O marqueteiro político James Carville disse certa vez que, se houver reencarnação, ele gostaria de voltar ao plano terreno como o bond market, porque “ele intimida todo mundo”.

Agora, o bond market está intimidando o próprio Secretário do Tesouro, Scott Bessent.

Um dia depois de Bessent anunciar que aumentará as recompras dos Treasuries de 10, 20 e 30 anos – uma forma de empurrar para baixo os juros longos –, as taxas voltaram a subir e fecharam hoje novamente próximas do nível mais alto desde 2007 (antes da crise financeira global).

Os juros dos Treasuries de 30 anos subiram para 5,25%, e o 10-year está pagando 4,7%.

Procurando acalmar as ansiedades com relação ao crescimento tenebroso da dívida americana, Bessent hoje foi à CNBC dizer que os investidores não devem prestar atenção ao “ruído” de curto prazo, e afirmou que vai anunciar nos próximos dias um plano com “foco maior na consolidação fiscal.”

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Segundo o Deutsche Bank, o aumento dos programas de recompras foi relativamente modesto – com o total podendo chegar a US$ 16 bilhões por trimestre, caso se torne permanente. Mas a notícia foi divulgada “fora da programação habitual de refinanciamento trimestral” do Tesouro, e o momento “parece ter sido cuidadosamente calculado para maximizar o impacto imediato no mercado.”

Em boa parte do mundo, o cenário é de inflação persistentemente acima da meta e orçamentos deficitários, pressionando os juros para cima. Isso tem colocado prêmio nos juros longos, num ambiente em que os governos competem por capital com os investimentos trilionários das companhias de infraestrutura de AI.

“A história mostra que as intervenções no mercado de títulos têm limites,” disse o UBS num relatório. “O Japão e o Reino Unido oferecem lições úteis. Ambos os países utilizaram recompras ou ajustes na emissão para influenciar os rendimentos de longo prazo. Embora essas medidas possam trazer alívio temporário, elas não reduziram de fato os custos da dívida enquanto a dinâmica fiscal e inflacionária permanecerem desfavoráveis.”

Quando Bessent assumiu o Tesouro, em janeiro do ano passado, uma de suas metas era reduzir pela metade o déficit orçamentário legado por Joe Biden, derrubando o número de 6% do PIB para 3% do PIB. Mas o programa de corte de gastos não andou, e surgiram pelo caminho novas despesas, como as guerras na Ucrânia e no Irã. 

O rombo segue ao redor de 6% do PIB, o que em dólares significa mais de US$ 2 trilhões este ano. Sem uma correção de rota, o rombo tende a crescer, elevando a necessidade de refinanciamento do Governo dos EUA em uma conjuntura de juros esticados em todo o mundo.

O endividamento público americano acaba de superar US$ 40 trilhões pela primeira vez na história – praticamente o dobro dos US$ 23 trilhões do final de 2019, antes da pandemia.

Como percentual do PIB, a dívida em títulos dos EUA passou de 100% pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. (Em 2001, depois de uma sequência de quatro anos de superávits orçamentários, esse percentual era de apenas 32%.)

Quando falta dinheiro, o Tesouro precisa emitir – e quando o mercado pede prêmio, a curva abre.

Segundo José Carlos Carvalho, o economista-chefe da Vinci Compass, o que Bessent está fazendo para reduzir o prêmio da curva longa é o que no passado se chamou de ‘operação twist’.

“Quando ele compra a dívida longa, a taxa cai. Mas tudo que ele comprar na parte longa ele vai ter que vender na parte curta,” disse Carvalho. “Vai colocar pressão nos juros de curto prazo.”

O Tesouro decidiu incluir também os Treasuries de 10 anos nos buybacks.

“Simplificando um pouco, é o que tem feito o Brasil,” comentou um gestor. “Quando os juros longos sobem muito, como agora, o nosso Tesouro encurta o prazo da dívida, porque está enfrentando dificuldade para colocar em prazos maiores.”

Os buybacks são uma gota no oceano dos trilhões do endividamento americano, mas Bessent – que fez carreira como gestor de hedge fund – procura com isso reagir aos sinais do mercado, disse Eduardo Camara Lopes, o CIO da Jubarte Capital.

Outro ponto, disse o gestor, é que o mercado perdeu visibilidade sobre quando a inflação vai perder força em meio à sequência de choques dos últimos anos. E se já não houvesse ‘novidades’ o bastante, há ainda as dúvidas com relação à condução do Federal Reserve sob seu novo presidente, Kevin Warsh.

06 25 Kevin Warsh ok

“O Warsh está querendo implementar um monte de mudanças no modelo do Fed, mas o mercado ainda não entendeu muito bem qual será o framework,” disse Lopes. “Parece que ele vai dar mais peso para a inflação, mas a gente está na dúvida se ele vai morder ou vai ficar só latindo. Então temos um monte de incertezas.”

Last but not least, há menos compradores hoje para os títulos americanos. Governos como Japão e China já não adquirem Treasuries maciçamente como no passado. O percentual da participação da dívida mobiliária americana nas mãos de entidades oficiais estrangeiras caiu para 12%. Esse percentual já foi superior a 40% antes da grande crise de 2008.

São sinais de que o dólar vem perdendo seu status de safe haven.