A Apple criou um “carnezinho gostoso” para os seus produtos – e Wall Street gostou do que viu.
A empresa lançou nos EUA o Apple Upgrade, um programa de aluguel de iPhones, iPads, Macs e Apple Watches operado pela Klarna, a fintech sueca de buy now pay later.
O cliente paga uma mensalidade por 12 a 36 meses, dependendo do produto. No final, pode devolver o aparelho, trocar por um modelo mais recente ou pagar o saldo restante para ficar com ele – o mesmo modelo que o Itaú criou com a Allied em 2020.

Um iPhone 17 Pro de US$ 1.099, por exemplo, custa US$ 31,99 por mês em um contrato de 24 meses. O consumidor desembolsa US$ 767,76 durante o período, mas precisa devolver o aparelho ou pagar o valor residual para se tornar dono.
Segundo a Apple, os preços começam em US$ 17,99 para o iPhone, US$ 11,99 para o Apple Watch e o iPad e US$ 24,99 para o Mac.
A iniciativa é uma nova tentativa de tirar do papel um plano desenvolvido cinco anos atrás.
Segundo a Bloomberg, a Apple chegou a trabalhar em uma assinatura administrada internamente pelo time do Apple Pay, mas abandonou o projeto diante das dificuldades operacionais e do maior escrutínio regulatório sobre suas iniciativas financeiras.
No modelo anunciado, a Apple preserva a experiência de venda mas transfere para a Klarna funções como a análise de crédito, cobrança e parte dos riscos financeiros e regulatórios.
O momento não poderia ser mais conveniente para a Apple.
A escassez de memória elevou os custos da indústria e levou a Apple a aumentar os preços de Macs e iPads. Também há a expectativa de aparelhos ainda mais caros, como um iPhone dobrável de mais de US$ 2 mil.
A assinatura muda a referência do consumidor: em vez de avaliar se vale a pena pagar US$ 1 mil ou US$ 2 mil por um aparelho, ele decide se uma mensalidade de algumas dezenas de dólares cabe no bolso.
Caso isso aconteça, será uma mudança brutal na maneira como os americanos consomem – e num momento em que eles sentem o peso da inflação em seus bolsos.
Wall Street aplaudiu o movimento.
No Bank of America, o analista Wamsi Mohan classificou o programa como “direcionalmente positivo”.
A nova estrutura pode antecipar a troca de aparelhos, levar o consumidor para modelos mais caros, e trazer de volta ao ecossistema da Apple a demanda que hoje é perdida quando um usuário vende seu celular para outro diretamente.
Para o BofA, isso abre a possibilidade de a Apple participar mais da monetização desse mercado secundário – mas ainda não está claro como o valor residual será dividido entre a Apple e a Klarna.
O banco manteve sua recomendação de compra e preço-alvo de US$ 380 para a Apple – a ação negocia hoje a US$ 309.
Para a Klarna, o impacto pode ser ainda maior. A boutique de investimentos Keefe, Bruyette & Woods avaliou que a parceria fortalece a presença da fintech no financiamento ao consumo e entre os grandes varejistas americanos.
A ação da Klarna sobe 10% desde o anúncio da parceria, na semana passada.
Mas há riscos para a tese. Segundo a Bloomberg, como os aparelhos da Apple preservam bem seu valor, comprar ou financiar um produto e revendê-lo custa menos para os clientes do que alugá-lo na perpetuidade.
Mas a aposta da companhia é que poucos consumidores farão essa conta. A ideia é que a facilidade de pagar uma parcela menor e conseguir trocar o aparelho de maneira mais rápida acelere a adesão dos clientes.
O Apple Upgrade também pode ser apenas o primeiro passo de um programa de assinaturas mais amplo da companhia.
A Bloomberg diz que executivos já discutiram a possibilidade de reunir hardware, AppleCare, iCloud, música e vídeo numa única cobrança mensal.
Resultado: todo o ecossistema se tornaria uma assinatura.
“Vamos observar qual será a adesão dos clientes, mas o retorno inicial tem sido bastante positivo,” o CEO Tim Cook disse na teleconferência de resultados da Apple – sua última, antes de passar a cadeira a John Ternus em setembro.
A ação da Apple sobe 51% nos últimos doze meses. A empresa vale US$ 4,5 trilhões.











