Pense no impacto de dez Revoluções Industriais acontecendo dez vezes mais rápido. É assim que Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind, descreve a transformação provocada pela inteligência artificial. Para CEOs, a pergunta agora é quais empresas conseguirão se reorganizar antes que novas vantagens competitivas se consolidem.

Questões antes restritas à tecnologia passaram a redefinir estratégia, alocação de capital, estrutura organizacional e vantagem competitiva. Como a captura de valor será redistribuída? Quais capacidades continuarão diferenciando empresas? Quais modelos perderão relevância em um ambiente em que inteligência e execução deixam de ser limitadas pela escala humana?

O desafio é que essas decisões precisam ser tomadas em meio à ambiguidade. Grandes rupturas tecnológicas não costumam oferecer clareza antes de transformar mercados.

Foi assim com a eletrificação, a internet e a computação em nuvem. A diferença é que a AI combina velocidade, escala e capacidade adaptativa em um nível sem precedentes.

Como resumiu Jensen Huang, CEO da Nvidia, em conversa recente com a McKinsey: “Se você precisa de ROI comprovado antes de agir, você não deveria ser CEO”. A frase sintetiza o desafio desta era.

O fim da AI como assistente

O que muda agora é a velocidade com que sistemas inteligentes começam a executar trabalho cognitivo complexo de forma autônoma. Em 2025, menos de 1% do código publicado era escrito por AI. No início de 2026, esse número já superava 20%.

As implicações vão muito além da produtividade. O custo de execução de atividades intensivas em conhecimento cai rapidamente, comprimindo barreiras históricas de escala e alterando a dinâmica competitiva entre setores.

Modelos de negócio convergem, empresas de serviços avançam sobre mercados antes dominados por plataformas de software, e sistemas agênticos assumem parcelas crescentes da execução operacional.

Empresas que aplicam AI apenas para acelerar processos internos podem ganhar eficiência sem construir diferenciação competitiva. Mas o verdadeiro impacto virá da capacidade de reinventar negócios.

A reprogramação do negócio

Essa mudança também pressiona a lógica organizacional das empresas. Estruturas desenhadas para coordenar trabalho humano em larga escala perdem eficiência à medida que sistemas inteligentes assumem parte crescente da execução.

A mudança atinge número de camadas, velocidade de decisão, modelos de coordenação e tamanho das equipes.

As organizações mais avançadas já operam com pequenas equipes híbridas nas quais agentes inteligentes deixam de funcionar como suporte periférico e passam a ter participação direta na operação do negócio.

Nesse ambiente, profissionais atuam menos como executores e mais em supervisão, julgamento, criatividade e relacionamento.

Enquanto disseminam AI para ampliar a produtividade cotidiana, essas empresas criam pequenos grupos encarregados de redesenhar jornadas críticas do zero. Esses times funcionam como células dedicadas à transformação de fluxos centrais do negócio.

O novo papel do CEO

O envolvimento direto do CEO é o diferencial das organizações que conseguem transformar experimentação em vantagem competitiva.

A mais alta liderança atua como arquiteta da reorganização: redefine prioridades estratégicas, acelera decisões e integra tecnologia, operação, talento e modelo de negócio antes da consolidação de novos vencedores no mercado.

Em transformações tecnológicas anteriores, líderes podiam delegar parte relevante da execução. Agora, reorganizar a empresa é a própria estratégia.

Tudo isso vem acompanhado de um desafio humano inédito. A velocidade e a escala das mudanças ampliam ansiedade, ambiguidade e pressão dentro das organizações.

Tornar empresas fluentes em AI demandará lideranças capazes de criar alinhamento, desenvolver novas capacidades e construir uma visão crível sobre o futuro do negócio em meio à ruptura.

O mercado não espera clareza

A história das grandes disrupções tecnológicas não se mostra favorável às organizações que hesitam. Ela favorece quem se reorganiza primeiro.

Nesta transição, o custo de agir devagar deixa de ser apenas a perda de eficiência. O risco passa a ser a irrelevância.

Mercados raramente esperam quem decide tarde demais.

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Tracy Francis é sócia sênior e Managing Partner da McKinsey para a América Latina.

Yran Dias é sócio sênior da McKinsey e líder de Transformação AI & Tech na América Latina.

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