Transformar projetos sociais e ambientais em realidade se assemelha a erguer um edifício em terreno instável. Os recursos públicos e filantrópicos funcionam como as fundações: essenciais para iniciar a obra, mas insuficientes para suportar toda a estrutura.

Faz-se necessário, portanto, adicionar concreto e aço através do capital privado, para complementar e garantir escala e perenidade que só chegam quando existe segurança de que a base é sólida.

Nessa analogia, o blended finance corresponde ao cálculo estrutural que identifica pontos de tensão, distribui riscos e organiza a engenharia financeira, convertendo as necessidades do País em empreendimentos sustentáveis.

O termo blended finance ganhou notoriedade na Agenda de Ação de Adis Abeba. Trata-se do uso estratégico de financiamento de desenvolvimento – público ou filantrópico – para mobilizar recursos privados.

A prática combina subsídios, garantias, empréstimos com juros reduzidos ou prazos extensos, e instrumentos de capital próprio com capital comercial de investidores e bancos, criando condições para que projetos de elevado impacto social possam atrair financiamento.

No setor de água e saneamento, essa abordagem é essencial. A OCDE calcula que as perdas econômicas associadas à ausência de infraestrutura hídrica adequada somam cerca de US$ 260 bilhões por ano, e que até 2050 serão necessários investimentos de pelo menos US$ 22 trilhões para financiar a infraestrutura global do setor. Nenhum país consegue arcar sozinho com esse volume; portanto, atrair capital privado para complementar recursos públicos é uma necessidade, não apenas uma opção.

A mistura de capital concessional com recursos privados reduz o risco percebido, amplia o universo de investidores e multiplica o volume de capital mobilizado. Cada dólar de recursos subsidiados pode alavancar várias vezes esse valor em capital comercial, acelerando projetos que enfrentam dificuldades de financiamento como é o exemplo da EcoInvest, programa que disponibiliza recursos do Tesouro Nacional onde os bancos necessitam alavancar na proporção de 6:1 ou as estruturas de A/B Loan que muitos dos bancos de fomento como a IFC e BID oferecem – estruturas que já usamos na Sabesp.

Além disso, as estruturas de blended finance estabelecem metas de impacto social e ambiental, como expansão do acesso à água potável, redução de emissões e conservação da biodiversidade, alinhando os projetos a critérios ESG.

Exemplos no exterior mostram o sucesso dessa estratégia. O WaterEquity Fund II, com US$ 50 milhões, empresta a microfinanciadoras para banheiros e sistemas de água, alcançando mais de um milhão de pessoas.

No Quênia, a Kenya Innovative Finance Facility for Water transformou € 7 milhões em capital concessional em 17 projetos que somam € 150 milhões.

Em Bangladesh, um programa de microfinanças gerou 170 mil ligações domiciliares e beneficiou 750 mil pessoas. Na América Central, a Azure Source Capital, com US$ 10 milhões de capital misto, já melhorou o abastecimento de 52 mil famílias e apoiou 187 provedores.

Estes casos demonstram como a combinação de capital catalítico com metas de impacto permite escalar soluções.

A situação brasileira evidencia a urgência desse tipo de financiamento. Quase 32 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com rede de esgoto. A Lei 14.026, de 2020, determinou que o Brasil deve universalizar o saneamento até 2033. No Estado de São Paulo, os contratos de concessão preveem que esses serviços cheguem a praticamente toda a população até 2029.

A Sabesp precisará investir ao menos US$ 14 bilhões até 2029 para cumprir essas metas, e o blended finance se tornou um pilar estratégico para garantir que estes investimentos aconteçam. Só em 2025, a Sabesp captou quase US$ 4 bilhões no mercado, com parte significativa por meio de estruturas de blended finance.

Como ele reduz riscos, mobiliza recursos maiores e orienta projetos a resultados mensuráveis, governos, empresas e investidores deveriam aprimorar essa engenharia financeira para garantir que o direito ao saneamento chegue para todos.

Daniel Szlak é o CFO da Sabesp.