“Prepare-se. A recessão está a caminho,” escreveu o historiador e consultor Niall Ferguson, em seu recente artigo na The Free Press. “A guerra no Irã está estrangulando o fornecimento global de energia. A história mostra que choques como esse raramente terminam sem uma recessão.”

Segundo Ferguson, as “consequências econômicas sombrias” à frente – a “combinação catastrófica de estagnação e inflação” – têm levado Donald Trump a buscar uma saída diplomática para a guerra que ele mesmo começou.

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Até agora, nada de acordo para um armistício – e o estrangulamento do Estreito de Ormuz está sufocando a economia mundial.

No Polymarket, as apostas exprimem agora um risco de 37% de uma recessão nos EUA ainda em 2026, ante uma probabilidade de 22% antes dos bombardeios americanos e israelenses contra Teerã.

Larry Fink, o CEO da BlackRock, disse à BBC na semana passada que um barril a US$ 150 significará certamente uma “recessão global” – e esse poderá ser o cenário mesmo em caso de uma trégua nos bombardeios.

“Se houver um cessar-fogo mas o Irã continuar sendo uma ameaça, uma ameaça ao comércio, uma ameaça ao Estreito de Ormuz, uma ameaça à coexistência pacífica do Conselho de Cooperação do Golfo, então eu diria que poderíamos ter anos com o petróleo acima de US$ 100, chegando perto de US$ 150,” disse Fink.

As cotações do petróleo subiram cerca de 50% no último mês e continuam firmes acima de US$ 100.

O contágio inflacionário ao redor do mundo fez os investidores e analistas reprecificar a perspectiva para os juros.

Segundo o Morgan Stanley, desde o início das hostilidades, em 28 de fevereiro, a alta nas taxas futuras dos títulos americanos já representa o equivalente a uma alta de 95 basis points na Fed funds, a taxa que é estipulada pelo Federal Reserve.

“O aperto nas condições financeiras dos últimos 30 dias reverteu todo o ciclo de redução do início do ano,” disse o banco num relatório.

A alta no custo do dinheiro se deveu basicamente ao aumento nos yields do Treasuries de 10 anos. “A apreciação do dólar e o aumento nos spreads de crédito tiveram até agora um papel secundário,” disseram os analistas do Morgan Stanley.

O rendimento dos títulos de 10 anos recuou ligeiramente hoje para 4,33%. Antes do início dos bombardeios, oscilava ao redor de 4%.

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Os investidores vêm precificando um maior risco inflacionário, mas, segundo o Morgan Stanley, um aumento mais acentuado e duradouro no preço do petróleo “poderá destruir a demanda de tal maneira que os efeitos sobre o crescimento se sobreponham ao impulso nos preços de curto prazo.”

Para Kelsey Berro, uma gestora de renda fixa no JP Morgan Asset Management, a “cada dia de conflito ficamos mais próximos da perspectiva de o mercado ser forçado a considerar as implicações mais negativas para o crescimento, o que, em última análise, deve levar a uma queda nos rendimentos dos títulos do Tesouro,” ela disse à Bloomberg.

O Citi ponderou que a economia global é hoje mais resiliente a choques de energia do que era duas décadas atrás. Houve diversificação de fontes e aumento da eficiência – mas o efeito da guerra não se resume ao petróleo.

“Estão sob risco as cadeias globais de fornecimento de itens críticos como fertilizantes e semicondutores,” disse o banco. “O aumento das incertezas poderá ameaçar enfraquecer o consumo e os investimentos.”

O cenário-base do Citi é uma expansão do PIB mundial de 2,7% este ano. Mas o barril persistentemente acima de US$ 100 pode derrubar o crescimento para 1,7% e elevar a inflação em 2 pontos percentuais.

“Os bancos centrais enfrentam o dilema de combater a inflação e, ao mesmo tempo, sustentar o crescimento,” disse o banco. “Acreditamos que uma estratégia de ‘watch and wait’ seria apropriada, embora os bancos centrais tenham sido muito lentos em adotar medidas de aperto monetário após a pandemia.”

Nos países da zona do euro, a inflação se aproxima de 3%, o maior nível em dois anos, distanciando-se da meta de 2%.

Cresceram as apostas de que o Banco Central Europeu poderá fazer até três altas ainda neste ano. Na semana passada, comentários hawkish da presidente da instituição, Christine Lagarde, aceleraram a empinada na curva.

“Se o choque gerar um overshoot significativo, embora não muito persistente, algum ajuste moderado da política monetária poderá ser justificado,” disse Lagarde.

 

De acordo com a presidente do BCE, deixar o repique inflacionário “completamente sem resposta pode representar um risco de comunicação: o mercado pode ter dificuldade em entender uma ‘função de reação’ que não reage”, em referência aos modelos de atuação da autoridade monetária.

Para o ING, entretanto, ainda é cedo para cravar que haverá de fato uma reação – e um dos motivos é que a economia encontra-se em desaceleração.

“Para que o BCE volte a discutir aumentos nos juros, precisaria observar uma ampliação disseminada das pressões inflacionárias. Até o momento, a guerra tem afetado a confiança empresarial e do consumidor,” escreveram os analistas do banco.

“O mercado de trabalho entra nesse choque energético em uma posição mais frágil do que em 2022, e os cofres públicos estão mais limitados. É menos provável um estímulo em larga escala para compensar a alta da energia.”

No Brasil, o mercado também vem se ajustando ao novo cenário. O Boletim Focus divulgado hoje mostrou que a expectativa para o IPCA neste ano foi a 4,31%. Há quatro semanas, os analistas previam uma variação de 3,91%. A expectativa para o crescimento do PIB foi a 1,85%, praticamente estável.

O Itaú acaba de revisar suas estimativas e manteve a previsão de crescimento de 1,9% para 2026.

“A ligeira revisão negativa que estamos fazendo na projeção de PIB mundial e a perspectiva de maior contração monetária serão compensadas pelo efeito positivo [para o Brasil] da elevação do preço do petróleo e incorporação de um cenário mais positivo para o crédito habitacional,” disse o banco. “Cabe notar, contudo, que o viés de alta diminuiu diante de uma eventual desaceleração global mais intensa resultante do conflito.”