A Duratex sempre foi conhecida por seus compensados de madeira e pelas louças sanitárias da marca Deca.

Mas ontem à noite, a companhia anunciou uma transação que marca sua entrada no mercado mundial de celulose, reduzindo sua exposição aos ciclos da economia brasileira – e com um desembolso mínimo de capital.

A ação chegou a subir 12% na máxima do dia e, por volta das 15h45, era negociada em alta de 6,7%, com volume mais de quatro vezes superior à média diária.

A Duratex fechou uma joint venture com a austríaca Lenzing para construir a maior fábrica de celulose solúvel do mundo em Minas Gerais. A brasileira ficará com 49% da nova empresa e a sócia, com 51%. Ao todo, a fábrica vai demandar US$ 1 bilhão em investimentos.

O pulo do gato: a maior parte da contribuição da Duratex será o aporte de uma floresta de 43 mil hectares no Triângulo Mineiro. Originalmente, esta floresta seria usada para abastecer uma fábrica de painéis de madeira, mas o projeto foi vitimado pela recessão da economia.

O projeto da JV será financiado com 40% de equity e 60% de dívida, a ser contratada diretamente pela nova companhia.

Analistas estimam que a floresta está sendo avaliada em cerca de R$ 500 milhões na transação, fazendo que a Duratex tenha que desembolsar apenas entre R$ 200 milhões e R$ 250 milhões em suaves prestações ao longo do investimento na fábrica. A obra deve começar no segundo semestre de 2019, com conclusão prevista para 2022.  

Além de reduzir a dependência da vacilante economia brasileira, o investimento vai colocar a Duratex na rota de um dos segmentos de celulose que mais crescem no mundo. A celulose solúvel é utilizada principalmente pela indústria têxtil, para a fabricação de viscose, e a demanda cresce entre 5% a 6% ao ano, o dobro da taxa de expansão da celulose de fibra curta, utilizada para produção de papel.

A tonelada da celulose solúvel é negociada hoje a US$ 940, com um spread de US$ 170 por tonelada frente à celulose de fibra curta, segundo o BTG.

A localização da floresta deve garantir ainda que a fábrica seja uma das mais eficientes do mundo. A matéria-prima deve ficar a uma distância de menos de 50 quilômetros da fábrica – cuja locação exata ainda não foi divulgada – e está próxima à Ferrovia Centro Atlântica, que fará o escoamento para o Porto de Santos.

A Lenzing é a líder na produção de fibras baseadas em madeira do mundo, com 17% do mercado, e usa a celulose solúvel como matéria-prima. A austríaca fechou um contrato de ‘take or pay’ pelo qual se compromete a comprar toda a produção da planta, livrando a Duratex do risco de demanda.

Aplicando um múltiplo de 7,5 vezes o EBITDA para o projeto, o Bradesco calcula que a nova fábrica deve valer ao todo entre R$ 3,2 bilhões e R$ 4,4 bilhões – avaliando a parte da Duratex de R$ 1,5 bilhão a R$ 2,2 bilhões. Esta faixa representa entre 27% e 36% do market cap da companhia no fechamento de ontem.

A transação acontece em meio a uma consolidação do mercado de celulose. Além da fusão da Fibria com a Suzano, que ‘desencantou’ este ano, a indonésia RGE acaba de comprar a Lwarcel.

Castigada por anos de demanda fraca no mercado de construção civil, a Duratex vinha buscando diversificar sua atuação e diminuir seu endividamento – e a monetização das florestas é parte crucial do processo.

Em fevereiro, a companhia vendeu terras e florestas para a Suzano por R$ 308 milhões. A Suzano ainda tem a opção de compra de mais R$ 750 milhões em ativos até o dia 2 de julho.