A Eli Lilly anunciou hoje a compra da AtaiBeckley – uma fabricante de medicamentos psicodélicos experimentais – por US$ 2,8 bilhões, à medida que a indústria farmacêutica começa a abraçar tratamentos alternativos para a saúde mental.

O preço da operação, de US$ 6,75 por ação em dinheiro, representa um prêmio de 26% em relação ao fechamento da AtaiBeckley ontem. 

O acordo também prevê o pagamento de mais US$ 2,50 por ação, ou US$ 1 bilhão, caso os medicamentos da AtaiBeckley cumpram metas de desenvolvimento e regulamentação.

A ação da empresa abriu em alta de 33% em Nova York após o anúncio, para US$ 7,15. O papel da Eli Lilly sobe 2,4%.

Fruto de uma combinação de negócios entre a atai Life Sciences e a Beckley Psytech, a AtaiBeckley foi fundada no ano passado pelo empresário alemão Christian Angermayer e tem Peter Thiel entre os investidores.

O seu medicamento mais promissor até agora é o BPL-003, um spray nasal para o tratamento de quadros de depressão resistente à base de 5-MeO-DMT – um psicodélico natural encontrado em plantas e no veneno do sapo bufo alvarius, ou sapo do Deserto de Sonora.

O produto está na terceira fase dos ensaios clínicos e os primeiros resultados devem ser divulgados em 2029. Em etapas anteriores, pacientes relataram uma melhora considerável dos sintomas em até dois dias depois da administração de uma dose da medicação. 

Os participantes disseram ainda que os efeitos positivos associados à medicação persistiram por até oito semanas; e que a experiência psicodélica após a utilização do medicamento durou entre uma e duas horas. 

Como outras drogas semelhantes requerem até oito horas de observação, este pode ser um grande diferencial do BPL-003.

Caso chegue ao mercado, a medicação será uma opção ao Spravato, o spray nasal da Johnson & Johnson à base de escetamina que já está sendo utilizado no tratamento de depressão resistente e também requer duas horas de observação após a administração.

Além do BPL-003, a AtaiBeckley está desenvolvendo outras duas drogas para tratamentos associados à saúde mental: o VLS-01, também para quadros de depressão resistente, mas que é uma película que dissolve na boca à base de DMT, uma substância alucinógena que é o princípio ativo da ayahuasca; e o EMP-01, uma cápsula à base de MDMA (utilizado na produção de ecstasy) para tratar fobia social.

Outras startups como Definium Therapeutics e AbbVie também têm desbravado o negócio de medicamentos psicodélicos, que ganhou ímpeto nos últimos meses depois de ensaios clínicos promissores e do Presidente Trump assinar uma ordem executiva para acelerar as pesquisas na área.

O mercado pode atingir US$ 7 bilhões em vendas até 2032, segundo analistas da Bloomberg Intelligence.

Para a Eli Lilly, que multiplicou suas receitas nos últimos anos com canetas de emagrecimento, trata-se de uma renovada aposta no setor de medicamentos neurológicos, área em que atua desde o lançamento do Prozac há mais de 30 anos.

A aquisição também faz parte da estratégia de crescimento da farmacêutica, que disse aos acionistas que gastaria até US$ 25 bilhões em M&As este ano.

A AtaiBeckley vale US$ 2,6 bilhões na Bolsa.

A Eli Lilly vale US$ 1,1 trilhão.