Em toda conversa sobre tecnologia, alguém pergunta qual será a próxima revolução. Em 2021, as apostas mais confiantes apontavam para o metaverso e a Web3, mas a revolução que chegou foi outra.
Errar assim não é falta de informação: é procurar o sinal no lugar errado. As revoluções não se anunciam por datas; anunciam-se por um custo que começa a despencar.
Em março de 2006, a Amazon lançou um serviço de armazenamento chamado S3, sem fila nem evento. Quase ninguém prestou atenção. No ano seguinte, o iPhone chegaria com filas dobrando o quarteirão. Foi aquele lançamento silencioso que criou a nuvem, sem a qual nem o smartphone viraria plataforma nem a inteligência artificial existiria.
A cada dez anos uma tecnologia redefine como compramos, pagamos, trabalhamos e aprendemos. O padrão seduz, mas descreve o efeito, não o mecanismo. A cadeia real é outra: o progresso técnico contínuo provoca, de tempos em tempos, o colapso do custo de uma atividade; o colapso viabiliza produtos antes impossíveis; e a adoção em massa do que se tornou viável é o que chamamos de revolução. O padrão é nítido no retrovisor; pelo para-brisa, quase ninguém o enxerga.
E cada onda herdou a anterior: a internet explode nos anos 2000; a nuvem chega em 2006, o iPhone em 2007, e ambos dominam a década seguinte; a inteligência artificial vira fenômeno de massa no fim de 2022, e só existe porque a nuvem barateou a computação e a web acumulou décadas de conhecimento humano. Essa herança explica a velocidade: a internet esperou o modem; o smartphone esperou o 3G; a inteligência artificial não precisou esperar nada. O ChatGPT chegou a 100 milhões de usuários em dois meses, contra dois anos e meio do Instagram, porque chegou como um site, aberto no mesmo instante por bilhões de smartphones conectados.
A velocidade engana: cem milhões testando um chatbot é curiosidade, não transformação econômica. Em 1999, empresas acrescentavam pontocom ao nome sem modelo de negócio; em 2026, anunciam AI sem saber onde há produtividade e onde há vitrine. A fricção de acesso caiu quase a zero; a institucional, de reorganizar empresas, adaptar regulação e mudar hábitos, segue cobrando o preço de sempre. O uso explode em meses. A estrutura muda em década.
É nessa fricção que mora o trabalho mais valioso da década. A tecnologia, sozinha, não cria ordem: ela escala o que a organização já tem, e automatizar um processo confuso é escalar a confusão. Quando a ferramenta custa quase zero, a pergunta difícil muda de lugar: já não é o que a tecnologia consegue fazer, e sim o que cada empresa deve fazer com ela, em que ordem, com quais limites e sob qual controle.
Nas ondas anteriores, ganhou quem dominou a ferramenta primeiro; nesta, ela está ao alcance de todos. O economista Herbert Simon observou, ainda em 1971, que a abundância de informação cria escassez de atenção. Agrawal, Gans e Goldfarb refizeram essa conta para a inteligência artificial em Prediction Machines, de 2018: quando a predição fica barata, valoriza-se o que a máquina não entrega, o julgamento. É a mesma conta, em outra moeda: a abundância de análise cria escassez de critério, a capacidade de decidir o que fazer com tanta ferramenta.
O sinal prático: cada onda derrubou um custo tido como inevitável. A internet, o de distribuir informação; a nuvem e o smartphone, o de acessar computação; a inteligência artificial derruba agora o de produzir e processar conhecimento.
No meu campo, meios de pagamento, o contorno é claro. Cada onda realocou o ato de pagar: da loja para a tela, da tela para o bolso. A da vez não é automatizar o pagamento, coisa que o débito automático fez há décadas e o Pix Automático refez em trilho instantâneo; é delegar a própria decisão de compra, a escolha do fornecedor, o preço, o momento, executados por um agente de software dentro de limites que o consumidor define.
Isso já saiu do papel: em março, as maiores bandeiras concluíram no Brasil as primeiras transações iniciadas por agentes, e os primeiros pilotos já estão em campo. O Brasil chega a essa onda com heranças raras: o Pix e o iniciador de pagamento do Open Finance. Adoção em massa ainda é probabilidade: hoje há infraestrutura e piloto, não hábito. Mas quando a compra vira delegação, a regulação terá de responder a uma pergunta nova: quem atesta a identidade de um agente que compra e paga em nosso nome?
Fora dos pagamentos, a lição vale para qualquer negócio e cabe em duas perguntas distintas. A primeira olha para a operação: qual custo parece impossível de reduzir? É ali que vale buscar produtividade e testar a IA primeiro, com critério.
A segunda, mais desconfortável, olha para a proposta de valor: quanto do que você entrega sobrevive quando a parte que a máquina faz passa a custar zero? Uma aponta onde ganhar eficiência; a outra, onde reinventar o negócio.
Fica o exercício: na sua operação, qual custo todos já aceitaram como inevitável? Comece por ele. A segunda pergunta, cedo ou tarde, baterá à porta sozinha.
Edson Santos é fundador e sócio da Colink. É autor de “Do Escambo à Inclusão Financeira” e do “Trilhos Invisíveis”, que sai em agosto.











