Há uma aparente contradição na indústria brasileira. Investimos em Tecnologia e Inteligência Artificial em níveis próximos à média global do setor. Ainda assim, nossa maturidade digital permanece abaixo do benchmark internacional e poucas empresas conseguem transformar experimentos tecnológicos em impacto em escala.

Essa distância importa especialmente agora. Há duas décadas, a produtividade brasileira cresce a apenas um terço do ritmo global e, na indústria, recuou aproximadamente 7% desde 2014. Nossa análise indica que Tecnologia e IA podem ajudar a mudar essa trajetória, liberando entre US$ 18 bilhões e US$ 23 bilhões em valor econômico adicional por ano nas Indústrias Avançadas brasileiras, que incluem setores como automotivo, aeroespacial, máquinas e equipamentos, eletrônicos e semicondutores.

Realizar essa oportunidade exige ir além da adoção de tecnologia. A tecnologia atua como uma força de aceleração sobre um processo que, sem ela, seria muito mais lento: o de reduzir o abismo de produtividade que separa o Brasil das economias mais avançadas. O desafio, portanto, é usá-la de forma consistente para encurtar essa distância e desenvolver as capacidades necessárias para sustentá-la ao longo do tempo.

Em 26 de agosto, a McKinsey reúne, em São Paulo, líderes C-level no AI & Digital Forum para discutir como transformar estratégia e tecnologia em impacto nos negócios. Manifeste seu interesse em participar. A participação será confirmada posteriormente.

A distância entre investir e transformar

A defasagem tecnológica brasileira ainda é importante. Temos entre 20 e 30 robôs para cada 10 mil trabalhadores, ante aproximadamente 160 na China e 430 na Alemanha.

Mas há uma nuance. Nas Indústrias Avançadas brasileiras, os gastos com Tecnologia e IA equivalem a aproximadamente 1% das receitas, alinhados à média global do setor. Embora exista um problema histórico de adensamento de capital e automação, aumentar indiscriminadamente o orçamento de tecnologia não resolverá a questão.

O desafio aparece com mais clareza na maturidade digital.

Em pesquisa com mais de 30 empresas líderes, que representam cerca de 40% do PIB das Indústrias Avançadas no Brasil, o setor alcançou 64% no Índice de Maturidade Digital, ante 72% do benchmark global. Mais interessante do que a distância agregada é onde ela aparece. As empresas demonstram uma visão estratégica relativamente consolidada sobre Tecnologia e IA, mas encontram mais dificuldades na construção de capacidades e, principalmente, na execução.

Apenas 10% das empresas pesquisadas mensuram o retorno sobre o investimento de suas iniciativas digitais. Sem saber quais geram resultados, torna-se mais difícil decidir onde concentrar capital, talento e atenção da liderança — e quais apostas interromper.

Quando um piloto encontra a organização

Essa dificuldade ajuda a explicar o “purgatório de pilotos”. Empresas demonstram o potencial de novas tecnologias em ambientes delimitados, mas não conseguem disseminá-las pelo negócio. Mais da metade leva de seis a 12 meses para implementar um piloto bem-sucedido. Somente 24% avançam para a escala e apenas 7% chegam a uma transformação completa.

Um piloto pode funcionar dentro de uma equipe, linha ou fábrica. Disseminá-lo exige dados confiáveis, integração com sistemas legados, novas capacidades e mudanças em processos e responsabilidades. Os obstáculos tampouco são exclusivamente tecnológicos: escassez de talentos digitais e resistência à mudança cultural estão entre as principais barreiras.

É nesse ponto que maturidade digital deixa de ser uma medida de adoção tecnológica e passa a expressar uma capacidade da organização.

Começar pelo valor

Superar essa lacuna exige mudar a unidade de transformação. Em vez de perguntar “onde podemos aplicar IA?”, é preciso identificar quais processos têm peso relevante na economia do negócio e poderiam funcionar de maneira fundamentalmente diferente.

O potencial se concentra principalmente em manufatura e cadeia de suprimentos, seguidas por desenvolvimento de produtos, vendas e procurement. Dezenas de pilotos dispersos podem produzir menos impacto do que transformar poucos domínios críticos de ponta a ponta.

Considere uma fábrica. Dados de equipamentos podem alimentar modelos de manutenção preditiva; gêmeos digitais podem simular cenários de produção; algoritmos podem ajustar parâmetros operacionais; ferramentas de IA podem ajudar operadores a identificar problemas. Conectadas, essas capacidades mudam a maneira como a operação é gerida.

O resultado vem da combinação entre tecnologia, processos, dados, pessoas e gestão, e não da ferramenta isolada. É essa a lógica de Rewired, abordagem que utilizamos para orientar transformações de Tecnologia e IA. Desenvolvida a partir da experiência com transformações digitais ao redor do mundo, ela articula seis dimensões necessárias para chegar à escala e construir a capacidade de transformar continuamente os domínios mais relevantes do negócio.

A agenda do CEO

Isso muda a discussão sobre investimento. Mais capital continuará sendo necessário, mas a oportunidade de Tecnologia e IA não se resume a comprar equipamentos, contratar software ou ampliar pilotos. O ponto central é fazer esses investimentos se traduzirem em desempenho econômico.

Para CEOs, isso significa definir quais domínios justificam uma transformação profunda, concentrar capital e talento neles, estabelecer métricas econômicas e remover obstáculos à disseminação. Essa responsabilidade dificilmente pode ser delegada. Rever processos, dados, sistemas, capacidades e formas de trabalhar envolve decisões que atravessam fronteiras organizacionais e exigem arbitragem da liderança máxima.

Tecnologia e IA não resolverão, sozinhas, uma lacuna de produtividade. Capital, infraestrutura, qualificação da mão de obra e ambiente de negócios continuarão determinantes. Há, porém, uma parcela relevante dessa equação sobre a qual as empresas podem agir diretamente.

A questão agora é converter experimentação tecnológica em capacidade empresarial: escolher onde a tecnologia pode alterar de fato a economia do negócio e construir as condições para sustentar essa mudança.

Alessandro Rosa é sócio sênior e líder de Indústrias Avançadas para a América Latina.

Yran Dias é sócio sênior e líder de Tech & AI Transformation (Rewired) para a América Latina.

Siga o Brazil Journal no Instagram

Seguir