Embaralhando assuntos de Estado com questões pessoais e partidárias, o Governo Lula decidiu rebaixar unilateralmente as relações diplomáticas com a Argentina para a categoria de encarregado de negócios.
O Itamaraty deu a notícia ao embaixador argentino em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, na terça-feira, pedindo que ele se retirasse do País.
A retaliação diplomática foi uma resposta à sequência de ataques verbais desferidos por Javier Milei contra Lula.
Em uma entrevista ao La Nación, no domingo, Milei repetiu comentários que havia feito anteriormente, chamando Lula de “ladrão” e “corrupto”.
O argentino manteve as críticas feitas no seu discurso em São Paulo, em 25 de julho, durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Na entrevista, Milei afirmou que parece ser “muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar”, e disse que o petista “foi solto por causa de uma falha processual”.
“Ele não é inocente.”
O Governo Lula reagiu institucionalmente.
Além do rebaixamento argentino, o Itamaraty determinou que o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, permaneça no Brasil por tempo indeterminado. Ele havia sido convocado a retornar a Brasília para consultas sobre a crise bilateral.

Assim, tanto a representação diplomática do Brasil em Buenos Aires como a da Argentina em Brasília ficarão sem seus respectivos embaixadores.
Em uma nota ontem à noite, a Chancelaria argentina afirmou que o Brasil agiu “unilateralmente” e disse que “lamenta sua decisão de continuar se isolando do restante da região por questões puramente ideológicas”.
“Nestes últimos anos, ocorreram numerosos episódios de declarações e apoios políticos cruzados entre líderes de ambos os países. Em todos esses casos, sem exceção, a Argentina optou por não transformá-los em um incidente diplomático,” diz a nota. “Nunca respondemos a uma diferença política com uma medida institucional. Este critério é o que a Argentina mantém hoje.”
Ainda de acordo com a Chancelaria argentina, “as relações entre os Estados devem responder aos interesses permanentes de seus povos, e não ficar subordinadas às necessidades políticas ou pessoais dos governantes da vez.”
A retaliação brasileira ocorreu, coincidentemente ou não, no mesmo dia em que o Governo Trump anunciou o cancelamento do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em resposta à demora do Brasil em conceder o agrément para Daniel Perez como o novo embaixador dos EUA em Brasília, bem como à negação de vistos para servidores americanos que acompanhariam as eleições brasileiras.
Lula disse hoje que a revogação do visto de Viotti foi uma “atitude irresponsável, impensada para os dois países, que têm uma relação diplomática há 200 anos.”
A diplomacia entre os três países descambou para a rinha política, sem sinais de apaziguamento até o resultado de outubro.
Um ex-embaixador brasileiro disse ao Brazil Journal que, se é verdade que o País tem razões para condenar as interferências eleitorais de Trump e Milei, os argentinos também possuem motivos de sobra para condenar as atitudes pregressas de Lula interferindo na política argentina.
Um dos episódios emblemáticos ocorreu em maio de 2023, quando a Argentina, governada pelo kirchnerista Alberto Fernández e tendo Cristina Kirchner como vice, vivia uma crise cambial profunda.
Com o respaldo do Brasil, uma comitiva da Argentina, liderada por Sergio Massa, o ministro da Economia e futuro candidato governista à Presidência, foi a Xangai negociar uma linha de socorro financiada pelo Banco dos Brics. Apesar da pressão brasileira, o empréstimo não prosperou por causa da nota de crédito ruim da Argentina e também porque o país nem mesmo é sócio da instituição financeira.
Pouco depois, em agosto daquele ano, Fernández voou para Brasília e pediu novamente o apoio de Lula. Massa, já então apontado como candidato governista, participou da viagem a título de negociar linhas de financiamento comercial.
Não adiantou. A economia argentina continuou derretendo e Milei ganhou a eleição.

Em julho do ano passado, Lula esteve em Buenos Aires para participar da Cúpula do Mercosul. Fora da agenda oficial, fez questão de se reunir com a antiga companheira Cristina Kirchner, que vive em prisão domiciliar cumprindo pena por corrupção.
A “visita solidária” precisou de autorização judicial – algo que Milei lembrou quando o Alexandre de Moraes negou seu pedido para visitar Bolsonaro, também em prisão domiciliar.
Após o encontro, Lula deixou-se fotografar empunhando um cartaz com os dizeres Cristina Libre. O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, estava a seu lado.
O ato pegou mal em círculos políticos e diplomáticos da Argentina, mas não deixou de ser uma demonstração de gratidão à solidariedade prestada por Alberto Fernández, em julho de 2019. Ex-chefe de gabinete de Néstor Kirchner, o argentino era então o candidato kirchnerista à Presidência e visitou Lula na prisão de Curitiba.
Toda essa “solidariedade” política não tem afetado só a diplomacia. Vem impactando também os negócios brasileiros com EUA e Argentina – que, depois da China, ainda são os maiores parceiros comerciais do País.
“Podemos imaginar o que irá acontecer nos próximos 8 ou 10 anos, caso Lula seja reeleito e um republicano, seja Marco Rubio ou JD Vance, seja o novo presidente dos EUA,” disse um diplomata. “E o Brasil está se isolando também de diversos outros países da região que elegeram governos de direita, como Chile, Colômbia e Bolívia.”











