No escritório de Pelerson Penido Dalla Vecchia, no coração da Vila Madalena, em São Paulo, amostras de rochas e pedras trituradas não são mera decoração.
Mais conhecido como Peleco, o produtor rural e CEO do Grupo Roncador mostra com entusiasmo as diferenças entre as rochas, suas características geológicas – e, principalmente, a lista de macronutrientes que elas carregam.
Se antes Peleco era obcecado pelo que estava acima da terra — e por como tornar a agropecuária mais produtiva e sustentável — agora ele volta sua atenção ao que está abaixo do solo.
O Grupo Roncador vai entrar no mercado de fertilizantes ainda este ano com um remineralizador natural extraído de suas minas de calcário no Mato Grosso, num momento em que o mercado de insumos sofre com a instabilidade da guerra no Irã.
Por décadas, a Fazenda Roncador ostentou o título de ser “a maior do Brasil”, com 150 mil hectares no município de Querência – uma área equivalente a duas vezes a da cidade de Nova York, incluindo os 5 boroughs.
A propriedade foi comprada no final dos anos 70 pelo avô de Peleco, Pelerson Penido Soares, que fez fortuna com a construtora Serveng (que trabalhou na construção de Brasília), além de ter fundado a viação Pássaro Marrom e participado da criação da CCR (hoje Motiva).
Localizada no Vale do Araguaia, uma região de transição entre o Cerrado e a Amazônia, a fazenda gigante também foi um símbolo da pecuária extensiva, quando chegou a ter 100 mil cabeças de gado e 80% de sua área com solo degradado.
Quando assumiu a liderança do grupo no início dos anos 2000, Peleco implantou a integração lavoura-pecuária, uma estratégia de produção sustentável que combina as duas atividades na mesma área. “A nossa agricultura não existe sem a nossa pecuária. E a nossa pecuária não existe sem a nossa agricultura,” o CEO disse ao Brazil Journal.
A propriedade também passou a utilizar insumos biológicos e desenvolver novas tecnologias de recuperação de solo.
Em 2021, após a morte de Rosa Penido, a mãe de Peleco, a Roncador foi dividida entre o produtor e seus dois irmãos, Caio e Eduarda. Coube a Pelerson, então, uma área de 53 mil hectares e as operações de infraestrutura do grupo, incluíndo as duas minas de calcário, também no Mato Grosso.
Antes mesmo da divisão do grupo, a mineração era tida como um negócio ruim. A formação geológica das minas, em que outras rochas sedimentares se sobrepõem em camadas, dificultava a extração de calcário de alto teor para correção de solo, um insumo aplicado em quase todas as propriedades rurais do Brasil.
Os sócios do Roncador decidiram, em 2017, que era melhor vender os ativos, e delegaram a Peleco a tarefa.
“Era só custo. Não dava dinheiro. Para conter o prejuízo, a gente começou a fazer brita para a construção civil,” lembra Peleco, que teve que abandonar as competições como peão de rodeio depois de um acidente. “Por outro lado, a gente estava em busca de algo que pudesse substituir o cloreto de potássio, um dos fertilizantes mais utilizados na agricultura brasileira.”
Boa parte do cloreto de potássio utilizado no agronegócio nacional é importado e carrega as instabilidades geopolíticas para dentro das fazendas brasileiras.
A Rússia é uma das maiores produtoras de potássio do mundo e, com a guerra na Ucrânia, em 2022, o preço do cloreto de potássio chegou a subir 50% logo no início do conflito. E em 2025, os russos ameaçaram aplicar cotas de exportação para dar preferência ao mercado doméstico.
Outro problema do cloreto de potássio é a pegada de carbono. Da extração na Rússia ao produto entregue no Mato Grosso, o que inclui o transporte marítimo e percorrer longas distâncias nas rodovias brasileiras, as emissões do cloreto de potássio chegam a 570 quilos de CO2 equivalente por hectare.
Foi então que Peleco decidiu estudar melhor as minas que o grupo queria vender. Em parceria com a Universidade Federal de Goiás, o grupo fez análises geoquímicas e descobriu que aquelas rochas continham macronutrientes como potássio, magnésio, silício e fósforo, além de cálcio. “Descobrimos quase uma tabela periódica,” disse Peleco.
Restava saber se aquelas rochas, depois de trituradas e transformadas em um pó finíssimo, fariam diferença para a atividade agropecuária.
Um primeiro teste com 500 hectares, em 2020, trouxe resultados surpreendentes: nas áreas em que o pó de rocha substituiu o cloreto de potássio, foram colhidas nove sacas a mais de soja.
Desde então, o grupo Roncador passou a testar diferentes concentrações do “silicálcio”, como o produto foi registrado em 2025, em substituição total ou parcial do cloreto de potássio.
Hoje, o pó de rocha é aplicado nos 53 mil hectares da fazenda de Querência e em áreas que o grupo arrenda da SLC no Mato Grosso e áreas próprias no interior de São Paulo. Hoje, a empresa colhe cerca de 1,2 milhão de sacas de soja por ano.
Nas contas de Peleco, o custo do silicálcio nas lavouras de soja é de R$ 700 por hectare frente ao R$ 463 do cloreto de potássio. A diferença é que o remineralizador natural tem entregado entre nove e dez sacas a mais do grão, o que gera uma receita extra, em média, de R$ 1 000 por hectare.
A aplicação do produto em áreas de pastagens também apresentou melhora no crescimento e na qualidade do capim, permitindo aumentar a taxa de ocupação das áreas de pecuária e a produtividade por animal.
Em 2025, a Roncador tirou 58 arrobas por hectare, contra 14 arrobas em 2020. Detalhes: a média das fazendas de gado no Brasil é 4,9 arrobas por hectare. Com um rebanho de 70 mil cabeças de gado, a empresa vendeu 55 mil animais para o abate no ano passado.
O resultado não é mérito exclusivo do silicálcio, mas do uso combinado do pó de rocha com outras tecnologias regenerativas como a “sopa de floresta” – um composto preparado a partir de substrato da floresta e potencializado com silagem em uma biofábrica dentro da própria fazenda.
“Estamos sempre buscando reduzir a nossa matriz de risco em relação aos químicos das grandes multinacionais. Em 2025, a gente diminui 81% a quantidade de ingredientes ativos por hectare em relação aos químicos,” disse Peleco.
A aposta no silicálcio fez com que Peleco pagasse R$ 30 milhões por mais duas licenças de exploração mineral em áreas próximas às atuais.
A Roncador agora está preparada para produzir 2 milhões de toneladas de silicálcio por ano, e a comercialização do produto começa no segundo semestre.
Peleco acredita que seu remineralizador natural vai chegar mais longe com a inauguração do primeiro trecho da Ferrovia Estadual de Mato Grosso, uma obra da Rumo prevista para entrar em operação no segundo semestre.
“Muito produtor vai levar sua soja para o porto seco da ferrovia e a gente pode se beneficiar com o frete de retorno, alcançando regiões de até 1000 quilômetros de distância,” disse Peleco, que além do grupo Roncador tem uma participação na Raiar, a empresa de ovos orgânicos, e investe em projetos imobiliários da incorporadora Idea!Zarvos.
Em um agronegócio historicamente dependente de insumos importados, Peleco aposta que a próxima revolução pode vir — literalmente — de debaixo dos pés.






