A última vez que o Brasil venceu uma Copa foi em 2002, no Japão, quando Ronaldo Fenômeno marcou duas vezes contra a Alemanha e levantamos o pentacampeonato com um time que parecia saído de um videogame: Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu, Roberto Carlos. Talvez aquela tenha sido uma das últimas vezes em que o brasileiro se sentiu inevitável.
Não era só no futebol: havia uma sensação difusa de que o País finalmente encontraria seu lugar no mundo. O hexa parecia questão de tempo, o desenvolvimento também.
Cresceríamos porque éramos o Brasil. Porque sempre demos um jeito. Porque nosso talento resolveria.
Mas o tempo passou. E talvez o problema tenha sido exatamente esse: continuamos vivendo emocionalmente no passado promissor. Tanto no esporte quanto na vida pública, incluindo a economia.
Outro dia, conversando sobre carreira, me dei conta de uma coisa curiosa. Conheço muito mais pessoas disciplinadas, consistentes e organizadas que venceram na vida do que pessoas apenas talentosas.
O talento é mágico, encanta, cria momentos históricos – mas também pode ser perverso. Porque o talento, quando funciona cedo demais, às vezes convence alguém de que processo é opcional. E o Brasil foi brilhante por tempo suficiente para acreditar que improviso era método.
Enquanto isso, o futebol virou ciência, intensidade, repetição, gestão de base, preparação mental, dados, estratégia. Hoje até seleções medianas conseguem competir em alto nível porque aprenderam a construir sistemas. Já o Brasil continua procurando o próximo camisa 10 salvador da pátria, um novo Pelé pra entrar em campo. A economia brasileira parece ter seguido roteiro parecido.
De 2003 a 2025, nosso PIB cresceu cerca de 66,4%, enquanto o PIB mundial cresceu quase o dobro: 124,3%. Enquanto isso, países que antes observávamos de cima começaram a avançar em produtividade, educação, inovação, indústria e infraestrutura. E nós? Seguimos presos numa espécie de looping emocional entre euforia e frustração. O famoso “voo de galinha”.
Crescemos um pouco, comemoramos como potência global, tiramos selfies e depois nos deparamos com os mesmos problemas estruturais de sempre. O Brasil lembra aquele jogador veterano de pelada que ainda acha que vai decidir a partida no talento, embora o joelho já não acompanhe mais a memória. Talvez a palavra correta seja anestesia, porque ela não significa “ausência de dor”, e sim a perda gradual de sensibilidade.
O brasileiro continua trabalhador, criativo e resiliente. Continua acordando às cinco da manhã, pegando transporte lotado, empreendendo sem crédito, criando filhos em condições difíceis e ainda conseguindo sorrir. Potencial humano nunca nos faltou.
O que nos faltou foi aceitar que talento sem processo produz lampejos, não legados. E existe algo cultural nisso tudo. Romantizamos demais o improviso, gostamos do herói improvável, do drible desconcertante, da gambiarra genial, da solução de última hora. Isso faz parte da nossa identidade e da nossa criatividade.
Mas em algum momento passamos a tratar planejamento como burocracia e disciplina como excesso de rigidez. Só que o mundo não funciona assim.
As empresas mais valiosas do planeta são obcecadas por processo. Os atletas mais dominantes repetem fundamentos até a exaustão. Países que cresceram de forma consistente nas últimas décadas investiram pesado em educação, produtividade e estratégia de longo prazo. Quase nada acontece por acaso. Nem no futebol.
A Alemanha que nos venceu por 7 a 1 em 2014 não construiu aquilo numa tarde inspirada. Existia um projeto, uma reformulação estrutural iniciada anos antes, depois de fracassos dolorosos.
Enquanto isso, nós transformamos o trauma em meme, piada e catarse coletiva – mas talvez tenhamos aprendido pouco. E aqui mora o ponto mais crítico, o Brasil ainda não acordou para o fato de que o mundo deixou de nos “esperar”, de nos ver como futura potência.
Não somos mais automaticamente favoritos no futebol. Não somos automaticamente protagonistas na economia – nunca fomos, na verdade. E reconhecer isso não deveria ser motivo de pessimismo; pelo contrário, talvez seja o primeiro passo da maturidade.
Porque toda mudança importante começa quando alguém abandona a ilusão confortável de que “uma hora vai”. Uma hora não vai. Não sem processo, não sem continuidade, não sem disciplina coletiva, não sem capacidade de pensar décadas em vez de apenas o próximo ciclo eleitoral, o próximo trimestre ou a próxima Copa do Mundo.
O hexa ainda pode vir, um dia. O crescimento sustentável também. O Brasil continua tendo energia humana, criatividade e recursos para voltar a ocupar um lugar relevante no mundo. Mas precisamos parar de procurar salvadores e começar a construir estruturas. A pergunta é se teremos coragem para isso, para desafiar um sistema predador, independentemente do lado que se escolhe.
Ou se continuaremos assistindo aos melhores momentos de um futuro que nunca aconteceu, enquanto o resto do mundo já está jogando em outra liga.
Hugo Rodrigues é sócio da WMcCann e empreendedor.











