. Em pouco tempo, a região se deteriorou a tal ponto que Blankfein, anos depois, contaria a Robert Steel, um de seus sócios no banco, a regra de sobrevivência que havia aprendido na Thomas Jefferson High School: você sobrevivia sendo atleta ou sendo engraçado. Ele escolheu ser engraçado. Outra regra vital era jamais atravessar o corredor rumo ao banheiro.
Tudo isso evidencia o tal do comportamento streetwise, isto é, a inteligência das ruas – aquela que é adquirida na perseguição pela sobrevivência, onde não existem regras; uma inteligência darwiniana.
Vivendo em um apertado apartamento com seus pais, a irmã e um sobrinho, ele já alimentava na adolescência o sonho americano de uma casa espaçosa nos subúrbios com jardim. Havia ali uma vontade de fugir do ninho e perseguir um caminho que ninguém em sua família havia trilhado.
Lloyd tinha tudo para não se tornar um banqueiro. Aliás, tinha tudo para acabar na mesma posição que seu pai, um humilde funcionário dos correios. Porém, o garoto esperto e curioso foi a uma feira de universidades e conversou com um sujeito que representava Harvard, que o aconselhou a tentar uma vaga. O garoto o fez sem a menor pretensão e foi aprovado com bolsa integral. Foi o primeiro de sua família a cursar uma faculdade.
A saída do ninho fez com que se sentisse um estranho, deslocado, sempre com a sensação de estar no lugar errado, assombrado por uma versão aguda da clássica síndrome do impostor.
Em Harvard, estudou ciências sociais, principalmente história, e depois entrou na prestigiosa Law School, tornando-se advogado. Durante esse período, não fez parte de nenhum clube exclusivo de alunos. Precisou trabalhar, e pela primeira vez compreendeu o mundo dos ricos e poderosos. O mundo começava a se abrir ali. Após a faculdade foi advogar e teve relativo sucesso, tornando-se uma promessa na firma onde estava.
Mas ainda faltava algo na vida profissional; existia uma inquietação. Como ele mesmo diz: “Em Nova York, ou você é advogado ou trabalha com finanças.” Lloyd conversou com todos os grandes bancos, incluindo a Goldman e as grandes consultorias.
Apenas um lugar se interessou pelo advogado de Harvard: uma corretora especializada em commodities chamada J. Aron.
Naquela época, a Aron parecia um Wild West clássico de Wall Street: barulho, gritos e figuras caricatas de um mercado que não existe mais.
Lloyd narra que, durante uma de suas entrevistas, um dos principais sócios da Aron, Daniel Susskind, o levou até a mesa e fez o resto da conversa gritando no meio dos barulhentos traders, que também gritavam. Se eles conseguissem se comunicar, então ele estaria dentro. Lloyd got the job e largou a advocacia. Detalhe: a troca significava ganhar menos no curto prazo.
Na Aron, ele era novamente um estranho no ninho, não por seu background, mas por ser um “Harvard boy”. Susskind o chamava de “college boy”, criando novamente um ambiente árido. Lloyd pegou rápido as funções e passou a atender clientes no mercado global de ouro — da Rússia ao Banco Central da África do Sul. Mas aqui há um detalhe que muda tudo: a Aron tinha acabado de ser comprada pela Goldman Sachs.
Ao longo de 25 anos, Lloyd escalou posições dentro da Aron, que também era, por si só, uma estranha no ninho do banco.
Ninguém ali era tão bem formado ou possuía os backgrounds familiares do banqueiro padrão da Goldman. Mas a Aron sabia ganhar dinheiro, assumia riscos e não apenas intermediava trades — uma cultura muito diferente da Goldman. Por estarem separados por andares e pelo preconceito existente, usaram isso a seu favor.
Lloyd ajudou a criar diversas mesas, como FX (câmbio) e renda fixa, e foi cavalgando chefias. Enquanto isso, a Goldman ia absorvendo a Aron num lento processo osmótico. Lloyd começou a ter contato com figuras como Bob Rubin, Jon Corzine e o próprio Chairman/CEO John Weinberg. Contratou um trader brilhante com dislexia, Gary Cohn, que décadas depois seria COO e co-presidente do banco.
Seu sucesso lhe rendeu, em 1988, a ascensão a partner. O advogado que entrou pela porta de trás da instituição, que antes havia lhe negado um trabalho, agora se tornava sócio.
Sua ascensão continuou ao longo dos anos, sempre coordenando a área de trading, que foi se tornando cada vez mais relevante nas receitas totais do banco.
Chegou ao posto de COO na gestão de Hank Paulson, que, em 2006, saiu para ser secretário do Tesouro no governo de George W. Bush. Logo, o posto de CEO e chairman estava livre para Lloyd.
Mais uma vez, o “estranho no ninho” se fez sentir: alguns sócios e membros do conselho queriam separar as funções de CEO e Chairman, mas Paulson lutou contra. O motivo implícito era que Lloyd vinha do trading, não das tradicionais operações de banco de investimento, e não tinha a mesma linhagem profissional ou educacional dos antigos CEOs da instituição.
Lloyd assumiu um navio que rumava rapidamente para a tempestade. E esta é, talvez, a parte mais interessante do livro: como ele pilotou o banco na pior crise financeira desde 1929.
Vários detalhes são conhecidos, mas ele foi pintado pela mídia como um banqueiro arrogante. Ombro a ombro com Jamie Dimon, participou de todas as reuniões e negociações ao longo daquelas semanas tensas, em que bancos como Bear Stearns, Wachovia (que quase se fundiu com a Goldman) e Merrill Lynch quase foram dizimados, culminando na explosão da Lehman Brothers.
A Goldman tinha quase nenhuma exposição direta ao setor imobiliário e possuía um poderoso hedge (credit default swaps) que lhe dava conforto, além de um amplo colchão de capital de US$ 120 bilhões (que acabou sendo consumido pela metade).
Porém, o hedge tinha como contraparte a AIG, que também estava por um fio. Para melhorar a imagem do banco e aumentar a confiança do mercado, Lloyd orquestrou uma injeção de capital de Warren Buffett. Foi uma jogada mais de marketing do que de estrutura de capital: se Buffett estivesse disposto a embarcar no navio naquele momento, era porque ele era seguro.
Streetwise vai muito além da clássica autobiografia de um CEO se vangloriando de seus bilhões. A força do livro está justamente na vulnerabilidade de um sujeito que, mesmo no topo do mundo, parece deitar no divã para dialogar com o leitor.
É o relato honesto de alguém tentando entender o próprio sucesso, apesar de ser completamente diferente dos figurões que o cercavam. Em paralelo, a obra é um prato cheio para os entusiastas do mercado, recheada de bastidores sobre trades épicos, a dinâmica da antiga partnership e a luta para preservar a cultura da Goldman depois do IPO.
No fim das contas, a trajetória de Blankfein convida a uma reflexão profunda sobre o valor do comportamento construído fora do formalismo acadêmico – o streetwise. Sua jornada prova que ser o “estranho no ninho” nem sempre é fraqueza. Muitas vezes, é exatamente essa falta de vínculos com o establishment, somada ao instinto de sobrevivência, que criam pessoas capazes de deixar uma marca.
Victor Candido é mestre em economia e diretor de business strategy na Revo.











