O Brasil está ficando mais velho – e rápido. A proporção de pessoas com mais de 60 anos no total da população praticamente dobrou desde 2000 e, segundo o IBGE, deverá superar a de crianças até 2030.

Trata-se de uma mudança sem precedentes em nossa história e que já começa a redefinir os desafios da saúde no País.

O envelhecimento da população não apenas transforma a demografia, mas passa a redesenhar a economia. Em diversos países ganha força o conceito de “economia prateada,” que reúne atividades, serviços e inovações voltados às necessidades de uma população cada vez mais longeva e que já movimenta R$ 1,8 trilhão por ano.

Da saúde ao mercado de trabalho, do urbanismo aos serviços de cuidado, a longevidade deixa de ser apenas um fenômeno demográfico e passa a influenciar os hábitos de consumo, as políticas públicas e a própria organização da vida social. E, no centro desse processo, está uma nova forma de pensar a saúde e o envelhecimento.

Viver mais deixou de ser exceção. Nas últimas décadas, avanços no saneamento, na educação, na medicina, na vacinação e no tratamento de doenças cardiovasculares e infecciosas ampliaram significativamente a expectativa de vida dos brasileiros, que hoje supera os 76 anos (um extraordinário avanço de mais de 31 anos desde 1940).

Mas com o avanço da idade média, cresce também a prevalência de doenças crônicas como hipertensão, diabetes, câncer e doenças osteoarticulares e neurodegenerativas.

Segundo a OMS, quase 30% das mortes no Brasil são provocadas por problemas cardiovasculares, 18% por câncer e 5% por problemas decorrentes da diabetes, males quase sempre debilitantes.

Os custos de tratamento são crescentes e ameaçam a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia mostram que o SUS gasta cerca de R$ 1 bilhão por ano em procedimentos cardiovasculares de alta complexidade. A Fiocruz calcula que os custos públicos diretos com o tratamento do câncer superam R$ 4 bilhões por ano.

A medicina continuará sendo fundamental no tratamento dessas condições, mas o foco da saúde se desloca progressivamente. É cada vez mais necessário agir antes que esses males apareçam, promovendo a saúde, prevenindo fatores de risco e ampliando o número de anos vividos com qualidade. O novo desafio, portanto,  não é apenas acrescentar anos às nossas vidas, mas vida aos nossos anos.

É o de longevidade saudável. Como ampliar a vida com autonomia, funcionalidade e bem-estar? 

Este objetivo torna a prevenção e o diagnóstico precoce pilares centrais da medicina. Programas estruturados de rastreamento e acompanhamento clínico permitem identificar fatores de risco e detectar doenças em estágios iniciais, quando as chances de tratamento bem-sucedido são maiores.

Exames, avaliações clínicas periódicas e programas estruturados de acompanhamento permitem uma visão mais abrangente da saúde do indivíduo, favorecendo intervenções precoces e monitoramento de doenças crônicas ao longo do tempo.

Ao integrar conhecimento clínico, tecnologia e dados populacionais, essas abordagens ampliam a capacidade de identificar riscos antes que se transformem em doença, contribuindo para a promoção da longevidade saudável.

A crescente atenção dedicada ao tema da longevidade trouxe consigo uma proliferação de promessas e soluções pouco fundamentadas cientificamente. Em meio a suplementos milagrosos, terapias experimentais e modismos de curta duração, torna-se ainda mais importante reafirmar o papel da ciência e da medicina baseada em evidência. Promover longevidade saudável não depende de atalhos ou fórmulas mágicas, mas de conhecimento acumulado, acompanhamento médico qualificado e estratégias preventivas bem estabelecidas.

Ao mesmo tempo, a ciência tem avançado  na identificação de fatores capazes de preservar saúde e funcionalidade ao longo do envelhecimento. Nas últimas décadas, acumulou-se um poderoso conjunto de evidências de que alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono reparador, vacinação e manejo adequado do estresse exercem influência direta sobre a saúde ao longo da vida. E dimensões antes menos exploradas pela medicina, como a saúde da mulher no climatério e a manutenção de vínculos sociais, passam a integrar de forma cada vez mais consistente a abordagem médica do envelhecimento.

Conforme o conceito de longevidade saudável ganha força, evolui a forma de organizar o cuidado em saúde. Em alguns dos principais centros médicos do mundo, programas dedicados à longevidade passaram a integrar diagnóstico de precisão, prevenção, acompanhamento clínico, atividade física orientada e práticas voltadas ao bem-estar. Agora, esse movimento também começa a ganhar espaço no Brasil.

À medida que a população envelhece, a pergunta deixa de ser apenas quantos anos viveremos. Passa a ser como os viveremos. O verdadeiro progresso está em transformar décadas adicionais de vida em décadas adicionais de saúde, autonomia e participação ativa na sociedade. No fim, a longevidade saudável talvez seja o mais ambicioso projeto coletivo de uma sociedade que aprendeu a viver mais e que agora precisa aprender a viver melhor.

Jeane Mike Tsutsui é médica livre-docente em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP e CEO do Grupo Fleury.

Edgar Gil Rizzatti é hematologista e diretor executivo médico do Grupo Fleury.