A alta de preços voltou a acelerar no Brasil e nos EUA um movimento que promete ser um dos fatores mais críticos nas eleições dos dois países no segundo semestre.
Os aumentos nos índices de inflação divulgados ontem mostram os impactos da guerra no Oriente Médio sobre os preços de combustíveis e energia. Mas há também outros focos de pressão, dificultando os cortes esperados do Banco Central e do Federal Reserve.

No Brasil, o IPCA subiu 0,67% em abril e, no acumulado em doze, atingiu 4,39% – acelerando pelo segundo mês seguido e deixando a variação anual próxima da margem de tolerância da meta, que é de 4,5%.
No mês, o maior peso veio no grupo de alimentos e bebidas, seguido pelos reajustes nos medicamentos. Mas as altas vão muito além de fatores sazonais ou influenciados pela guerra.
A Goldman Sachs destacou que “as pressões no setor de serviços permanecem intensas e disseminadas.” Apesar de um recuo em alguns grupos, a inflação de serviços continua rodando próxima de 6% ao ano.
Com isso, o BC terá diante de si um cenário mais complicado – o que poderá abreviar o ciclo de redução da Selic.
“O contexto de uma dinâmica de preços ainda desafiadora, a deterioração renovada das expectativas de inflação, o hiato do produto positivo [crescimento acima do potencial], mercado de trabalho apertado e uma série de medidas fiscais e de crédito às vésperas das eleições exige, em nossa opinião, uma calibração conservadora do ciclo de normalização da política monetária,” escreveu o economista Alberto Ramos.
Para Alexandre Maluf, da XP, os números mostraram que os preços dos serviços não vêm mostrando sinal de alívio.
“As surpresas altistas foram bastante disseminadas, o que é preocupante,” disse o economista. “Os estímulos fiscais recentemente anunciados pelo Governo e pelos estados introduzem um viés de alta na nossa projeção de 6% para a inflação de serviços em 2026.”
Maluf ressaltou que a inflação acumulada entre março e abril superou em 0,8 ponto percentual as projeções divulgadas pelo BC em março.
O time macro da XP projeta um IPCA de 5,3% para 2026 e de 4% para 2027. Com relação à Selic, a expectativa é de cortes de 0,25 ponto percentual nas três próximas reuniões do Copom, com a taxa recuando de 14,5% para 13,75%.
Já o Bank of America espera um ciclo de cortes ligeiramente mais prolongado, apesar do repique inflacionário.
“Continuamos prevendo que o Copom vai realizar cortes consecutivos de 25 pontos-base, ganhando tempo até que os preços do petróleo se normalizem,” escreveu David Beker, economista e estrategista do banco para a América Latina. “Isso levaria a taxa Selic a 13,25% até o final de 2026.”
Olhando adiante, dois fatores poderão colocar os preços dos alimentos em viés de alta. O primeiro é o custo dos fertilizantes, caso a guerra no Oriente Médio se prolongue. O segundo é o El Niño, previsto para o segundo semestre.

Nos EUA, a inflação em doze meses subiu a 3,8% em abril – o maior índice desde maio de 2023.
As categorias impactadas pela guerra vêm registrando grandes reajustes, com destaque para a gasolina, com uma disparada de 28% em doze meses – um custo que atinge em cheio a confiança do consumidor americano.
O núcleo da inflação – que exclui os preços de energia e alimentos – também está em alta e foi a 2,8%. Algumas categorias continuam a refletir as tarifas de Donald Trump sobre os importados.
Os salários dos americanos não estão conseguindo acompanhar o aumento no custo de vida. Os números divulgados ontem mostraram uma queda real de 0,3%, o primeiro recuo desde abril de 2023.
A alta nos preços derrubou a aprovação de Trump, que pode sair enfraquecido nas eleições legislativas de novembro.
No mercado futuro de juros, diminuíram as apostas de que o Fed retomará o alívio monetário. A curva dos contratos já não precifica nenhuma redução até o final de 2027 e cresceu a probabilidade de que haja uma alta no final deste ano.
“Neste momento, suspeito que o Fed simplesmente manterá as taxas inalteradas,” Mark Zandi, o economista-chefe da Moody’s, disse à CNBC. “O fator decisivo serão as expectativas de inflação – e, se elas continuarem subindo, o Fed provavelmente voltará a elevar as taxas.”
O Fed não mexeu nos juros em suas três reuniões deste ano; as taxas permanecem na faixa entre 3,5% e 3,75%.
A próxima reunião do Fed será em 16 e 17 de junho – já sob o comando de Kevin Warsh, que assume com pouco espaço para entregar a redução dos juros cobrada publicamente por Trump.











